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Eu nasci em Anadia (AL), no dia 2 de janeiro de 1961. O parto foi normal, e como todos ou quase todos nascido no interior, fui assistido pela parteira Nina Chagas ‒ minha segunda mãe, assim eu a considerava. Meus pais moravam à época na rua Cel. Costa Nunes, antiga rua Nova, 333.

        A minha vida não foi, nem é marcada pelo sofrimento. As dificuldades pelas quais passei não têm nada de extraordinário. Conheço muita gente que comeu e ainda come o pão que o diabo amassou.

É inegável que tive perdas que me marcaram: a morte dos meus pais, da minha única irmã, do meu tio Jonas, de amigos queridos e fraternos ‒ eram irmãos, muitos de copo e de cruz, e de identidade política e ideológica.

        As adversidades ajudam e podem servir de plataforma de superação e também como ensinamento de vida.

Não sou o tipo que fica pensando no passado como se dele quisesse modificar situações que vivi, onde ganhei e perdi. O meu tempo é o tempo presente. Ou como diz Paulino da Viola: “O meu mundo é hoje; não existe amanhã pra mim”. O passado serve como uma referência e me faz bem.

        Em 59 anos de vida, muitas vezes me vi derrotado. Esses momentos nunca foram de longa duração. Encontrei forma e maneira de superar e arquivar a derrota. Não quero dizer com isso que os tenha esquecido, mas extraí deles algum ensinamento. A minha vida foi até aqui comum, quase besta.

        O dinheiro nunca foi um objetivo; como disse Caetano Veloso: “não me amarra dinheiro não, mas formosura”. O que atrai e me encanta são as belezuras da vida, as coisas simples que emergem na literatura, na música, na dança, nas artes de um modo geral, e nos esportes.

        Mais vale para mim uma roda de boas conversas do que bolar planos para ganhar dinheiro, para me tornar em mais um rico. Ganhei muito mais entre os amigos. Sinto-me tão feliz assim que as pessoas não são capazes de imaginar, nem mesmo os que estão próximos.

        Lembro-me de minha mãe a me dizer em tom de reprimenda: “você só anda com doido”. Anos depois li Nise da Silveira, uma extraordinária cientista alagoana, que disse: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas ajuizadas. É necessário se espantar, se indignar e se contagiar; só assim é possível mudar a realidade”.

        E cada vez mais o meu olhar para além da política se volta para a vida comum das pessoas. Tenho lentamente repensado a vida e procuro uma nova maneira de viver, muito diferente daquela como vivi. Trabalhei fichado durante 39 anos na iniciativa privada e no serviço público; hoje posso dizer que adquiri a minha carta de alforria, não tenho patrão, nem chefe. Sou um homem livre.

Tenho procurado fazer coisas simples, como sempre fiz em minha vida. No momento, inspiro-me em Paulinho da Viola, que canta versos lindos na canção “Novos Rumos”. Dizem assim: “Vou imprimir novos rumos/ Ao barco agitado que foi minha vida/ Fiz minhas velas ao mar/ Disse adeus sem chorar/ E estou de partida/ Todos os anos vividos/ São portos perdidos que eu deixo pra trás/ Quero viver diferente/ Que a sorte da gente/ É a gente que faz”.

        Muita gente com quem me relaciono na virada de cada ano planeja o ano que se inicia, estabelece metas; são semelhantes a empresas privadas. Alguns amigos e amigas têm a ousadia de estabelecer metas mensais. Eu, nesse quesito sou um fracasso; uma ou duas vezes que me propus planejar, não cumpri nada, absolutamente nada. Esqueci-me de tudo como se estivesse acometido de alguma demência.

        Nessa altura da vida, sinto-me livre de compromissos profissionais, da chatice burocrática, das intrigas palacianas e de bajuladores. Estou em pleno gozo da liberdade, não preciso medir as palavras antes de falar. E tão importante quanto, não preciso prestar contas dos meus atos e atividades.  

        Jamais me imaginei nesse estado de liberdade pessoal. Acordo e não tenho agenda ou reunião. Acordo cedo, mas para caminhar na orla: essa é a minha única obrigação. Trata-se de uma prescrição médica.  

        Os meus compromissos, a maioria marco no entorno da minha casa, no bairro, em sorveteria, café, botequins. O meu traje social é camiseta, bermuda e chinelo. Planilha, prestação de contas, assinatura de documentos, despachos, nada disso voltará, assim espero, a dirigir os meus destinos.

        Definitivamente não quero, por opção, conviver com chatos(as) e mal-humorados(as). Quero e planejo viver e conviver com gente saudável, pra cima, de bom astral. Esse é um projeto em construção. O resto pode se danar, ou como disse o poeta Vinicius de Moraes: “Eu caio de bossa/ Eu sou quem eu sou/ Eu saio da fossa/ Xingando em nagô./ Você que ouve e não fala/ Você que olha e não vê/ Eu vou lhe dar uma pala/ Você vai ter que aprender/ A tonga da mironga do kabuletê [...]”.

Em 2020 vou trabalhar e me juntar cada vez mais com os que querem derrotar politicamente essa besta que governa o Brasil. Em breve nós o xingaremos em nagô; que ele e sua turma vão pra tonga da mironga do kabuletê.

O que eu mais desejo na vida é envelhecer vivendo num Brasil democrático e com o povo com direito a comida, a trabalho, a moradia, a poder se aposentar e viver alegre, sambando e dançando em todos os ritmos.

Esse é o Brasil com que eu sonho.