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O livro Uma gota de sangue, História do pensamento racial, propõe-se a ser um libelo contra o racismo e as leis raciais. Conta de vários ângulos histórias macabras produzidas pelo mito da raça, diz-nos a antropóloga Yvonne Maggie.

Para além do terrível holocausto promovido pelo nazismo durante a Segunda Guerra Mundial, a escravidão como sistema econômico e opressão humana, de recente memória, Demétrio aborda a discussão da existência das raças como uma invenção humana.

E nesse sentido ele vai na contramão do chamado pensamento Politicamente Correto dos dias atuais, combate o multiculturalismo como expressão hegemônica acadêmica e midiática, e que hoje silencia muita gente que não concorda com essas formulações, quer seja por simples pragmatismo político, sobrevivência econômica, ou outras justificativas, observa-se nas conclusões do autor.

Demétrio Magnoli passeia sobre o mito das raças pelos continentes e a História, sempre um pretexto para a utilização de mecanismos de subjugação, segregação e opressão coletivos e os perigos iminentes e muito reais que se corre, mais uma vez, nos tempos atuais.


Frederick Douglass, publicista e escritor negro norte-americano, apostou na promessa de igualdade da Constituição de seu país para lutar contra o preconceito, a discriminação e o apartheid racial.

Em relação à luta contra o sistema escravocrata, o autor ressalta a importância de três figuras proeminentes que se sobressaíram nos Estados Unidos: Frederick Douglass, que nasceu escravo, em 1818, depois um extraordinário abolicionista em luta determinada contra o “racismo científico” e a exploração da mão de obra dos escravos negros, além de bater-se pelo sufrágio universal e o direito do voto feminino, já em sua época.

Segundo Demétrio, o combate de Douglass representava uma forma de adesão aos EUA – não ao País da escravidão – mas ao da liberdade anunciada na Declaração da Independência e na Constituição norte-americana.

Douglass, depois do falecimento de sua primeira esposa negra em 1882, casou-se com Helen Pitts, uma feminista branca, desafiando o violento tabu contra as uniões inter-raciais nos EUA.

Parafraseando Douglass em seus célebres discursos, Barack Obama, um dia antes da sua primeira eleição à presidência dos Estados Unidos, afirmou em seu último discurso de campanha: “não imaginem por um minuto que o poder concederá qualquer coisa sem uma luta”.

Demétrio traça um fio antirracial que junta Douglass, Martin Luther King, e Obama, já que percorre dois séculos da História dos EUA. Os três, diz o autor, insistiam em interpretar a História norte-americana por esse prisma, o do princípio da igualdade.

Barack Obama “separou-se das políticas de preferências raciais, identitárias, e definiu-se como um mestiço, num País que continua a classificar, oficialmente, os cidadãos segundo critérios de raça”.


Klu Klux Klan: a violenta organização racista combateu a mestiçagem, tese que hoje é seguida por algumas correntes do movimento negro.

Entretanto, diz, uma poderosa corrente de pensamento e política norte-americana, branca, como a violenta Ku Klux Klan, mas também negra, com visões antípodas, articulou-se em torno do mito da raça, isto é, do princípio da diferença e não da igualdade.

Assim, afirma Demétrio, o que prevaleceu não foram os pensamentos desses três líderes americanos, mas os de raça, da segregação, e das discriminações, inclusive a reversa. De tal forma que alguns setores do movimento negro, também consideram como “genocídio racial” a miscigenação dos negros com outras “raças”.

O princípio da existência das raças humanas e, em decorrência, as ideologias da prevalência de raças superiores sobre as inferiores, sempre provocou, ao lado dos poderosos interesses econômicos, as mais tenebrosas carnificinas da História da humanidade, em todos os tempos.

Desde as épocas mais remotas, passando pela escravidão negra dos africanos, da “raça superior ariana” propagada pelos nazistas alemães, que seria destinada a “governar os povos inferiores e impuros”, incluindo aí os demais europeus, como os eslavos, cuja denominação deu origem à palavra “escravos”, os asiáticos, árabes, africanos, latinos e etc.

Essa mesma ideia serve hoje para promover as agressões armadas contra os povos árabes, como uma “gente bárbara”, a discriminação contra os imigrantes na Europa, EUA etc. etc.

Na verdade, o conceito de raças puras e superiores, continua inspirando correntes de pensamento e ideologias, como a que motivou o terrorista norueguês Anders Breivik que assassinou em 2011, no mínimo, 76 pessoas, além de inúmeros feridos, na Noruega, em protesto contra a imigração na Europa e os casamentos “inter-raciais”, leia-se mestiços.

Segundo esse mesmo terrorista norueguês, é preciso “defender as tribos nórdicas em sua pureza ameaçada pela miscigenação” com outros povos. Ele cita em seus manifesto, noticiado pela mídia internacional, o Brasil por 12 vezes, como exemplo de “uma nação disfuncional, em virtude da sua ampla miscigenação” e por isso “eivado de uma corrupção, genética portanto, generalizada”.


O supremacista branco Anders Breivik citou o Brasil 12 vezes em seu manifesto como exemplo de “uma nação disfuncional, em virtude de sua ampla miscigenação e corrupção genética”.

Esse mesmo terrorista, supremacista branco norueguês, e o seu manifesto, também inspiraram o terrorista australiano Brenton Tarrrant que assassinou ao menos 51 pessoas em duas mesquitas na cidade de Christchurch, Nova Zelândia. Nada indica que foram ações isoladas, mas fruto dos “demônios interiores” que proliferam nas profundezas das teorias do chamado “racismo científico”, que continua bastante vivo, incitado por ideologias fascistas ou neonazistas.

Assim é que, para Demétrio: “raça é precisamente a reinvindicação de um gueto. O nome desse gueto é ancestralidade”. O “racismo científico”  plantou as raças no solo da natureza, definindo-as como famílias humanas separadas pelas suas essências biológicas. Depois, quando a ciência desmoralizou essa crença anacrônica, o multiculturalismo replantou as raças no solo da “cultura”.

Demétrio Magnoli diz que: raça é fruto do poder de Estado que rejeita o princípio de igualdade entre os cidadãos. No último ano do século XX, os cientistas que sequenciaram o genoma humano declararam a morte da raça. Mas o mito das raças, no entanto, em lugar de se dissolver como uma crença anacrônica, algo como a crença em bruxas, persiste ou renasce na esfera política, desafiando a utopia da igualdade.

O título do livro do sociólogo Demétrio Magnoli, “Uma gota de sangue”, é decorrente de uma longa batalha travada nos Estados Unidos contra uma proposta de emenda constitucional de 1912 que dizia: o casamento entre negros ou pessoas de cor nos EUA ou em qualquer território sob a sua jurisdição, com pessoas caucasianas, fica proibido para sempre, e o termo negro ou pessoa de cor deve ser tomado como significando qualquer pessoa de ancestralidade africana ou que tenha qualquer traço africano ou sangue negro (por isso, uma gota de sangue).

Depois de uma longa e acirrada disputa, a Suprema Corte dos EUA derrubou as restrições aos casamentos inter-raciais, usando o caso Loving versus o Estado da Virgínia em, vejam bem, 1967. Dois anos antes, portanto, do primeiro homem, norte-americano, pisar na Lua, em 1969. O que mostra, como em várias outras ocasiões, que ciência e tecnologia não implicam, aritmeticamente, necessariamente, em avanço civilizatório da humanidade.

“Loving” é o sobrenome pleno de ressonâncias sugestivas, afirma Demétrio, do branco Richard, que se casou com a negra Mildred Jeter, um casal residente na Virgínia, cujo tribunal condenou-os a um ano de cadeia, com suspensão da sentença condicional à transferência do casal, por um mínimo de 25 anos, para outro Estado.

Continua Demétrio: no seu argumento o juiz disse: “Deus Todo Poderoso criou as raças branca, malaia, negra, vermelha, amarela. O fato de que Ele separou as raças mostra que Ele não pretendia que as raças se misturassem”.

Assim sendo é óbvio que a miscigenação em muitos lugares dos EUA era um crime, ou se praticada, devia ser clandestina, e os filhos dessa união seriam socialmente condenados.

Política semelhante e extremamente violenta foi praticada até muito pouco tempo atrás na África do Sul, até a derrubada do regime branco e minoritário do apartheid e a vitória do CNA de Nelson Mandela.

Abatido pela ciência, o mito das raças e do “racismo científico” transmutou-se, e com força, pelo mundo cultural, através das Políticas Identitárias. Elas não visam a união social, a pluralidade e as diversidades democráticas, mas celebram a sua fragmentação através do “racialismo científico”, assim como nos confrontos elevados à enésima potência, entre as diversas opções sexuais, além de vários outros temas. Trata-se de uma política e uma cultura que promovem o ressentimento em várias nuances e sobretudo em larga escala.

Quanto mais fragmentadas as sociedades, mais autênticas as agendas identitárias seriam e, se possível, com base legal. Fica claro, assim, que, segundo as pautas identitárias, deveríamos nos afastar do espírito da igualdade, da união dos povos, do mais amplo espírito de solidariedade humana.

É a mesma ideia que norteia o conceito “divide et impera”, estratégia utilizada para a manutenção do poder, tanto no âmbito interno, como nas relações internacionais, assegurando-se que os “inimigos” estão divididos, portanto demasiadamente fracos para promoverem uma efetiva e benéfica mudança na realidade. Uma lição bem aplicada desde o império romano. É o que se deduz no livro de Demétrio Magnoli.

Nos períodos dos grandes impérios coloniais, as engrenagens do genocídio sempre apelaram para as divisões irreconciliáveis entre as etnias, as tribos, inclusive na África, isso quando não as construíam artificialmente.

De certa maneira isso acontece também nos tempos atuais contra os povos árabes, no continente africano, a exemplo do genocídio de Ruanda em 1994, onde em apenas cem dias, 800 mil pessoas foram massacradas por extremistas étnicos hutus contra a comunidade minoritária tutsi. Por trás desse bárbaro genocídio estão, como em quase todos os casos, as imensas reservas minerais do País, ouro, bauxita, petróleo, diamantes, coltan, e a interferência das grandes potências e multinacionais.

Em Ruanda, 800 mil integrantes da minoria Tutsi foram massacrados por extremistas etnicos Hutus.

Hoje, em pleno século XXI continuam a usar as mesmas políticas, agora com as contribuições das maravilhas dos atuais avanços tecnológicos, do monopólio exercido através da grande mídia global e da revolução digital.

Mas essa é igualmente a ideia inspiradora da tribalização social, fomentada em meio às atuais nações das sociedades mais modernas, ditas cosmopolitas, via a fragmentação sucessiva e, ad infinitum, das pautas identitárias, como acontece no Brasil, que estão sempre em confronto contra agendas extremamente conservadoras, promovendo uma espécie de retroalimentação política contínua.

A polarização, através do ódio, do confronto irreconciliável, sem retorno, a divisão da sociedade, a irracionalidade, adquirem contornos gigantescos, impossibilitando o diálogo, a concertação de projetos, a busca de soluções que envolvam a união nacional.

É possível concordar ou discordar, no todo ou parte, do livro de Demétrio Magnoli, mas é impossível ignorá-lo.

No filme Gangues de Nova York o cineasta Martin Scorsese revolveu as raízes da violência, da intolerância e do ódio presentes nas relações cotidianas e na política dos Estados Unidos.

Porque o mundo está fervendo de ódios, conflitos e ressentimentos? Por causa de uma brutal concentração econômica da renda, abissais desigualdades sociais, fomentadas através do capital financeiro especulativo, desviando recursos das nações, fundamentais aos investimentos na produção de bens materiais.

E, dentro desse caldeirão fumegante, encontram-se, muito bem temperadas, financiadas, convenientemente inseridas, o intolerante e medieval ultraconservadorismo, as polêmicas exacerbadas em torno do “racialismo científico”, as pautas identitárias, o discurso multiculturalista, além de outros fenômenos virais difundidos pela da grande mídia monopolista global e redes sociais.

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