Foto: Ascom ALE/Arquivo Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Plenário da Assembleia Legislativa de Alagoas

No dia de ontem, a Polícia Federal deflagrou uma operação em Alagoas que culminou na prisão da filha do vice-governador, Luciano Barbosa (MDB). O suposto esquema criminoso teria causado um prejuízo de R$ 30 milhões aos cofres públicos. Assunto grave pela cifra, por ser dinheiro público e pelas pessoas que envolvem, pois possuem seus parentes poderosos.

Dito isso, é válido lembrar que o parlamento estadual tem (ou, pelo menos, deveria ter) a função de fiscalizar, acompanhar, questionar as ações do Executivo. Portanto, o mínimo que se esperava da Casa de Tavares Bastos era que seus membros não ignorassem o caso.

Todavia, na sessão ocorrida ontem, o que se teve foi um silêncio tão ensurdecedor quanto constrangedor.

Com exceção do deputado estadual Davi Maia (Democratas), os demais parlamentares presentes fizeram de conta que nada de grave estava acontecendo em Alagoas. Parecia até que havia um acordo subentendido para que não se tocasse no assunto, mesmo com o parlamento tendo nomes fortes de oposição. Isso mesmo: até os deputados de oposição (com exceção de Davi Maia) optaram por não comentar o que tinha ocorrido pela manhã.

Um dos piores defeitos de um parlamento é ele se tornar subserviente ao ponto dos deputados estaduais perderem suas personalidades e posições para defenderem a todo custo as posições do Executivo ou para não constranger algum colega, seja lá por qual motivo for. Isso denota falta de coragem para exercerem a função para a qual foram eleitos. Além disso, é desonestidade intelectual para com os seus eleitores.

O parlamento tem por obrigação a pluralidade de ideias e o exercício do senso crítico para com as ações dos demais poderes e até do próprio Legislativo, elogiando quando devido, cobrando quando preciso e denunciando por dever de função.

Razão pela qual entre as prerrogativas está a criação de Comissões Parlamentares de Inquéritos quando diante de casos mais graves. Ora, o que a Polícia Federal mostrou é muito grave, ainda mais quando se tem o histórico de outras operações envolvendo o governo.

Obviamente, não se trata de fazer juízo de valor ou prévio julgamento, mas sim de cobrar os devidos esclarecimentos por parte do governo do Estado. Temos um governador – o senhor Renan Filho (MDB) – que se pronuncia fácil sobre tudo em lives e redes sociais, mas cala quando o assunto é incomodo a ele.

Os deputados estaduais tinham a obrigação de cobrar esclarecimentos, de indagar o que Luciano Barbosa conhece sobre o assunto e por aí vai…

Vale ressaltar ainda que não é a primeira vez que a Saúde de Renan Filho vai à berlinda. A Polícia Federal já bateu naquela porta, no primeiro mandato do governador, com a Operação Correlatos. Há problemas para os pagamentos de fornecedores e isso já foi debate na Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas.

Agora, mais um fato que envolve unidades de saúde, o Hospital Geral do Estado e um suposto esquema de fraudes na compra de próteses e similares que, segundo as investigações, beneficia diretamente parentes do vice-governador.

Ao que tudo indica, nada disso incomodou o parlamento estadual no dia de ontem.

Ah, é importante lembrar também: essa é a legislatura que já se orgulhou de ter independência em relação ao Executivo e que chegou a ter embates, mas fechou o ano com traços de subserviência, como foi na votação das mudanças da previdência estadual em que toda e qualquer discussão foi limada para que a matéria fosse aprovada tal qual como queria o governador Renan Filho. Vergonhoso! Mas, nesse caso, há os diálogos prévios e os acordos.

Mais vergonhoso ainda é uma Casa com 27 deputados estaduais em que 26 parlamentares simplesmente ignoram um fato importantíssimo que envolve o governo estadual. Em circunstâncias normais, isso geraria um embate no parlamento, envolvendo a oposição, a situação e o líder do governo trazendo a voz do Executivo para dentro do contexto. Essa seria a normalidade, como já ocorreu na legislatura passada.

Davi Maia tocou no assunto, de forma tímida e no final da sessão, destacando o óbvio: a Assembleia Legislativa precisa requerer do governo estadual os dados que permitam uma análise do que vem ocorrendo. Não é a primeira operação, como bem lembrou Maia. Ele mesmo ressaltou que já cobrou informações do Executivo, mas ainda se encontra no aguardo.

Conhecendo Maia pelas críticas duras ao governo é de se perceber que ele estava incomodado ao falar. Mas fez mais de os demais 26 juntos, que só fizeram silenciar.

Maia lembrou de operações na Saúde, na Educação e em outras áreas do governo Renan Filho e “as informações não chegam à Casa”. “É a quinta vez que a Polícia Federal vem ao Estado de Alagoas”, pontou. Fora Maia, apenas o deputado estadual Cabo Bebeto fez um aparte ao discurso de Davi Maia. No mais, o parlamento praticamente ignorou o assunto.