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Os rapazolas que não saem de casa sem uma boa oração a suas divindades gostariam de reviver os tempos da Inquisição. Por meio da fogueira, esses cidadãos de bem dariam um jeito na turma do Porta dos Fundos. Suponho que o leitor já sabe do que falo. Sim, o grupo de humoristas de maior sucesso na história da internet brasileira volta a atacar. No especial de fim de ano lançado pela Netflix, Tabet, Duvivier, Porchat e companhia apresentam A Primeira Tentação de Cristo. A obra atraiu a fúria de cristãos de todas as tendências.

Pastores, padres, obreiros e coroinhas estão engajados numa campanha de boicote contra a Netflix. Os escolhidos do Senhor – aqueles que dizem falar diretamente com o Todo-Poderoso – também defendem ações na Justiça contra os comediantes. Alegam que a ficção exibida ao mundo é uma blasfêmia, um ataque aos símbolos e valores da fé cristã. A reação é uma tolice previsível.

Se você não gosta de um tipo de filme, não vá ao cinema, mude de canal, troque de site. Eu mesmo considero um tédio desgraçado toda essa baboseira de historinhas de super-heróis. Nem por isso defendo o extermínio dos fãs de Vingadores. Espero apenas que eles evoluam e, um dia, consigam distinguir cinema de publicidade. Fora isso, sou tolerante com as péssimas escolhas alheias.

Quando vejo um Marco Feliciano, o cretino deputado federal dos dentes bancados pelo dinheiro público, na liderança do boicote à Netflix, entendo a dimensão da vigarice. Desgraçadamente, as vozes mais raivosas nesse episódio não passam de oportunistas, gente que engabela fiéis e enche a sacolinha com as doações até de miseráveis. A grita geral atesta a hipocrisia de lideranças do capeta.

Por falar no tinhoso, o enredo do especial do Porta mostra um Jesus Cristo gay. Ele surpreende a família e convidados justamente na noite de Natal. É uma festinha de aniversário para o Messias, que está completando trinta anos. Na volta do deserto, Jesus aparece com um cara. Caiu na tentação!

O Filho do Senhor tenta disfarçar, mas está ficando com aquela figura extrovertida que o acompanha. E quem é o namorado secreto? É o Diabo na figura de um loirinho. No meio da gandaia, Deus tenta pegar Maria, corneando José. E isso provoca ódio nos fanáticos seguidores dos dogmas cristãos.

As reações, reitero, aparecem em duas frentes. Na primeira estão aqueles que se vendem como representantes de Deus na Terra – na quase totalidade, os notórios santos do pau oco. Na segunda linha está a manada de desinformados, movida pelo combustível da crença em fantasias.

Qual é o coração dessa parada? É simples. Estamos tratando aqui da liberdade de expressão, do direito ao pensamento livre, sem censura. É o que garante a Constituição, ainda que tantas vezes agredida até pelos que têm a obrigação de defendê-la. Na democracia, mordaça não tem vez.

No campo das religiões, esses cristãos que agora se dizem ofendidos volta e meia pregam a violência contra as manifestações religiosas de origem africana. Mães de santo, seguidores e terreiros estão sempre na mira de sacerdotes da Igreja Católica e de bispos de templos evangélicos.   

Nos últimos anos, o Brasil assiste ao avanço de ações que intimidam o exercício da arte, sempre que grupelhos histéricos reivindicam respeito a suas idiossincrasias de ordem sobrenatural. Por mim, cada um acredita no que quiser. Mas ninguém pode se valer disso para sabotar a liberdade individual.

Se arte serve pra alguma coisa, uma de suas qualidades é a provocação, o desconforto, uma chacoalhada no que é modorrento. Quem espera de um filme, por exemplo, lições para a felicidade, como se fosse uma terapia, ainda não entendeu nada. Sem fanatismo, arte é sempre porrada.