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Quando essa história de Terra Plana começou, parecia que tudo ficaria ali mesmo, no latifúndio exclusivo da comédia. Como tantas outras “teorias” do mundo bestialógico, o terraplanismo, embora não haja data precisa para sua propagação em massa, é um fenômeno visceralmente conectado à internet. Sem a velocidade da comunicação virtual, a coisa não teria chegado ao nível em que chegou. Foi no YouTube, há alguns anos, que reparei na proliferação de vídeos que negam a forma redonda do nosso velho planeta.

A defesa de “teses” na contramão da lógica elementar tem um poder de atração irresistível. Todos adoramos um mistério. Quando a insanidade vem embalada em supostas evidências materiais, mesmo que não resistam a um simples teste de realidade, mais adeptos se juntam à tropa dos desmiolados. A mesma turma jura por todos os santos que o homem jamais pisou a superfície lunar.

Aí chegamos ao campo da política, do governo, das demandas públicas, das questões de Estado. O que parecia restrito ao interesse de desocupados ganhou ares de debate ideológico. É a prova do quanto um conceito como civilização, por mais que pareça uma conquista definitiva, pode sim passar por retrocessos dos mais tacanhos. No século 21, o sonho dourado é destruir a ciência.

Tudo isso, é claro, ganhou no Brasil as condições perfeitas para a consagração. Sim, é o triunfo de Jair Bolsonaro, o miliciano mentecapto, que tira das sombras e leva ao centro do picadeiro os imbecis e os delinquentes da Terra Plana. E eles se orgulham da imbecilidade e da delinquência que espalham com seus relinchos e piruetas. Como profetizou o tropicalista maior Tom Zé, a burrice está na mesa.

Alguém poderia imaginar que o país teria um governo infestado de terraplanistas? Gente que acredita que os Beatles foram um grupo de rock a serviço de Satanás e do comunismo? Quem diria que ministros e funcionários do primeiro escalão defenderiam que escolas ensinem que a vida humana surgiu com Adão e Eva? Demorou, mas esse tempo está aí, diante de nossos olhos fatigados.

Antes da explosão popular em torno do formato da Terra, o que mais se aproximava desse fanatismo era o combate aos estudos sobre aquecimento global. Também no YouTube, naturalmente, faz sucesso o trololó de um professor da USP que acusa uma conspiração globalista do aquecimento. O sujeito virou queridinho da extrema direita, como não? É isso mesmo, eu disse um professor da USP!

Nos encontros dos “conservadores” Brasil afora, os palestrantes mais celebrados são exatamente os tipos que contestam nada menos que todo o conhecimento científico acumulado ao longo dos séculos. A regra para o sucesso desses celerados é simples: quanto mais cretinos os argumentos, mais a seita bolsonariana baba de prazer. Eis a quadra em que a ignorância virou selo de qualidade.

De onde vem esse ódio ao conhecimento? A resposta não caberia num espaço como este. E nem sei na verdade quais seriam as explicações para a estranha loucura coletiva. É desafio para estudos de fôlego, de longo prazo, de pesquisas que levem em conta um conjunto de variáveis. Uma coisa eu sei: a tendência é o fundo do poço, o avanço cada vez maior da desinformação, da estupidez.

Bolsonaro e todos os que ele representa apostam as fichas nas mentes abertas às múltiplas teorias da conspiração. É mais fácil conquistar os perturbados com fartas doses de perturbações mentais. Enquanto os “cidadãos de bem” se esbaldam com a Terra Plana, o projeto de poder autoritário acelera a marcha sobre as instituições – e os direitos individuais são fulminados a cada hora.

Não ficarei espantado – muito pelo contrário – se um bolsonarista alagoano apresentar alguma ideia para fazer valer a teoria terraplanista nas escolas estaduais. Seria algo bem de acordo com a cabeça de um Cabo Bebeto, o deputado valentão. Para embasar o projeto, ele conta com a sagacidade de garotões palestrantes e com a força bruta de pais de família que adoram uma passeata.