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Na reta final deste ano, uma preocupação extra toma conta dos gabinetes e salões de autoridades brasileiras. Sobretudo no Judiciário, no Ministério Público e nas polícias Civil, Militar e Federal, uma dúvida paira sobre os ambientes de trabalho: quem vai ser candidato na eleição de 2020? Nessas esferas e instituições do país, aqueles que pretendem disputar o cargo de prefeito ou uma cadeira de vereador têm data marcada para tomar a decisão. Todos precisam largar os postos que ocupam até o mês de abril.

A quem planeja ser candidato, o prazo de seis meses para se afastar do cargo que exerce é uma exigência da lei eleitoral. É por isso que um bocado de juízes, promotores e policiais não pensa em outra coisa a não ser estudar o cenário antes de uma decisão final. Alguns nomes, claro, estão decididos e esperam apenas o calendário passar para sacramentar o afastamento do trabalho.

Já em outras situações, o dilema é amplo e de desfecho imprevisível. É o caso, por exemplo, do procurador-geral de Justiça de Alagoas, Alfredo Gaspar de Mendonça. Não é de hoje que o chefe do Ministério Público Estadual namora uma carreira na política partidária. Quase aconteceu em 2018. Ele desistiu em cima da hora de ser candidato ao Senado. Caiu fora ao perceber o perigo da derrota.

Movimento semelhante teve o procurador Deltan Dallagnol, o rapaz do MPF que usou a fama para ganhar dinheiro em palestras enquanto fraudava as leis na Lava Jato – entre outras estripulias. Assim como doutor Alfredo, o menudo de Curitiba também esteve a um passo da candidatura a senador. A Vaza Jato revelou que ele desistiu porque achava que ganharia menos dinheiro. É um patriota.

Todo e qualquer brasileiro, desde que em acordo com o previsto na legislação, é livre para disputar um mandato, de vereador a presidente da República. Mas é claro que não é saudável que as coisas se misturem. É um tanto imoral que um doutor fique pulando de lá pra cá, sendo delegado ou procurador num dia e, no outro, prefeito ou deputado. Essa promiscuidade faz mal ao país.

Numa outra frente, o Congresso Nacional já tentou aprovar uma quarentena para regular o vai e vem de autoridades que largam suas profissões para ingressar na política. O Senado chegou a aprovar um projeto que estabelecia o período de três anos como a tal quarentena. Mas a Câmara engavetou.

Seria uma boa medida em minha opinião. Se tal regra estivesse em vigor, o drama do doutor Alfredo não existiria. Para ser candidato, teria de deixar o MP ao menos três anos antes da eleição. Com as regras atuais, ele estica o impasse praticamente à boca da urna. É péssimo para nossas instituições.

Sim, para quem flutua em outra dimensão e ainda não sabe, o chefe do MP alagoano é potencial candidato a prefeito de Maceió. Em mensagem a este blog, ele já informou que a política não se mistura com seu trabalho. Tudo bem. O problema é a prática, a vida real do jeito que estamos vendo.

Se quisesse banir de uma vez por todas as especulações a respeito de sua queda pela política, Mendonça deveria vir a público e descartar a candidatura. Por que não o faz? Ora, porque ainda avalia a misteriosa e incontrolável nuvem desse universo – que muda de lado a depender do vento.

Na onda do presidente miliciano, há uma tropa de policiais, civis e militares, de todas as patentes, a um passo da campanha eleitoral. Um dos mais afoitos é o inclassificável coronel Walter Do Vale. Já tentou em eleições passadas, mas o eleitor preferiu deixá-lo aprontando suas peripécias com a farda.

Enquanto não houver uma regulação decente sobre essa situação, o trânsito insultuoso entre função de Estado e politicagem será uma encrenca dos diabos para o Brasil. Faz tempo que é assim. Não é por causa de um nome ou de outro – é porque a coisa está avacalhada. Não tem perigo de dar certo.