Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

Na edição deste sábado 30 de novembro, a Folha de S. Paulo traz o editorial mais duro que já escreveu sobre o governo do miliciano Jair Bolsonaro. Segundo o texto, o sujeito que ocupa o Palácio do Planalto veste a fantasia de imperador, com uma postura que “combina leviandade e autoritarismo”. A Folha lembra que o dono da caneta “não pode tudo”. Diante das estripulias criminosas do pai do Carluxo, o editorial defende que ele terá de ser contido pelas regras do sistema democrático. O elemento está descontrolado.

O que a Folha escreve no editorial é o que todos os que zelam pelo Estado de Direito devem seguir. O país não elegeu um rei. Quem adora o capitão da tortura são seus fanáticos seguidores, os doentes que pregam a ditadura militar e outras barbaridades. Para essa seita de imbecis que deliram por um regime autoritário, o “mito” pode tudo. Pode até matar adversários e desafetos.

A grande imprensa embarcou na aventura dessa porcaria do baixo clero em nome de barrar a esquerda, o PT, Lula, tudo isso que você já sabe. Lá na campanha, diziam os patriotas que se fantasiaram de patos da Fiesp: Se é para barrar o Lula, qualquer merda serve. E não deu outra! O eleito está à altura da profecia. Brasília e o Planalto nunca estiveram com tanto jeito de latrina.

O texto da Folha é de uma relevância inestimável. A imprensa, que apoiou o golpe de 1964 de tantos dissabores para o povo brasileiro, não pode fingir naturalidade nos gestos de um notório projeto de tiranete. Racista, homofóbico e violento, Bolsonaro tem de ser contido, sim. Leia o editorial da Folha:

Fantasia de imperador

Jair Bolsonaro não entende nem nunca entenderá os limites que a República impõe ao exercício da Presidência. Trata-se de uma personalidade que combina leviandade e autoritarismo.

Será preciso então que as regras do Estado democrático de Direito lhe sejam impingidas de fora para dentro, como os limites que se dão a uma criança. Porque ele não se contém, terá de ser contido —pelas instituições da República, pelo sistema de freios e contrapesos que, até agora, tem funcionado na jovem democracia brasileira.

O Palácio do Planalto não é uma extensão da casa na Barra da Tijuca que o presidente mantém no Rio de Janeiro. Nem os seus vizinhos na praça dos Três Poderes são os daquele condomínio.

A sua caneta não pode tudo. Ela não impede que seus filhos sejam investigados por deslavada confusão entre o que é público e o que é privado. Não transforma o filho, arauto da ditadura, em embaixador nos Estados Unidos.

Sua caneta não tem o dom de transmitir aos cidadãos os caprichos da sua vontade e de seus desejos primitivos. O império dos sentidos não preside a vida republicana.

Quando a Constituição afirma que a legalidade, a impessoalidade e a moralidade governam a administração pública, não se trata de palavras lançadas ao vento numa “live” de rede social.

A Carta equivale a uma ordem do general à sua tropa. Quem não cumpre deve ser punido. Descumpri-la é, por exemplo, afastar o fiscal que lhe aplicou uma multa. Retaliar a imprensa crítica por meio de medidas provisórias.

Ou consignar em ato de ofício da Presidência a discriminação a um meio de comunicação, como na licitação que tirou a Folha das compras de serviços do governo federal publicada na última quinta (28).

Igualmente, incitar um boicote contra anunciantes deste jornal, como sugeriu Bolsonaro nesta sexta-feira (29), escancara abuso de poder político.

A questão não é pecuniária, mas de princípios. O governo planeja cancelar dezenas de assinaturas de uma publicação com 327.959 delas, segundo os últimos dados auditados. Anunciam na Folha cerca de 5.000 empresas, e o jornal terá terminado o ano de 2019 com quase todos os setores da economia representados em suas plataformas.

Prestes a completar cem anos, este jornal tem de lidar, mais uma vez, com um presidente fantasiado de imperador. Encara a tarefa com um misto de lamento e otimismo.

Lamento pelo amesquinhamento dos valores da República que esse ocupante circunstancial da Presidência patrocina. Otimismo pela convicção de que o futuro do Brasil é maior do que a figura que neste momento o governa.