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Um desses miseráveis de espírito que se elegeram para o parlamento brasileiro pelo PSL aprontou mais uma. Um tal de deputado Coronel Tadeu, que representa São Paulo na Câmara Federal, destruiu um painel que fazia parte de uma exposição sobre o Dia da Consciência Negra. O gesto infame ocorreu em pleno espaço do Congresso Nacional. Ele não gostou da imagem que mostrava um jovem negro morto por um policial militar. O partido pelo qual Bolsonaro foi eleito é um amontoado dessas espécies asquerosas.

Jovem negro assassinado é uma categoria no Brasil. Dados oficiais atestam a verdade dramática. É a população que mais sofre a repressão do Estado. Qual o motivo da revolta do verme que praticou o atentado em Brasília? É aquele tipo de gente que, diante da realidade incontestável, apela para a violência. Não há surpresa nenhuma no gesto criminoso do representante dos “cidadãos de bem”.

O quadro atacado pelo deputado traduz o que se passa diariamente nas cidades brasileiras, de ponta a ponta do mapa. São negros e favelados os alvos preferidos das forças policiais. Aqui mesmo em Alagoas é o que ocorre desde sempre. Para os excluídos, não tem mandado judicial, não tem direito de defesa, não tem conversa. É a botina na porta do barraco. É tortura. É bala na cabeça.

Acabo de ler que os patriotas do bolsonarismo “não reconhecem” Zumbi dos Palmares como símbolo nacional. Querem negar o legado, a história e o significado de uma figura central no debate sobre os rumos de um povo. Como nos regimes mais abrutalhados da humanidade, rastaqueras como o próprio Bolsonaro deliram com a possibilidade de reescrever a História. Apesar da fúria, é inútil.

A atitude vergonhosa do parlamentar que faz parte da “nova política” é reveladora de onde chegamos com a eleição de 2018. O triunfo do capitão da tortura, como já escrevi aqui, destampou a panela do capeta e liberou geral o ânimo doente de uma parte do país. O coronezinho, que até então acalentava suas taras abjetas sob a farda, agora se sente legitimado para arreganhar os dentes.

Bolsonaro é racista. E grande parte de sua seita finalmente conta com o aval da Presidência da República para reproduzir o racismo – sem constrangimento, sem disfarce, com a mais depravada das convicções. A receita do sujeito homem para combater os índices de miséria é o extermínio. É a turma que saiu do armário, lá entre os patos da Fiesp, e veio bater na “área nobre” da Ponta Verde.

Outro dia, numa emissora de TV alagoana, vi um delegado da Polícia Federal fazendo ironia com a ideia clássica que define o perfil do contingente carcerário no país. Sim, refiro-me à “política” de repressão que tem como alvo os Três Pês. Cadeia é para “preto, pobre e puta”. O xerife da PF fez cara de enjoo ao tratar da verdade incômoda, mas comprovada nas estatísticas à vista de todos.

O deputado vigarista que atacou a exposição sobre este 20 de novembro deveria ser punido por seu crime. Mas isso não ocorrerá. O sujeito certamente vai se agarrar na imunidade que lhe garante a liberdade de expressão – ainda que isso signifique o insulto à dignidade humana. Que ele seja exposto em sua baixeza moral, e que receba o desprezo como resposta à ignomínia perpetrada.

Hoje é dia de subir a serra. A Serra da Barriga, o pedaço de terra na geografia de Alagoas que é sinônimo de resistência, de luta por liberdade e por direitos dos perseguidos pelos donos do poder. É desconcertante que – mais de três séculos após o Quilombo dos Palmares – o Brasil tenha de conviver com tamanho descalabro, que é a violência contra seu próprio povo. Não aprendemos nada.

Quando Joaquim Nabuco escreveu que a escravidão, mesmo extinta oficialmente, seria uma maldição que atormentaria o país ao longo do tempo, não imaginava que a profecia se concretizasse de modo tão abominável. 20 de novembro é muito mais que uma data festiva. Resume o que podemos ter de melhor: a energia criativa, a insubmissão, o respeito pelo outro.