Foto: Divulgação- IMA/AL Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Manchas de óleo se espalharam por praias da costa nordestina.

O Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) encontrou novas evidências que podem esclarecer a origem do óleo que atingiu as praias do Nordeste. Uma terceira imagem de satélite, encontrada na última sexta-feira (15) pelo Lapis foi importante para se chegar ao navio suspeito.

Segundo informações do Lapis, a imagem do Sentinel-1A, do dia 19 de julho de 2019, mostra mais uma mancha de óleo, de grande proporção, na costa leste do Nordeste brasileiro, a 26 km do Litoral da Paraíba.

O satélite capturou uma grande mancha de óleo no mar, com cerca de 25 km de extensão e 400 metros de largura. A mancha pode ser bem maior, pois parte dela talvez não tenha sido registrada pela faixa de cobertura do satélite.

O Lapis já havia identificado, a partir de três satélites (Sentinel-1A, Aqua-Modis e NOAA-20 Viirs) uma grande mancha de óleo na costa norte do Nordeste, a 40 km de São Miguel do Gostoso (RN).

Ainda de acordo com o laboratório, somente aquela imagem foi suficiente para o laboratório concluir que os cinco navios gregos suspeitos, inclusive o Bouboulina, não cometeram o desastre ambiental no Nordeste brasileiro.

Com o avanço nas investigações, a nova mancha, identificada pelo Lapis, no Litoral da Paraíba, levou à identificação da provável embarcação que derramou óleo no Litoral do Nordeste.

Com base em dados de geointeligência marinha, cruzados com informações de satélites, o Lapis concluiu ter havido comportamento atípico, no percurso do navio, pela costa norte do Nordeste brasileiro, no período anterior a 28 de julho.

A bandeira da embarcação suspeita não é grega. Todos os seus dados serão repassados, pelo Lapis, ao Senado Federal, no próximo dia 21 de novembro. Na ocasião, haverá uma audiência pública da Comissão Externa que acompanha as investigações sobre a poluição por óleo no Litoral do Nordeste.

A partir das imagens de satélites localizadas, nos dias 19 e 24 de julho,  todos os navios-tanque que transportaram óleo cru nessas datas, pela costa leste e pela costa norte do Nordeste brasileiro foram rastreados. No total, 111 navios navegaram por ali com esse tipo de carga. De todas as embarcações analisadas, concluiu-se que apenas uma delas apresentou evidências de que algum incidente pode ter ocorrido durante seu trajeto, podendo ser a provável fonte do óleo que polui o Litoral brasileiro.

Navio suspeito fez manobra atípica

O Lapis indicou, pela primeira vez, um navio suspeito de derramar óleo no Litoral do Nordeste. Por enquanto, a identidade da embarcação não será revelada, antes que seja feita a devida investigação. 

A imagem mostra dois itinerários do navio, em maio e em julho de 2019. O navio costumava fazer o trajeto de um país asiático até a Venezuela, pela África do Sul, com o transponder devidamente ligado, ou seja, o aparelho que indica sua localização durante todo o percurso.

Todavia, as análises sobre a embarcação mostram que, no percurso do dia 1º de julho a 13 de agosto, o itinerário do navio pelos oceanos foi bastante controverso. Na imagem acima é possível ver a comparação do trajeto bastante conturbado do navio, com o transponder desligado. É possível comparar a situação com um percurso normal da própria embarcação (traçado verde abaixo), feito com a devida identificação. 

O navio suspeito não transmitiu, de forma regular e sem interrupções, todas as informações de sua faixa de Automatic Identification System (AIS, um sistema de monitoramento de embarcações usado internacionalmente).

As embarcações que não transmitem consistentemente seu sinal de rastreamento público violam o direito marítimo internacional. De fato, a prática foi observada pelo navio investigado.

Foi registrado apenas que o navio partiu de um país da Ásia, no dia 1º de julho. O próximo ponto registrado foi na costa norte da América do Sul, possivelmente de uma parada, na altura da Guiana, no dia 28 de julho.

No oceano Atlântico, o itinerário do navio foi incomum. Ele não parou em nenhum porto, continuou sem identificação regular e fez uma estranha manobra, que indica uma mudança de trajetória.

A partir da Guiana, o navio deu uma grande volta, aproximou-se do nordeste dos Estados Unidos, em 31 de julho, e retornou pela costa africana, tendo passado por Serra Leoa, no dia 09 de agosto. Após essa mudança, a embarcação seguiu o percurso de volta e chegou ao seu porto de origem, na Ásia, em 13 de agosto.

Ainda conforme o Lapis, em nenhum momento, o navio atracou em algum porto na área marítima que navegava. Suas poucas paradas registradas, em alto mar, mostraram um comportamento anormal.

O percurso mostra alteração na direção do navio, indicando um comportamento suspeito ou um grande problema mecânico. Entretanto, as investigações ainda serão aprofundadas.

Pela análise da trajetória, o Laboratório concluiu que não houve estabilidade no percurso da embarcação, como costumava ocorrer normalmente em sua trajetória, desde a Ásia, seguindo pela África do Sul, com destino ao Atlântico Norte.

O navio suspeito possui uma tonelagem bruta duas vezes maior que o Bouboulina. Se confirmada sua relação com o desastre ambiental no Nordeste, esse dado pode justificar as impressionantes seis mil toneladas de óleo já retiradas das praias da região.

Atualmente, o navio suspeito segue uma rota aparentemente normal, vindo da Venezuela com destino à Singapura, com o transponder ligado. Seu trajeto continua sendo monitorado pelo Lapis.

 

*com informações do Lapis