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Quem são os anarquistas que conspiram pela iconoclastia política e existencial em Maceió? O que pensam, como vivem e onde se escondem? Pergunto porque, ao desandar pela cidade, você encontra pistas de que eles são reais. A prova? Basta prestar atenção nos muros, nas fachadas e até em bancos de praça. Em diferentes bairros da capital, essa tribo deixa sua mensagem subversiva em pichações, com desenhos, manchas, rabiscos e palavras de ordem. O teor é meio raivoso, uma declaração de guerra ao sistema.

Nos meus tempos de universidade, lá pelos anos 80 do século 20, havia um casal de estudantes que pregava os mandamentos da filosofia anarquista. O rapaz e a garota se mostravam radicais quanto ao que defendiam. Nas aulas de Jornalismo, lembro de alguns embates um tanto exóticos, para dizer o mínimo, entre eles e professores. Tudo era motivo de forte controvérsia, sem acordo sobre nada.

Uma das discussões mais inusitadas era sobre a relevância de livros e autores consagrados em estudos de Sociologia, por exemplo. Para nossos anarquistas, naquela Ufal de mais de três décadas atrás, ler as obras recomendadas era um tipo de concessão ao status quo. O professor alegava que, para criticar o texto, que ao menos houvesse a leitura. Para a dupla, porém, isso era uma falácia.

O rapaz e a moça não foram além do primeiro ano do curso, que eu lembre. Não sei que destino tomaram na vida, nem se continuaram com os ideais que cultivavam. Queriam um “mundo novo”, sem regras, sem obediência a nada que está aí desde que triunfaram a Razão, a Ciência e a Lógica. Pela postura contra tudo – tudo mesmo –, a utopia pra valer era a destruição do nosso modo de vida.

Do folclore juvenil para a História. O maior teórico do Anarquismo, como se sabe, é o russo Mikhail Bakunin. No século 19, virou inimigo do regime czarista e teve de partir para o exílio. Com ele, nem capitalismo nem comunismo nem qualquer outro modo de produção. Segundo sua visão, as únicas leis a seguir eram as da Natureza. Todos os códigos sociais, sem exceção, deveriam ser desprezados.

Religiões e partidos políticos, para o anarquista maior, não passavam de modos de tolher a liberdade plena dos indivíduos. Estado, governos, autoridades e elites, forjados sob qualquer orientação, representavam igualmente formas de opressão e barbárie. Bakunin não reconhecia classes sociais e repudiava todo o tipo de privilégio: o privilegiado é um “depravado” no coração e no pensamento.

Corta para janeiro, 1987. No auge da convulsão que tomava conta do país, o então presidente José Sarney resolveu criticar os empresários. No programa Conversa ao Pé do Rádio, que ocorria semanalmente em rede nacional, o rei do Maranhão disse que os poderosos da indústria sabotavam seu governo, agindo como verdadeiros anarquistas. O programa era a “live” daqueles dias.

Vale a pena revisitar as palavras inacreditáveis de Sarney: Dirigentes empresariais, num momento em que se procura consolidar o Estado de Direito no Brasil, pregam a desobediência civil e a anarquia, e passam a ser aliados daquela coisa do século passado, que é Bakunin. É um atentado intelectual. Eu só não escrevo que o teórico se revirou no túmulo porque seria um lugar-comum.

De volta a Alagoas. Para quem pensa que os ideais extremos do Anarquismo por aqui são coisas do punk contemporâneo, nada mais errado. O estado deu ao Brasil um anarquista de peso – há mais de cem anos. Elysio de Carvalho nasceu em Penedo, em 1880, e se tornou uma voz influente, dentro e fora do país. Com sólida formação, escreveu livro até em francês e publicou obras mundo afora.

Mas o alagoano deu um cavalo de pau no rumo da vida e, um dia, renegou as ideias libertárias que defendera com tanto vigor. Não só isso. Levou sua erudição para o mundo da polícia e passou a estudar o crime e as formas de combater a criminalidade. Virou um representante do mais feroz conservadorismo. Vítima de tuberculose, morreu na Suíça, com apenas 45 anos de idade.

Não sei se os pichadores anarquistas que deixam suas mensagens nos muros da Maceió de hoje conhecem o precursor Elysio de Carvalho. Como falei, o cara foi influente e chegou a participar até da Semana de Arte Moderna de 1922. Também desconheço se outros nomes servem de inspiração aos militantes de agora. Como não mostram a cara, tudo o que sabemos é o que rabiscam na sombra.

Três parágrafos antes, me referi ao punk. Explico: nas pichações é comum a aliança entre o Anarquismo e o estilo musical que mistura porrada sonora e revolta contra tudo. Anarcopunk é palavra recorrente nessas manifestações. Apesar da virulência grafitada, ninguém se assusta com os rebeldes desconhecidos. Talvez sejam apenas diletantes, em busca de uma ideologia pra viver.