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Nunca se falou tanto em Constituição quanto se fala nos dias atuais. A brigalhada política da hora é sobre presunção de inocência, prisão após sentença de segunda instância, respeito a direitos fundamentais. São princípios consagrados na chamada lei maior. Nem quando se elaborava a atual Carta, promulgada em 1988, o tema explodia em paixões e desvarios como ocorre no Brasil do século 21. Todo mundo tem uma opinião certeira e definitiva sobre o emaranhado de capítulos, incisos, parágrafos e emendas.

O título deste texto, como você percebeu, saiu da letra de uma música das antigas. Quando escreveu os versos de Que País é Este, megassucesso da Legião Urbana há trinta anos, Renato Russo vivia no Brasil que ainda respirava a poluição da ditadura militar. Embora o disco seja de 1987 – é o terceiro do grupo –, a canção foi composta em 1978. É muito anterior, portanto, à atual Constituição.

Mas, como é da natureza da arte, a despeito das intenções do artista, a criação ganha vida própria, se desgarra das circunstâncias, expõe novas camadas de significado e amplia limites de interpretação. É por isso que, ao revisitar uma obra do passado, por variadas razões pode-se ter a impressão imediata de que aquilo tudo é mais atual do que nunca. A letra de Que País é Este confirma essa teoria.

Parece estranho que o roqueiro de Brasília tenha criticado o desrespeito à Constituição que vigorava nos governos dos generais brucutus. Curiosa também é a coincidência de a música aparecer no disco de 87, quando o Congresso tocava os trabalhos da Constituinte que nos daria a Carta que temos aí. Três décadas após virar hit, e 41 anos depois de escrita, a letra de Renato fala de hoje.

Quando “indignados” e justiceiros vão às ruas exigir o fechamento do Supremo Tribunal Federal, numa demonstração de estúpida ignorância e desprezo à democracia, é a Constituição que primeiro está sendo agredida. O mesmo ocorre quando mentecaptos disparam ataques ao parlamento. Também é assim quando se pretende, como quer Sérgio Moro, dar às polícias licença para matar.

Se ninguém respeitava a Carta Magna no fim dos anos 1970, a Legião cantava a mesma verdade na reta final dos 80. E nos tempos de agora, à beira de mais uma virada de década, a canção traduz semelhante realidade. É o caso de ressaltar que tudo mudou, mas nem tanto assim, como prova a delinquência de um Capitão Augusto, o deputado do PSL que jogou nossa Constituição na privada.

Exibindo as qualidades de um poeta ao mesmo tempo popular e refinado, Renato Russo recorre à sutileza de um paradoxo para radiografar a tragédia: não, nenhuma nação terá um futuro saudável se “ninguém respeita a Constituição”. O compositor diz uma coisa para dizer o seu oposto.

Esse é o traço dominante na letra da música, além, é claro, da mensagem de protesto. “No Nordeste tudo em paz”, canta Renato sobre a região cuja maior guerra é contra os degradantes indicadores sociais. Do primeiro ao último verso, a canção faz um retrato do Brasil deste louco 2019.

“O Brasil vai ficar rico” e “vamos faturar um milhão”. É o que escreve o compositor, sob o signo da ironia que atravessa toda a letra. O preço da riqueza será o extermínio da nossa cultura de origem, “quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão”. É ou não é o país agora?

Renato Russo não pretendia gravar a música naquele disco de 87. Ele achava que o tema estaria datado em pouco tempo, com um possível avanço das condições de vida da população. Como se vê, estava errado. Que país é este, afinal? Não tenho resposta, mas isto é certo: é “sujeira pra todo lado”.