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A Imprensa Oficial Graciliano Ramos lança nesta quarta-feira (6/11/19) três livros do escritor alagoano Romeu de Avelar: Calabar – Interpretação romanceada do tempo da invasão holandesa, Tântalos e Os Devassos. As obras, algumas consideradas raras no mercado livreiro, estavam há pelo menos quatro décadas fora dos catálogos das editoras brasileiras. O lançamento será realizado nesta quarta-feira (6/11/19), a partir das 19h, no Arquivo Público de Alagoas. O evento gratuito e aberto ao público, contará com a presença de dona Rosa Maria Moraes de Souza, filha de Romeu de Avelar, e de Isabela de Araújo Martins Pivar, neta do escritor.

Durante o evento, será realizada também uma mesa-redonda sobre a vida e a obra do autor que contará com a participação da escritora e poeta Vera Romariz, imortal da Academia Alagoana de Letras; do crítico e escritor Rosalvo Acioli; e do presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, Jayme de Altavilla, também imortal da Academia Alagoana de Letras.

“O romance histórico Calabar é um livro muito cultuado em Alagoas por ter sido o primeiro escrito com o objetivo de promover uma revisão histórica sobre o controverso personagem Domingos Fernandes Calabar”, afirma Patrycia Monteiro, coordenadora editorial da Imprensa Oficial Graciliano Ramos. A editora lembra que durante séculos o guerrilheiro alagoano, nascido em Porto Calvo (AL) carregou o estigma de ‘traidor da pátria’ por ter deixado de lutar ao lado dos colonizadores portugueses para lutar ao lado dos holandeses, no século 16.

“O livro causou muita polêmica na época da publicação de sua primeira edição, lançada em 1938, porque trazia um ponto de vista crítico e absolutamente inovador sobre a invasão holandesa no Brasil seiscentista e sobre o protagonismo de Calabar na disputa territorial entre neerlandeses e a União Ibérica. Na visão de Romeu de Avelar, Calabar foi um insurreto e um clarividente que se antecipou à revolução histórica e liberal no Brasil. Neste livro, tido como a obra-prima do escritor, Calabar é um herói destemido e idealista”, explica.

Obras

Além do livro Calabar, a Imprensa Oficial Graciliano Ramos também está resgatando a coletânea de contos Tântalos, a primeira obra literária publicada por Romeu de Avelar, em 1921. Este livro, cujo título remete ao suplício do personagem Tântalo, da Odisseia de Homero, condenado a ter sede e a não poder saciá-la, elege uma galeria de personagens deslocados, sofrendo a cada passo pela impossibilidade de realizar desejos e de conviver com a paz e a alegria.

“É um título-síntese do sofrimento e deterioração humana, escrito com inventividade e erudição. O livro de Avelar mostra-nos que ele, homem nascido em 1893, soube captar e representar as ideias da passagem do século, como as de Baudelaire, ácido crítico da industrialização e urbanização. A primeira das epígrafes escolhida pelo escritor, dentre inúmeras, é uma citação do texto Paraísos Artificiais, em que o poeta francês dá ‘Viva à Fatalidade’, termo este que intitula o primeiro dos onze contos da obra”, afirma a escritora Vera Romariz, autora do texto de apresentação da nova edição da obra, pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

Na época do lançamento da primeira edição de Tântalos, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, então jovem repórter do jornal Diário de Minas, escreveu um artigo sobre o livro, afirmando que Romeu de Avelar era, antes de tudo, um sincero realista. “Ele vê o que pinta. Pinta o que vê.  Zola fascino-o. Ora, Tântalos é um livro saturado de romantismo. Não do romantismo choramingueiro e piegas que fez da lágrima ‘uma função hidráulica sentimental’. Mas em todo caso, romantismo”, descreveu. Para Drummond, Avelar era o criador de tipos apaixonados e sofredores que fazem da vida uma tragédia que todos podem compreender. “Ele pinta estados de alma com agudeza e segurança. (...) A palavra é a argila maravilhosa de que ele se utiliza, habilmente, no afã de plasmar personagens inconfundíveis. E o certo é que as plasma admiravelmente”, escreveu.

Censurado e apreendido pela polícia carioca logo após o seu lançamento no Rio de Janeiro, em 1923, por ofender a moral e os bons costumes da sociedade carioca da época, Os Devassos é atualmente uma das obras mais raras do autor. Lançado pela lendária editora Benjamin Costallat & Miccolis, famosa pela publicação de livros arrojados, com temáticas relacionadas a sexo e violência, a obra revela o lado obscuro da sociedade carioca e o comportamento promíscuo e perdulário da elite da época. “De Romeu de Avelar pode-se vislumbrar em Os Devassos influxos estéticos da obra de Émile Zola, escritor francês naturalista, a quem admirou. Também se constata a qualidade literária encontrada na prosa de Balzac, Dostoievski e Dickens que, como ele, observavam a vida mundana para discorrerem sobre a miséria da condição humana”, afirma o poeta e crítico Rosalvo Acioli.

“É maravilhoso o fato de que hoje, quase cem anos após a publicação de Os Devassos e de Tântalos o público possa novamente ter acesso à estas obras raras de Romeu de Avelar.  Principalmente, Os Devassos, que retrata tão bem o Rio antigo, dos Anos 1920 –  no que era uma espécie de Belle Époque na História brasileira”, afirma Isabela de Araújo Martins Pivar, neta de Romeu de Avelar, mencionando que o escritor Ruy Castro cita esta obra no seu próximo livro Me faz Carinhos - O Rio dos anos 1920, que será lançado em novembro deste ano. 

Trajetória de vida

Romeu de Avelar é o pseudônimo do escritor Luiz de Araújo Moraes que nasceu em São Miguel dos Campos, no dia 23 de março de 1896. Ele morreu em Minas Gerais, perto da cidade de Leopoldina, em 20 de dezembro de 1972, em um acidente de carro, quando vinha do Rio de Janeiro para Maceió.

Jornalista, tradutor e historiador, foi diretor-presidente da Imprensa Oficial de Alagoas, membro da Academia Alagoana de Letras e patrono da Cadeira n° 14 do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Durante a década de 1920, cursou Medicina Veterinária em Belo Horizonte, onde se tornou amigo de jovens intelectuais como Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Milton Campos e Juscelino Kubitschek. Polêmico e contestador, foi preso e censurado, o que não o impediu de publicar uma obra vasta e diversificada, transitando por vários gêneros literários como contos, romances, crônica, teatro, memória e biografia. Ele também é autor de À Sombra de um presídio, Pirongas, General Góis Monteiro - O Comandante de um Destino, entre outros. Em sua trajetória como jornalista, foi um dos responsáveis pelo lançamento da revista Frou-Frou e diretor de jornais como A Imprensa e o Diário de Maceió.

Para conhecer um pouco mais sobre a personalidade do escritor Romeu de Avelar conversamos com sua filha Rosa Maria Moraes de Souza, uma das três filhas do escritor com a pianista Lourdes Caldas Avelar e com sua neta, Isabela de Araújo Martins Pivar, filha de Isolda Caldas de Araújo Moraes.

Há muitos anos as obras de Romeu de Avelar estavam fora do catálogo das grandes editoras brasileiras e a ausência do autor era muito sentida especialmente aqui em Alagoas, sua terra natal. Como a senhora vê o resgate das obras Calabar, Tântalos e Os Devassos que serão lançados pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, durante a programação da 9ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas?

Rosa Maria - Acho muito importante para que a população brasileira tenha oportunidade de conhecer um de seus escritores mais atuantes e criativos, posto à margem durante tanto tempo, para ter a oportunidade de desvendar suas ideias, visões de mundo e pensamentos. Tais obras, são extremamente importantes para nossa história e cultura e apesar disso estavam perdidos e fora do alcance dos leitores por estarem ausentes dos catálogos das editoras há tantos anos. É muito importante e emocionante para a nossa família que as obras do meu pai sejam reconhecidas e mais uma vez incluídas no cânone literário brasileiro pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, de Alagoas.

Isabela -  É maravilhoso o fato de que hoje, quase cem anos após a publicação de Os Devassos  e de Os Tântalos o público leitor possa novamente ter acesso à estas obras raras de Romeu de Avelar.  Principalmente, Os Devassos, que retrata tão bem o Rio antigo dos Anos 1920 – no que era uma espécie de Belle Époque na História brasileira.  Já Os Tântalos, esta coleção de contos, têm claramente a influência do mal du siècle francês, do final do século 19. Romeu, inclusive era um grande entusiasta da língua, da cultura e dos grandes autores franceses. Falava o idioma bem e traduziu várias obras do francês para o português. 

Embora tenha uma obra vasta e diversificada, transitando entre vários gêneros literários como romance, contos, crônica, teatro, algumas das obras de Romeu de Avelar são tidas como raras, principalmente Os Devassos que foi censurada e recolhida pela polícia carioca, em 1923, por ser considerada ofensiva à moral e os bons costumes. A senhora poderia falar sobre esse momento da vida de Romeu de Avelar? Na sua opinião, o seu pai era um escritor transgressor e polêmico?

Rosa Maria - Meu pai escrevia sobre a realidade da vida e representava o pensamento de uma época. Na minha opinião, ele não era polêmico, nem transgressor, apenas escrevia sobre os fatos que ocorriam naquele momento em que vivia.

Foi por causa da publicação de Os Devassos que Romeu de Avelar foi preso, em 1924? Quanto tempo ele ficou na prisão? A perda da liberdade teve algum tipo de influência pessoal e literária sobre ele? Sabemos que foi por a partir desta experiência de vida que ele produziu o livro À Sombra do Presídio...

Rosa Maria - Infelizmente, papai jamais comentou sobre essa fase de sua vida com as filhas. Só soube de todos esses acontecimentos ao ler artigos publicados na imprensa carioca, após sua morte.

Isabela - As circunstâncias da prisão de Romeu de Avelar, em 1924, até hoje não ficaram bem esclarecidas.  Aparentemente, o motivo foi uma briga de faca em que ele se envolveu com um de seus inimigos da época.  É interessante lembrar que no Brasil dos anos 1920, muita gente andava armada e Romeu de Avelar não era uma exceção.  Nós, inclusive, vemos este aspecto da sociedade brasileira, entre a elite, que aparece em Os Devassos.  

Há uma pista sobre essa passagem da vida dele no livro À Sombra do Presídio, que é autobiográfico, que remete ao momento em que Romeu foi preso... o guarda lhe pergunta: – O Senhor sabe porque está sendo preso? Ele responde: – Mais ou menos.... Então o guarda comenta: – O senhor tem um processo de tentativa de morte aqui e três de ferimentos graves.  Está, pois, condenado a um ano e sete meses e meio de prisão.... E é autor também de um livro imoral...”. No final do livro, sabemos que ele acabou cumprindo sete meses e meio de prisão.

Como era o pai Romeu de Avelar? Que lembranças a senhora mantém da relação com o seu pai?

Rosa Maria -  A recordação que tenho do meu pai é de que era uma pessoa sempre alegre, sorridente, vaidosa e que sempre estava muito bem vestido. Foi um excelente pai para mim e minhas irmãs. Em 1945, ele lia para nós os livros infantis que comprava e éramos proibidas de emprestá-los. Quando eu era criança, ainda não existia TV, e, durante o almoço, ele nos contava o que acontecia no mundo, sempre dando sua opinião sobre os eventos. Também fazia questão de que frequentássemos recitais de poesia e conferência de escritores. Lembro-me de ter assistido, a um recital de poesia, de uma alagoana sua amiga, Linda Mascarenhas.

Adorava animais e nos levava para passear no zoológico e na praia, bem cedo, as seis da manhã, pois ele era muito branco e na época não havia protetor solar.

Romeu de Avelar deixou Alagoas ainda na juventude, quando foi estudar Medicina Veterinária, em Belo Horizonte. Lá ele fez amizade com jovens intelectuais que viriam a se transformar em grandes personalidades da Literatura e até da política brasileira, entre eles, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e Juscelino Kubitschek. Ele inclusive tem participação no movimento modernista mineiro. As senhoras poderiam comentar essa passagem da vida dele?

Rosa Maria -  Ele nos contava por alto sobre suas aventuras de sua juventude, em Belo Horizonte. Comentava sobre seus amigos que depois ficaram famosos. Sempre falava com muito carinho do amigo Zozó (Joaquim Cavalcante) que eu conheci frequentando nossa casa. Nós frequentávamos a casa do Pedro Nava em festas e a orientação dos meus pais era a de não pedir nada e nem levantar da cadeira, pois era uma casa muito sofisticada. A esposa do Nava, era dona Antonieta Penteado, Nieta, para os íntimos, vinha de uma tradicional família paulista e por isso éramos orientadas a nos portar muito bem durante tais festas. Já Juscelino Kubitschek foi um dos amigos que compareceu ao enterro do meu pai.

Isabela - Esta fase da vida de Romeu, na década de 1920, é muito bem descrita no livro de memórias Beiramar, de Pedro Nava.  Ali, temos várias descrições interessantíssimas do homem e do escritor Romeu de Avelar.  Na época, Romeu de Avelar tinha uns 28 anos e é descrito por Nava como um dândi, um “almofadinha”, termo da época.  “Apesar da fama de boêmio era homem de ordem, estudava à própria custa e jamais foi visto pedindo dinheiro ou devendo-o a quem quer que fosse”, escreveu. O memorialista mineiro deixa claro que, em 1922, quando ainda morava na pensão de uma francesa, em Belo Horizonte, Romeu de Avelar começou a escrever Os Devassos. Essa pensão em que residia era muito frequentada por Nava e os outros intelectuais da época.

Romeu de Avelar viveu e trabalhou ainda como jornalista no Recife, mas permaneceu a maior parte da vida radicado no Rio de Janeiro, onde se formou em Direito e onde publicou muitos de seus livros. Pouco antes de morrer, ele vivia boa parte do tempo dividido entre Alagoas e Rio de Janeiro. Qual era a relação afetiva de Romeu de Avelar com Alagoas?

Rosa Maria – Ele adorava Alagoas, embora tenha passado a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. Ele sempre dizia que queria ser enterrado em São Miguel dos Campos, desejo realizado pela sua segunda esposa, a qual transladou seus restos mortais para lá. Há anos estive em Maceió e fui visitar seu túmulo em São Miguel dos Campos. Fiquei muito feliz de ele estar descansando, onde sempre quis.

Isabela - Romeu de Avelar era, sem dúvida, um grande apaixonado por sua terra natal, “As Alagoas”, e nunca deixou de voltar e de visitá-la, assim como os seus queridos amigos alagoanos, entre eles, o poeta e presidente da Academia Alagoana de Letras Carlos Moliterno e sua esposa, a poeta, artista, escritora e cantora Anilda Leão. Em 1973, pouco tempo após a morte de Romeu, em trágico acidente automobilístico, Anilda escreveu um lindo texto na publicado em um jornal, intitulado O Coentro Cochichando com a Pimenta, em que ela  descreve o amigo querido de tantos anos e nos fala de sua paixão e amor por Alagoas.

 

SERVIÇO

Imprensa Oficial na Bienal

Lançamento dos livros Calabar, Tântalos e Os Devassos, de Romeu de Avelar

Data: 6/11/19, a partir das 19h

Local: Arquivo Público de Alagoas - Rua Sá e Albuquerque, S/N, em frente à administração do Porto de Maceió

Mesa-redonda sobre a vida e obra de Romeu de Avelar, com a participação de Vera Romariz, Jayme de Altavilla e Rosalvo Acioli

Evento gratuito e aberto ao público