A histeria cria uma realidade paralela na qual alguns vivem em conformidade com os seus sentimentos e não com os fatos. Tais sentimentos, quando há o ranço ideológico e político, são facilmente manipulados em uma narrativa. Em uma obra chamada Ponerologia, o psiquiatra polonês Andrew Lobaczwiski mostra muito bem isso.

Talvez resida aí a razão pela qual muitos críticos não enxerguem pontos positivos nos 10 meses do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Não se trata de eximir o governo de críticas. Na minha humilde visão, se há governo devemos ser céticos em relação a este e o de Bolsonaro – assim como tantos outros – possui seus defeitos.

O presidente, muitas vezes, insiste em declarações que provoca suas próprias crises e se enreda em uma série de problemas de uma única vez. É a questão envolvendo o PSL, é uma postura que se faz excessivamente beligerante etc.

Em alguns momentos, falta um pouco de sensibilidade, pois sabendo das narrativas que se constroem, ainda há quem jogue gasolina no fogo, como foi o caso do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) ao falar de AI-5. Há um contexto, mas ainda assim uma bobagem que é usada pela oposição como cortina de fumaça. Eu sou avesso ao pensamento positivista do militarismo como sou avesso a qualquer ideologia secular, mesmo sabendo – como diz o escritor George Orwell – que uns são mais iguais que os outros.

Por sinal, em muitos momentos, o PSL é mais eficiente em ser oposição que a própria oposição. Então, nem toda crítica ao governo vejo como ranço ideológico. Algumas, vejo até como necessárias. É da democracia.

Porém, há quem só veja – em função da patologia ideológica – o “desastre”. No entanto, os fatos mostram pontos positivos ocorridos nesse período que acabam por não ganhar o destaque necessário. Jair Bolsonaro assumiu a presidência de um país em crise profunda que somavam escândalos de corrupção, orçamento deficitário (que ainda se encontra), contas públicas desajustadas, gastos públicos elevados e se recuperando de dois anos de queda consecutiva do PIB (um fato histórico). Nada disso pode ser esquecido.

Os petrolões e mensalões da vida, envolvendo PT e diversos outros partidos, como o PP e o MDB, são fatos. A prova viva de que os delatores são larápios é que devolveram recursos roubados para aliviarem suas penas, além de entregarem o restante da quadrilha. Não é simples promover a recuperação e a estabilidade de um país que passou por tudo isso. Ainda mais quando se tem tantos inimigos que apenas olham para o próprio umbigo, seja por questões ideológicas ou fisiológicas.

Todavia, a mera comparação com o passado, levando em conta dados, mostram que o governo federal tem sim um legado a defender nesse primeiro ano. Com Dilma Rousseff, o país escalava uma inflação de dois dígitos. O governo atual conseguiu trabalhar e manter a meta em uma inflação que gira em torno de 3% e 4%. Os juros caíram a 5% e a perspectiva é que possa se ter mais redução em breve. No passado, chegou a dois dígitos.

Há feitos do governo de Michel Temer (MDB) que também contribuíram para isso, mesmo Temer tendo sido um dos fisiológicos do esquema de poder implantado no passado. Não simpatizo com a figura do Temer. Para mim, mais um dos muitos subservientes ao estamento descrito por Raymuno Faoro em Os Donos do Poder. Mas, reconheço os fatos. Assim como, mesmo sendo um crítico ferrenho do PT, vejo como acerto a unificação dos programas sociais no Bolsa Família. Uma medida de raízes liberais que dá muito certo.

Porém, para além disso, o governo atual atingiu recordes na bolsa de valores, diminuiu o índice do Risco Brasil para próximo dos cem pontos, o que resulta em cenário propício a atração de investimentos. Além disso, tem conseguido – ainda que de forma tímida – reduzir o índice de desemprego, apontar para a aprovação de reformas estruturantes, colocar em pauta a discussão sobre a revisão do pacto federativo (espero que se concretize) e tomar medidas no sentido da maior liberdade econômica, como foi o caso da Medida Provisória aprovada.

Aumentou a arrecadação sem ampliar carga tributária e o PIB já responde com expectativa de 0,8%. É pouco! Mas é preciso lembrar do passado que tivemos. Por sinal, foi esse aumento que possibilitou o descontingenciamento das verbas da Educação. Muitos trataram o contingenciamento – já praticado por outros governos – como “cortes”.

Caso o atual governo, como quer o ministro da Economia, Paulo Guedes, concretize a revisão do pacto federativo, qualquer prefeito ou governador (que mantenha a honestidade intelectual) sabe que isso pode resultar em maior independência político-administrativa das regiões, engordando os caixas para que se possa investir em mais ações locais sem depender tanto da União. Na prática, é o governo central abrindo mão de poder. Algo inédito em Brasília. Como pode um governo dito antidemocrático abrir mão de tanto controle assim? Os antidemocráticos agem de forma contrária.

Se há laranjal no PSL? Bem, que se apure até o talo. Que os culpados sejam devidamente punidos. Se o senador Flávio Bolsonaro está envolvido em maracutaias? A mesma coisa! Nenhum político pode estar acima do bem e do mal. Que haja investigação, que se esclareça os fatos de uma vez por todas. Assim com qualquer suspeita que se apoie em indícios e elementos concretos. Agora, o que não dá é para acreditar que esse governo atual é o inferno na terra e que antes tínhamos um paraíso democrático no Brasil.

Que paraíso era esse, cara pálida? Já tivemos governos que sonhavam com controle de imprensa, que se alinhavam ideologicamente a ditaduras e republiquetas e as financiavam com empréstimos fraudulentos por meio do BNDES; governos que se associaram ao nefasto Foro de São Paulo, com a presença das Farcs, vivíamos sem perspectiva de redução dos índices da violência (em especial os homicídios) e assistíamos casos de corrupção escabrosos envolvendo todo tipo de poderosos.

Não vejo o atual governo como “perfeito”. Aliás, nenhum governo o é. Haverá sempre o que corrigir, sempre o que criticar e sempre o que cobrar. Porém, meu senso de proporcionalidade das coisas e de prioridades me faz entender que os avanços no cenário da macroeconomia, da segurança pública, da Infraestrutura – como o ministro Tarcísio Gomes – fazem o Brasil andar pra frente. Agora, há sim o que fazer.

As reclamações de governadores e prefeitos em relação a ações do desenvolvimento regional procedem, como já reclamou o prefeito Rui Palmeira (PSDB) recentemente quanto aos atrasos no Minha Casa, Minha Vida; ou o secretário alagoano de Infraestrutura, Maurício Quintella, quanto ao Canal do Sertão, devido sua importância. Aqui são exemplos pontuais de coisas que merecem maior atenção do governo federal. Ambos tinham razão na crítica, a meu ver.

Espero – por torcer pelo Brasil – que o governo melhore no que precisa ser melhorado e mantenha o que tem sido acerto. Assim como sempre torço pela democracia, pois é dado a qualquer um o direito da discordância de uma visão de mundo. Apenas, no meu ofício, procuro me guiar por uma máxima: o sujeito tem direito às suas próprias opiniões, mas não aos seus próprios fatos.