Foto: Maciel Rufino Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Luciana Salgueiro, Gestão Ambiental do Instituto Biota.

As manchas de petróleo continuam aparecendo em praias do Nordeste manchando praias, inclusive em Alagoas. Sem explicações de onde veio o petróleo, órgãos se uniram para minimizar os efeitos causados pelo acidente ambiental e realizaram mutirões de limpeza para retirar os resíduos das praias. Entretanto, o petróleo é uma substância que prejudica não só ao meio ambiente, mas também os seres humanos.

Sobre o assunto, o Cada Minuto conversou com a especialista em Gestão Ambiental do Instituto Biota, Luciana Salgueiro, que falou sobre as consequências da substância e sobre os animais que foram afetados pelo óleo.

Quais são os impactos ambientais que esse petróleo pode causar futuramente?

Certamente são muitos. Hoje não podemos dimensionar o tamanho do impacto e estamos trabalhando para fazermos a limpeza das áreas que foram atingidas, mas são diversos impactos como de curto, de médio e de longo prazo. É um material tóxico que se deposita em algas e em microrganismo, o que acaba gerando um ciclo de muito risco, pois as algas e os microrganismos funcionam como alimentos para os peixes, os peixes servem de alimento para mamíferos maiores e até para nos seres humanos, então é um problema que acaba atingindo de maneira direta a cadeia alimentar e a todo o sistema. Além dos impactos de imediato, da fauna oleada apresentar dificuldades de locomoção, dificuldade de respiração e ser imediatamente atingida ou vim a morrer por causa do óleo. Em longo prazo, temos questões de atingir os sistemas de funcionamento do nosso organismo, pois com o tempo podemos ingerir substâncias que estejam contaminadas com esse óleo e acabarmos ingerindo elementos tóxicos e cancerígenos.

Quantos animais oleados foram encontrados mortos em Alagoas? e como saber se eles morreram em decorrência do óleo?

Na costa alagoana onde o Biota monitora estamos acompanhando e nós não temos registro de animais que tiveram a causa da morte diretamente direcionada ao óleo. Nós tivemos o registro de seis tartarugas encontradas com a presença de óleo e um mamífero, que foi um golfinho, porém nenhum deles foi identificado que a causa da morte destes animais tenha sido o óleo. Das seis tartarugas que foram encontradas no litoral, três estavam mortas e outras três também estavam vivas, mas foram atendidas, estabilizadas pela equipe do Instituto Biota e levadas para centros de despetrolização e por ter o atendimento de maneira imediata não vieram a óbito. As tartarugas vivas estavam muito prejudicadas pelo óleo e se não tivessem um atendimento rápido, certamente iriam vir a óbito. 

Temos pelo menos um registro, não em Alagoas, lá em uma praia no Rio Grande do Norte, porém os impactos ambientais não têm fronteiras, onde pescadores registraram uma tartaruga em alto mar muito atingida pelo petróleo e como eles iriam ficar muito tempo em alto mar não tiveram como socorrer o animal até a superfície para que pudesse receber o devido atendimento. Então essa tartaruga que estava como o corpo totalmente oleado apresenta dificuldade de mobilidade, pois o óleo acaba atingindo as cavidades, olhos e as cavidades de respiração o que acaba levando a morte. Essa tartaruga possivelmente tenha vindo a óbito e outros animais ,em situação semelhante deve estar acontecendo a mesma coisa e a gente não tem essa possibilidade de ajudá-los, pois só registramos apenas aqueles animais que chegam a costa. 

Assim como o ser humano que é encontrado morto sem uma causa nítida de morte, é uma necropsia, só que mesmo com uma necropsia, mesmo com o avançado estado de decomposição do animal, a necropsia pode não ser conclusiva, então quando há a condição de fazer uma necropsia conclusiva, quando não está com um estado de decomposição tão avançado. A necropsia, às vezes, precisa de exames complementares para que possamos concluir algo, exames estes que na maioria das vezes podem demorar um pouco mais. No caso do golfinho que foi encontrado morto com presença de óleo no litoral sul, foi feita a necropsia e já de imediato, foi excluído a causa da morte como sendo o óleo, pois não havia uma quantidade de óleo externa que fosse possível levar a óbito, nem muito menos na parte interna do animal.

As medidas que estão sendo tomadas pelos órgãos são as necessárias para o momento?

Existem legislações e decretos que estabelecem como deveria ser uma possível situação de emergência que envolvesse o petróleo, com medidas mais preventivas, mas infelizmente essas medidas não foram tomadas a tempo. A gente acompanhou o petróleo chegando na costa do Nordeste, desde muito cedo, no mês de setembro e infelizmente as medidas que estão sendo tomadas no momento se restringe apenas a medidas paliativas, de limpeza e já tomadas muito tempo depois que as notícias de petróleo começavam a surgir na costa. Na nossa visão, acreditamos que o plano não foi muito bem aplicado, no seu sentido preventivo e principalmente com a imediatidade que seria necessária, pois o tempo de resposta até as primeiras medidas, que se restringiram a medidas paliativas e de limpeza, foi muito longo.

Não saber de onde veio esse petróleo prejudica mais ainda o trabalho de vocês? Em quê?

Sem dúvida nenhuma, pois não saber a fonte prejudica muito o trabalho de todas as equipes, envolvidas, não só do Biota, mas como também de outras instituições e até mesmo aos órgãos públicos, pois elimina a possibilidade de maior previsibilidade. Será que a fonte já cessou? São questionamentos que infelizmente não temos resposta, pois com o tempo que está demorando e pelas características do óleo mesmo, alguns especialistas já estão levantando a possibilidade de nem se quer ter cessado a fonte e com isso elimina a possibilidade que a gente possa prevê por quanto tempo mais a gente vai lidar e quais seriam as medidas preventivas poderiam ser tomadas. Mas só seria possível realizar isso se soubéssemos qual é a fonte e o caminho que ela está percorrendo seria mais viável de tomar as medidas preventivas pra evitar que só fossem essas medidas paliativas, as possíveis, como limpeza e etc, para poder reter na fonte. Além disso, dificulta pela questão do recurso, pois a partir do momento que se descobre quem seja o responsável, ele teria que ser o financiador de toda a atividade de contenção, limpeza e reabilitação de animais. O responsável pelo acidente seria o responsável financeiro. Muitas as dificuldades tendem a surgir ou se agravar devido à ausência de finanças suficientes para lidar com a situação.

Como o petróleo pode prejudicar os animais e humanos?

Para humanos de imediato é a irritação da pele, a longo prazo é a gente chegar a ingerir organismos que foram contaminados ou até mesmo animais. Já para os animais, a ingestão do óleo, do organismo contaminado, como também a questão da mobilidade, caso ele seja muito atingido animais, vai dificultar. No caso das aves, elas quanto estão oleadas ficam impossibilidades de voar fazendo com que não possa ir até o seu alimento. A contaminação interna já é mais em longo prazo, mas também possui efeitos cancerígenos.


*estagiário sob a supervisão da editoria