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A imagem da polícia mudou. Sobretudo nas polícias Civil e Federal. Como toda mudança relevante, capaz de inaugurar novos comportamentos, não há um marco exclusivo que explique o fenômeno. Não foi assim de repente, do dia pra noite, que agentes e delegados da PC e da PF, de todo o país, adotaram o estilo hipster de ser. Os primeiros sinais do processo datam da última década do século 20. Dos anos 2000 em diante sucessivas etapas foram sedimentando o modelito, até que chegássemos a hoje.

Você identifica um hipster assim que ele pinta numa entrevista de TV. É o delegado “descolado”, jeitão de galã cujo traço infalível é a barba, espécie de marca registrada da jovem guarda policial. O cabelo banhado no gel é outro item básico no figurino. Virou moda também usar o escudo da instituição pendurado num colar dourado. Lembra a turma do Rap Ostentação. Mais ou menos por aí.

Eles estão por toda a parte, nas operações nacionais da PF, nas madrugadas de busca e apreensão, nas reportagens do Jornal Nacional, nas coletivas de imprensa. Coletivas como a que aparece na foto que ilustra o texto. É uma comissão de delegados hipsters da PC de Alagoas. O trio tentou dar explicações a jornalistas sobre um caso de homicídio em Maceió, ainda sob mistério

A entrevista foi marcada depois que a mãe e o padrasto da vítima, um garoto de apenas 7 anos, denunciou abusos da equipe que investiga o crime. Eles relataram pressão psicológica e até tortura física nas dependências de uma delegacia. Um dado estranho é o fato de o casal ter sido levado para depor no meio da noite. Que exotismo é esse? Os delegados nada esclareceram na entrevista.

O que fizeram foi repudiar a acusação do casal quanto à prática de tortura ou qualquer outra arbitrariedade. Pelo que entendi, haverá agora uma comissão especial, formada por quatro delegados hipsters, nas investigações pra tentar desvendar o assassinato de Danilo Almeida.

Esse é um caso para especial atenção da Defensoria Pública e da OAB. Darcinéia Almeida e José Roberto, que fizeram as denúncias, estão do lado mais frágil nesse episódio. E na imprensa, nossos repórteres e editores não podem se comportar como assessoria dos rapazes modernosos da polícia.

Não sabemos o que aconteceu. A inusitada comissão falou um bocado, mas, repito, esclareceu muito pouco, praticamente nada. As suspeitas de arbitrariedades devem ser apuradas formalmente – e insisto: Defensoria e OAB têm obrigação de agir pra valer, sem maquiagem, sem panos quentes.

Não gostei do tom dos delegados na coletiva. Mostraram demasiado empenho em desqualificar o casal que perdeu o filho. Um deles chegou a dizer que Darcinéia “fala sozinha” – como se isso fosse sintoma de crime. Fosse isso verdade, eu mesmo já estaria cumprindo sentença num manicômio.

Os agentes da lei ficaram incomodados com a suspeita de tortura. Daí a mobilização repentina, a ponto de quatro delegados para um único inquérito de homicídio. Aliás, sobre como e por que o menino foi alvo de assassinato, as informações oficiais são de uma pobreza absoluta.

Mas eu comecei com a imagem da polícia. É, mudou bastante, se a gente pensar nos tempos de Rubens Quintella e Coronel Amaral. Cito os dois como arquétipos de toda uma mentalidade consagrada por décadas no aparato da segurança pública. “Bandido bom é bandido morto”. E só.

Novos tempos – métodos civilizados? Barbicha trabalhada nos detalhes – respeito aos direitos humanos? Ah, se fosse assim, com essa conexão automática e sobrenatural, seria muito bom! Mas, na vida real, tesouras, luzes, corantes e aromas não transformam um torturador num pacifista.

A extrema direita que se apaixonou por Bolsonaro prega o linchamento sumário por agentes do Estado. É o “medo”, é a “forte emoção”. É o “excludente de ilicitude”. O governo de Alagoas felizmente não se alinhou a esse manual das trevas – abençoado por Nosso Senhor e pelo céu azul.

Mas a escola do prendo & arrebento tem vida própria no aparato policial; atravessa governos e gerações. A suspeita de prática de tortura, em instalações do Estado, é muito grave e tem de ser elucidada. Quanto aos delegados hipsters, que a eloquente frivolidade não se algeme à truculência.