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Se você e eu não resistimos a uma bem urdida teoria da conspiração – ou, quando menos, estamos sempre dispostos a embarcar em narrativas fabulosas –, então devemos concordar com isto: o que houve com Gilmar Mendes no intervalo de uma semana não foi obra da natureza. Não é no mínimo estranho que o ministro do STF tenha sido convidado dos programas Roda Viva e Conversa com Bial, numa segunda-feira e na segunda-feira da semana seguinte? Na Cultura e na Globo, ele deitou, rolou e – no essencial – acertou.

Até outro dia, o mais odiado integrante do Supremo não estava na pauta desses espaços de grandes entrevistas. Até outro dia, ele era fuzilado em tempo integral, apontado na imprensa como inimigo público número um. O pecado de Gilmar Mendes foi denunciar abusos praticados por investigadores na Operação Lava Jato. O chamado lavajatismo sequestrou instituições em todas as esferas.

Nas entrevistas, o ministro mais uma vez acusou parte da imprensa de agir como parceira de autoridades policiais e do Ministério Público. A cumplicidade entre procuradores da Lava Jato e profissionais das maiores redações não é um bom capítulo na história recente do nosso jornalismo. Foi nesse ambiente – de secreta promiscuidade – que agentes da lei violaram o processo legal.

Com Pedro Bial, Mendes chegou ao requinte de revelar ter reclamado diretamente a Ali Kamel, diretor responsável pelo jornalismo global. O apresentador ainda tentou defender a postura do chefe e de outros veículos. Não funcionou. As palavras do ministro, nesse aspecto em particular, são precisas, com exemplos concretos que atestam o engajamento da cobertura. Sobra militância.

O fato é que a onda cem por cento favorável a linchamento, sem direito de defesa, veio virando aos poucos e o clima agora é outro. O novo quadro só existe por obra do The Intercept Brasil. As revelações dos papos subterrâneos entre autoridades destruíram a farsa dos “heróis”.

Na turma da Lava Jato há mais talento de publicitário do que de jurista. Lula merece um julgamento justo. Sérgio Moro passou de salvador da pátria a refém de Bolsonaro. São exemplos do que o ministro do STF disse nas duas entrevistas, com uma semana entre uma e outra.

Mais uma vez, é preciso registrar o óbvio. Não importa se é PT ou PSL, azul ou vermelho, Marlene ou Emilinha. Todos e qualquer um que vierem a ser alvo de acusações merecem um processo de acordo com a lei – e não o contrário, como virou regra na Lava Jato. É o que defende o odiado Gilmar.

E a teoria da conspiração? É brincadeira, pessoal. Não, as entrevistas do ministro não começaram agora; ele vem falando essas coisas faz tempo. O problema é que até junho passado, mês em que explodiu a Vaza Jato, os Cavaleiros da Moralidade galopavam por cima de tudo, sem freios.

Depois de se acovardar diante da gritaria fanática, além de acusar o golpe da pressão da grande imprensa, o STF tem um encontro marcado com a História. Os onze ministros têm dois caminhos: ou a lei vale mesmo para todos ou cangaceiros como Sérgio Moro ganham licença para matar. Bora ver.