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Nas encruzilhadas que o presente oferta, há sempre a chance de aprendermos com o passado, de buscarmos entender o conjunto de forças e ideias que nos trouxeram até aqui, para então refletir sobre as decisões necessárias a serem tomadas.

Esta sempre foi uma das minhas convicções ao trabalhar com análises políticas na imprensa. Reside aí a busca por compreender o processo brasileiro de formação cultural, política, social e econômica.

Para isso, temos grandes autores que – infelizmente – são esquecidos.

É o caso de João Camilo de Oliveira Torres, Meira Penna, Raymundo Faoro, Aureliano Cândido de Tavares Bastos, Jaquim Nabuco, José Bonifácio, Hélio Vianna, Frei Vicente e tantos outros. Nessa lista, encontra-se, sem sombras de dúvidas, José Guilherme Merquior.

A rica obra de Merquior é um passeio pelas ideias que foram essenciais à formação de um inconsciente coletivo no país, passeando pela estética com a qual elas se apresentaram, a retórica com que convenceram e a influência que tiveram nos destinos políticos da nação, onde a população – muitas vezes – foi um passageiro clandestino.

Não por acaso, Faoro – apoiado em algumas posições já ditas pelo alagoano Tavares Bastos – classifica “os donos do poder” como um “estamento burocrático”.

Ou seja: uma alta casta que sequestra o poder em nome de seus interesses inconfessos e distribui migalhas para o povo enquanto se locupleta, tornando democracia um mero arremedo formal para implantar suas visões.

Assim, nasce uma plutocracia tecnocrata que desconhece uma moralidade objetiva e costuma dar um verniz de legalidade a imoralidades perpetuadas.

Nossa República – que nasce de um golpe, mas é vista como uma proclamação – viu o autoritarismo em muitos momentos, seja nas mãos de Floriano Peixoto, de um Getúlio Vargas ou do positivismo militar que cometeu seus erros.

A Constituição da redemocratização veio como uma carta de promessas que encheu o povo de esperança, mas abriu caminho para um estado inflacionário, o aumento dos gastos públicos, do poder coercitivo, da carga tributária sem conseguir ofertar os serviços públicos como deveria, apesar dos avanços.

Eis um Estado que parece um polvo de tentáculos minúsculos, que tenta tomar conta de tudo, mas não consegue fazer quase nada do que promete.

Em mais uma encruzilhada histórica, ouso falar da importância de resgatar antigos mestres que muito debateram o país no passado, seja no mais longínquo ou no mais recente. Por isso, uso esse espaço para agradecer ao escritor alagoano Marcos Vasconcelos Filho pelo resgate que faz da memória de Merquior na obra “José Guilherme Merquior: da Estética à Política”, que será lançada em breve.

Merquior definia a teoria sociológica como a “cachaça” que bebeu nos últimos anos. Todavia, mantendo uma sobriedade única ao entender o país. Autor de 22 livros, Merquior estabeleceu parâmetros para a compreensão racional das questões da sociedade moderna e a formação do Ocidente.

Assim, pode analisar a estética da arte e da cultura consumida, criticar o materialismo das ideologias seculares do século XX e mostrar o quanto as concepções norteadoras que circulam na política influenciam as ideias e as ações humanas, ao ponto de agirmos em função de determinado pensamento ainda que não identifiquemos a origem do porque de pensarmos assim ou assado.

Um dos destaques, nesse sentido, é a obra Arte em Sociedade Com Marcuse, Adorno e Benjamin, quando – ainda no século XX – mostrava as influências da chamada teoria crítica para o que se convencionou a chamar de progressismo. Hoje, temos quem professa tais crenças sem saber quais foram os “papas”.

Outro livro fundamental de Merquior é O Marxismo Ocidental, quando mostra a descendência das ideias revolucionárias e a forma como se inverteu a compreensão da prioridade de transformação da estrutura e da superestrutura no pensamento do próprio Marx.

Por sinal, essa é a razão pela qual Raymond Aron diferencia os marxólogos dos marxistas, sendo os primeiros os estudiosos das consequências e dos desdobramentos das ideias de Karl Marx e os segundos, aqueles que tentam aplicá-las dentro dos mais variados espectros, como o casamento produzido por Marcuse entre Karl Marx e S. Freud.

Merquior foi – portanto – um gigante da intelectualidade brasileira. A obra de Marcos Vasconcelos promete dialogar com todos os aspectos do pensamento de José Guilherme Merquior.

Como editor do Jornal das Alagoas – onde Vasconcelos mantém uma coluna semanal – já pude me deparar com algumas análises que o alagoano faz deste autor essencial. Digo sem medo de errar: é algo primoroso. É motivo de orgulho para mim poder – em Alagoas – ter aberto as portas para essas discussões em um veículo impresso, mesmo diante de algumas críticas que acreditam que essa não é a função de um jornal. Eu, contrariando alguns consensos, digo: é também!

O jornalismo também precisa se voltar urgentemente a essas discussões de caráter mais profundo para quem sabe assim estimular alguns leitores a buscarem as fontes primárias de quem melhor pensou o Brasil.

Razão pela qual, na minha atividade de jornalista, não dispenso os clássicos e por vezes trato deles aqui. Razão pela qual – em alguns textos que aqui publico – remeto a livros que podem ser analisados para que se amplie a visão do que está sendo dito, dando assim a possibilidade do leitor concordar ou discordar de determinadas análises, mas ao menos ter acesso às fontes mais primárias possíveis de nossa formação histórica, política e cultural.

Não se fala do presente sem entender o passado.

Espero e torço para que a obra de Marcos Vasconcelos tenha êxito. É um livro que fura a bolha e, apesar de focar em um autor do passado, mostra uma perspectiva para o futuro. Um país não pode se dar ao luxo de esquecer os seus gigantes.