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Todo santo dia você toma conhecimento de uma notícia mais ou menos nestes termos: Fulano de Tal critica isso e aquilo e, depois de repercussão, apaga a postagem em sua rede social. O personagem da eventual controvérsia pode ser um empresário, um político, um artista, um jogador de futebol, um chef, um jornalista ou uma subcelebridade qualquer. A síndrome do arrependimento após veicular uma opinião também afeta anônimos – que saem do anonimato justamente por causa da publicação que provoca algum alvoroço.

Essa é uma realidade dos nossos tempos. Com a internet, somos testemunhas de uma transformação sem precedentes no comportamento humano. Sim, a comunicação entre indivíduos mudou para sempre, e nem sabemos o que virá em decorrência dessa revolução que redimensionou tudo na vida de todo mundo. A Nova Era expõe o melhor, o trágico e o ridículo de cada um.

Se o arrastão avassalador das redes sociais eleva alguém ao topo da fama ou do sucesso, também destrói projetos e reputações com a mesma velocidade. Uma palavra infeliz, uma opinião disparatada, uma foto comprometedora, e já era. A solidez da maravilha se derrete num segundo.

Mas o que me chama atenção mesmo são os recorrentes episódios em que o cara renega o que antes publicara com a maior das convicções. No mundo da política, essa marmota está por todos os lados. Ronaldo Fenômeno, o ex-jogador, por exemplo, apagou as fotos ao lado de Aécio Neves.

Bernardinho, o técnico supercampeão nas quadras de vôlei, fez o mesmo em relação ao político mineiro, que hoje é “tóxico” para quem, até ontem, via nele a encarnação de um salvador da pátria. Se antes o constrangimento de escolhas erradas poderia ser minimizado, o estrago agora é devastador.

A síndrome do publica e apaga logo depois elevou a um inédito patamar aquela fraqueza de caráter atribuída ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: a crônica jornalística põe na conta de FHC a terrível sentença traduzida no “esqueçam o que escrevi”. Ele jura que nunca afirmou tal miséria.

A encrenca com o tucano maior é anterior ao império da comunicação virtual. Tivesse ele escrito a maldita frase nos dias atuais, em alguma rede, estaria lascado. Porque não adianta correr para deletar a besteira. Sempre haverá fanáticos para, bem mais rápidos, gravar o print da vergonha.

O que leva uma pessoa a esbravejar uma ideia e tentar se livrar do que escreveu no minuto seguinte? O vertiginoso impulso para exibir uma “bela sacada” não permite ao sujeito o mínimo de reflexão antes de cometer a sandice. Depois do desastre, o recuo, quase sempre, piora a lambança.

Há os exemplos em que, além de sumir com o que havia publicado, o autor ainda pede desculpas. Não satisfeito com o vexame, o pedido de perdão vem acompanhado de explicações deste tipo: “Não me reconheço naquelas palavras”. Ou: “Aquilo que disse não representa meu pensamento”!!!

Assim que Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República, revelou ter sonhado assassinar o ministro do STF Gilmar Mendes, a deputada federal Carla Zambelli foi ao Twitter exaltar a intenção tresloucada. Com a repercussão, o que ela fez? Apagou o comentário e explicou: “Fui infeliz”.

Outro aspecto igualmente desolador é que, em muitas ocasiões, aquele que desmente as próprias palavras assim o faz por deplorável covardia. Ou seja, o personagem não mudou de ideia, mas prefere se render à histeria coletiva que condena sua postagem. Esse é o pior dos arrependidos.

Diante desse novo padrão nas relações humanas, as redes sociais atestam um tipo de esquizofrenia global. Abestalhados, inseguros, boçais ou “apenas” pateticamente irresponsáveis, falamos sem pensar, sem medir consequências das tolices e crueldades que passamos adiante. A regra é essa.

A força estranha do universo me fez hostil ao fascinante redemoinho da interação virtual. Não faço ideia do que seja a ansiedade por um like, uma curtida, um comentário de seguidores. Ao pensar nessas coisas, já vejo a sombra de um tédio desgraçado. Em tal armadilha ninguém me pega.