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Um Ministério Público forte e independente. Foi assim que a instituição passou a atuar, com amplos poderes e plena liberdade, a partir do novo ordenamento jurídico do país, promovido pela Constituição de 1988. Nada mais seria como antes na investigação dos delitos da – como se dizia antigamente – turma do colarinho branco. Três décadas depois o MP encara a maior crise de sua história. E os grandes responsáveis por isso estão dentro de casa – até com atos e palavras imorais.

O último exemplo na arte de achincalhar o brasileiro veio do procurador Leonardo Azeredo dos Santos, aquele doutor do MP de Minas Gerais que reclamou do “miserê” salarial em que vive. Ele ganha 24 mil reais, mas na verdade embolsa um valor bem mais alto devido aos penduricalhos que a patota inventa para os seus. Houve mês em que Azeredo recebeu mais de 70 mil reais.

Não é caso isolado. Assim como nos tribunais de Justiça de todo o país, também no MP, em todas as esferas, a farra das “indenizações”, “atrasados” e “correções” (entre outras nomenclaturas para a mutreta) é algo consagrado. A verdade é que o teto constitucional é solenemente ultrapassado, mas o discurso dos senhores e senhoras desses ambientes é o de quem está à beira da falência.

Quem boa conduta não revela no campo das demandas pessoais, como turbinar o próprio salário, boa conduta também não terá nos atos e prerrogativas no exercício das funções. Hoje em dia, no MP a regra parece estar mais de acordo com atalhos e disfarces do que com a lisura do processo. Sobram iniciativas exóticas a sustentar algum desatino na forma de abuso de autoridade.

Os métodos primitivos, ilegais, dos procuradores da Lava Jato não representam a exceção. É o que parece pela reação da categoria. O famigerado corporativismo se manifesta cegamente na defesa da casta. Nesses cinco anos da força-tarefa de Curitiba, as anomalias ganharam o status de normalidade. Os diálogos da Vaza Jato enterram a retórica de vestal reproduzida como marketing.

Agora as autoridades do Ministério Público Federal querem impedir a posse do novo procurador-geral da República, Augusto Aras. Alegam que Bolsonaro, o presidente que trabalharam para eleger, não respeitou a listra tríplice apresentada pela categoria, após eleição. A Constituição dá ao presidente esse direto exclusivo. Os membros do MPF, portanto, reagem ao arrepio da Carta.

Como se tudo isso fosse pouco, Brasil afora o MP parece mais um partido político. Vejam o que diz Deltan Dallagnol nas gravações do Intercept sobre eleições. No ano passado, ele defendia que o MPF deveria “lançar um candidato por estado”. Na época o rapaz das bochechas rosadas negociava sua própria candidatura ao Senado. Desistiu alegando que ganharia menos que no MP.

Em sua presepada individual, o procurador de Minas, que afirma viver sob medicação por causa do “baixo salário”, acerta no diagnóstico, ainda que de modo involuntário: sim, o quadro no Ministério Público brasileiro pode ser classificado como “miserê”. Uma miséria de caráter, uma miséria de princípios, uma miséria de respeito à democracia. Que os ventos mudem por lá.