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A imprensa alagoana passa por um desmonte inédito em sua história. A obra é resultado de decisões tomadas pelos gestores nos maiores grupos de comunicação do estado. A Organização Arnon de Mello (das Gazetas) e o Sistema Pajuçara (com rádio, TV e site) promovem demissões em massa. Desde o ano passado, a OAM já dispensou, por baixo, mais de 40 profissionais ligados à produção jornalística. Já o grupo Pajuçara acaba de desligar ao menos 14 nomes de suas redações.

A extinção generalizada de postos de trabalho nessas empresas – que, reitero, são as mais poderosas por aqui – tem relação direta com a greve da categoria deflagrada em junho. Há, portanto, indícios evidentes de retaliação, uma mesquinharia típica de senhores que prezam pela “modernidade na gestão de pessoas”. Na prática, o que se vê é o coronelismo de cabeleira no gel.

Mas a truculência de executivos, cheios de cursos sobre “práticas inovadoras de administração”, não explica tudo no quadro de terra arrasada. Digamos que essa postura casa perversamente com o fator determinante do colapso: o ramo da comunicação mudou para sempre, e os dirigentes dos veículos de imprensa revelam uma incompetência atroz para encarar a crise. Estão baratinados.

As Gazetas, mergulhadas numa dívida milionária, com prédios destinados a leilão pela Justiça, ainda respiram pelo oxigênio da marca Globo. Afiliada da grande rede, a emissora de TV garante um mínimo de capacidade para operar seus negócios. O problema é que ninguém sabe até quando essa escora resistirá à coleção de erros das empresas. As previsões apontam para o fim.

A TV Pajuçara, também sob um comando amador, nas mãos de gente acostumada ao mundo obscuro de negociações provincianas, parece decidida a apressar a decadência sem volta. Por lá, acaba de haver uma inflexão que não se dá impunemente: nos programas que restam no ar, trocaram profissionais talentosos por vendedores de qualquer coisa. É a receita do desastre.

A prova escancarada de que o retrocesso se impôs na Pajuçara é a extinção do telejornal noturno. Sobraram “atrações” do mundo cão e espaços nos quais notícia dá lugar ao feirão de produtos embalados no disfarce da “informação”. Está claro que o comando da empresa escolheu o caminho da promiscuidade entre jornalismo e publicidade – o que significa a morte do jornalismo.

Sem jornalistas pra valer, esses veículos deveriam assumir que não podem mais ser considerados como meios de imprensa. A prática revela que estão em outro segmento, puramente comercial, sem nenhum compromisso com os princípios do bom e sério jornalismo. A reportagem, digna desse nome, que já era raridade, foi banida de ambientes hostis ao verdadeiro repórter.

O panorama alagoano não é caso isolado no Brasil, como todos sabem. Desnecessário lembrar que a internet e as redes sociais impuseram a urgência de reinvenção nos meios tradicionais. É exatamente aí que o caldo entorna na paisagem alagoana. A criatividade, tão exaltada na ficção marqueteira da Pajuçara, por exemplo, é uma miragem diante dos reais desafios de agora.

Aos jornalistas, é preciso mais do que a necessária denúncia dos desmandos patronais. Não há mágica, é claro. Não se pode jamais esquecer que, por mais que a “revolução digital” force novas alternativas, não será avacalhando os pilares da imprensa que boa coisa virá. Sem falar que, nos velhos grupos, deplorável também é o corriqueiro fuzilamento da liberdade de expressão.

E não adianta cobrar algo virtuoso de empresários mequetrefes – ainda que donos de fortunas. Na crise que está aí, eles oferecem o que sempre ofereceram: brutalidade nas atitudes, amadorismo na gestão e mediocridade frente aos novos tempos. Sem falar na visão de mundo, que hoje em dia se traduz na reverência a Bolsonaro. Rivais, Gazeta e Pajuçara se igualam nas escolhas erradas.