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Aos 16 anos o jovem Steven Allan Spielberg foi ao cinema assistir o épico de David Lean, "Lawrence da Arábia" (1962) e saiu impressionado com o filme que acabara de ver. Chegou a desistir do sonho de se tornar um diretor de cinema, pois seria impossível fazer algo tão grandioso quanto a saga de Lawrence pelo deserto árabe, mas ao rever incansavelmente o longa de Lean, decidiu que era exatamente aquilo que se tornaria: Cineasta.

Steven começou a fazer filmes ainda garoto pra não pensar na própria vida. Era solitário e sofria constantemente bullying no colégio, então a câmera era o refúgio que ele encontrava para levar os dias.
Ainda jovem, ávido em aprender e curioso para descobrir as técnicas de filmagem, fazia o tour dos estúdios Universal e tentava absorver o máximo que podia. Ele costumava fugir e se esconder para acompanhar as gravações, chegando inclusive a ser expulso do set de Hitchcock, que identificou o intruso.

Após apresentar um filme bem artesanal para os executivos, Spielberg assinou contrato para dirigir na TV. Foi lá que surgiu "Encurralado", telefilme feito para ABC, em 1971.
Na trama um homem é perseguido pelo sádico motorista de um caminhão que causa terror pelas estradas. O vilão sem rosto é materializado pelo enorme e implacável veículo e serve como a metáfora perfeita para os tempos de bullying sofrido por Steven durante a infância. O diretor usaria bastante sua filmografia para exorcizar outros demônios pessoais.

Com o sucesso de "Encurralado", Spielberg emplacou "Louca Escapada" (1974) e inaugurou a era dos blockbusters com o estrondoso sucesso de "Tubarão" (1975). O longa mudou a indústria cinematográfica e conferiu status ao jovem cineasta.

É importante lembrar que Spielberg não estava só na missão de transformar a forma de fazer cinema. Ao lado dos diretores Brian De Palma, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e George Lucas, Steven compôs a geração que sacudiu a velha Hollywood e pela primeira vez ele se sentiu parte de um grupo.

Seu projeto seguinte foi a ficção científica "Contatos Imediatos de Terceiro Grau"(1977). Para Spielberg o primeiro contato com extraterrestres deveria ser benigno, fugindo do clichê das ameaças extraterrestres. Ele queria contar uma história sobre comunicação e escolheu a música como forma de linguagem por ser algo mais emocional, uma experiência sensorial.
Assim, "Contatos Imediatos de Terceiro Grau" se tornou um de seus filmes mais pessoais, visto que o protagonista funciona como altar ego do diretor. Um homem em meio ao caos, à procura de uma resposta catártica. O longa também fala sobre desintegração familiar, questão que Steven viveu de perto.
Com a separação dos pais, ele acreditou durante anos que o pai abandonou a família ao pedir o divórcio, quando na verdade a mãe é que tinha tomado a decisão após se apaixonar pelo melhor amigo do marido. Todo esse drama familiar refletiu em suas histórias e personagens.
O distanciamento de seu pai durou 15 anos e ecoou em outras produções, como visto em "E. T. - O Extraterrestre" (1982), que inicialmente não seria sobre um extraterrestre,, mas sobre divórcio e como ele afeta as crianças. O E.T. então surge para preencher o vazio de uma criança solitária.

Por falar nisso, as crianças de Spielberg, apesar de infelizes, eram corajosas e carregavam um heroísmo inconsciente dentro delas. Podemos observar tal marca em filmes como "E.T.", "Império do Sol" (1987)"O Bom Gigante" (2016).
O diretor inclusive ganhou fama e chegou a ser considerado uma criança grande, incapaz de realizar filmes mais maduros. Fato este que mais tarde acabaria mudando o rumo de sua carreira.

Antes de chegar nesse ponto da história Spielberg, convencido que poderia lograr êxito em todos os gêneros, conheceu o fracasso com a comédia "1941" (1979) e precisou ser resgatado pelo amigo George Lucas, que o bancou na direção de "Caçadores da Arca Perdida" (1981) mesmo sob os protestos do estúdio que alegava sua fama de estourar prazos e orçamentos das produções que participava. Tudo correu bem, dentro do combinado e o filme do arqueólogo Indiana Jones foi um gol de placa que aumentou o poder de Spielberg em levar multidões aos cinemas.
Porém o sucesso comercial de Spielberg não se dava ao acaso. Entender a linguagem da audiência e buscar a conexão emocional foi fundamental para que o diretor quebrasse muito recordes de bilheteria. Por conta disso alguns críticos e colegas de profissão tentaram enquadrá-lo  no nicho do entretenimento escapista, distante dos filmes de arte, mas o diretor enxergava um tom pretensioso nos questionamentos que recebia nesse sentido, pois para ele a arte também estava em ver um garoto andar de bicicleta com a lua de fundo. A arte também podia e deveria emocionar.

Entretanto, tais críticas serviram de combustível para Spielberg iniciar uma fase de longas mais questionadores. Dramas que iam além de crianças com problemas familiares.
A adaptação do livro "A Cor Púrpura" (1985) foi a primeira incursão pelo cinema maduro, de temas mais sérios e delicados, mas o diretor ainda não estava pronto e a crítica voltou a castigá-lo, visto que sua visão bonita do mundo era um contraste muito grande com a crueza do material literário.
Em "Império do Sol" Spielberg faz um ótimo trabalho ao contar a história da criança que se perde e passa a sobreviver num campo de concentração japonês durante a guerra, todavia ainda o rotulavam de diretor puramente comercial que tentava entrar em um mundo que não era seu.
Foi então que Steven tocou em suas raízes judias para dar vida ao oscarizado "A Lista de Schindler" (1993) e finalmente ganhar o respeito merecido da indústria cinematográfica. Spielberg fez o que sabe como ninguém e contou a triste e fantástica história de Oskar Schindler, que salvou milhares de judeus do holocausto. Direção segura, madura e irretocável. No mesmo ano, revolucionou os efeitos digitais ao reviver os dinossauros em "Jurassic Park"(1993) e colocou novamente uma de suas obras no ranking das maiores bilheterias. 

A bem sucedida carreira de Steven Spielberg, que seguiu emplacando ótimos filmes, formou diversos cinéfilos pelo mundo, encantou crianças e adultos, influenciou novos realizadores da sétima arte. Nenhum outro diretor soube mesclar tão bem a vertente comercial e artística do cinema. Suas histórias familiares de separação e união foram a terapia que esclarece e ajuda a evoluir, e ele, assim como seus filmes, cresceu, amadureceu, errou, acertou, mas acima de tudo conservou aquilo que sempre o aproximou do público: a emoção.

E que continue assim!

*Gostou da resenha? É fã de Steven Spielberg? Então você não pode perder o painel sobre o diretor que vai rolar nesse Domingo (21/07) às 16h no Evento Comic Land, no Maceió Shopping. Espero você!

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