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"Certa vez, quando tinha por volta de quatro anos, após mudar de creche, estava na sala junto com coleguinhas e duas professoras. Ambas conversavam, enquanto nós, crianças, fazíamos vários desenhos. Sempre senti um olhar diferente da professora para mim, mas, como era criança, não tinha condições de decifrar aquele olhar. Foi então que uma coleguinha branca mostrou seu desenho para a professora em questão, que a elogiou. Eu, então, na minha ingenuidade de criança, também quis receber um elogio, e fiz o mesmo que a criança de cor branca, citada acima. Também queria ver o sorriso da professora e fui até ela cheia de alegria. Mostrei meu desenho, perguntei se estava bonito e ela, no alto de sua empáfia racista, me respondeu secamente que o desenho estava “feio” como eu, virando-se em seguida.
Diante daquela manifestação racista, injusta, violenta, eu, criança, senti algo muito ruim, muita vontade de chorar. Me isolei, olhando para o desenho, me perguntando o que ele tinha de feio e porque ela havia dito que eu também era. No fim do dia, ao chegar em casa, relatei o ocorrido à minha mãe, que prontamente foi à creche para perguntar o que houvera. A professora em questão, negou com veemência, e disse que “jamais falaria algo assim para uma criança”. Em seguida, a Diretora conversou com minha mãe, assegurou que ficaria atenta à situação e suplicou para que o caso não fosse levado à Secretaria de Educação. Lembro-me bem que, ferida, que pedi para trocar de sala e não fiquei muito tempo nessa creche, pois chorava todos os dias ao chegar na porta da sala.
Esse foi o primeiro de muitos outros contatos com o racismo (...) "


O relato é da Mariana da Conceição de Andrade, como lembrança da infância de vivenciar o racismo na creche. Aualmente  Marina é graduada em Enfermagem, pela Faculdade UNIFESO/RJ. Experiência em Clínicas de Imunização e atualmente trabalha em uma empresa de Home- Care, Íntegra. Estuda e pesquisa fundamentações na área de Saúde Pública, Saúde Coletiva com viés em questões raciais, Saúde da População Negra, e as influências de raça/cor nos serviços de saúde.


Fonte: https://elasexistem.wordpress.com/2019/06/01/o-racismo-na-vida-de-uma-crianca-negra-inicia-se-na-creche/?fbclid=IwAR3uz2TemqJ5apxM-pUxyiWDoYH-d1FQ8LDr2X4ieMRz_jivrGgR65bBa0A