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Perda da produtividade, redução da biodiversidade, desequilíbrio ambiental e empobrecimento de espécies vegetais. Essas são algumas das consequências que têm como origem a desertificação dos solos. Esse processo de degradação, com ocorrências em diversos países e também em regiões brasileiras, é monitorado regularmente pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

No Brasil, relata o coordenador do Lapis e professor do Instituto de Ciências Atmosféricas (Icat), Humberto Barbosa, as “Áreas Susceptíveis à Desertificação (ASD’s) compreendem, atualmente, cerca de 1.340.863 km2, abrangendo 1.488 municípios do Nordeste, além de alguns territórios de Minas Gerais e Espírito Santo”. Ele explica que “segundo a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, esse processo é caracterizado como a degradação da terra nas zonas áridas, semiáridas e subúmidas secas, e é causado fundamentalmente pela atividade humana e pelas variações climáticas”. Ainda de acordo com o docente, o processo “ocorre em função da fragilidade dos ecossistemas das terras secas em geral, que, diante da pressão excessiva exercida pelas populações humanas ou, às vezes, pela fauna, perdem sua produtividade e a capacidade de recuperar-se”.

Numa tabela elaborada com base nos dados de satélite mapeados pelo Lapis, Alagoas aparece no com 32,8% de áreas em desertificação, assumindo o topo da lista quando comparando aos demais estados monitorados. “Um destaque para o estado de Alagoas é o fato de ser um dos menores em termos de extensão, no Semiárido, o que coloca um alto percentual de degradação dos solos, em função de os dados da tabela serem proporcionais ao tamanho do estado”, explica o pesquisador. “O fenômeno ocorre no Agreste e no Sertão, sendo que a área mais afetada é a região central de Alagoas. Esse processo se deve ao histórico de ocupação dos solos dessas áreas, com atividades econômicas que acarretaram em maior nível de degradação”, argumenta.

Sobre os números referentes à desertificação no Brasil, Barbosa conta que “existe uma grande divergência, pois cada instituição tem adotado critérios diferentes para definir, por exemplo, os núcleos de desertificação”. Ele relata que no livro de sua autoria, Um século de secas, foi feito “um levantamento de como esses núcleos são caracterizados por instituição e com variados critérios, não havendo uma uniformização dos dados”. O pesquisador faz um alerta de que é importante “chamar atenção para isso porque a homogeneidade dos dados, com metodologia unificada, é fundamental para a busca de soluções para problemas ambientais complexos, como a desertificação, bem como para a definição de políticas públicas para conter o processo”.

Metodologia inédita do Lapis Ufal monitora processo de desertificação

Com uma trajetória profissional dedicada ao trabalho com os fenômenos da seca e desertificação, o professor conta que, “ao evidenciar o desencontro das informações, o Lapis desenvolveu uma metodologia inédita, com dados de satélites, para monitorar as áreas em processo de desertificação no Semiárido, sendo hoje a informação mais precisa quanto o nível de degradação dos solos nos estados do Nordeste”.

“Estando à frente atualmente do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas [IPCC], desenvolvemos uma metodologia única para monitorar essas áreas degradadas. O mapa do Lapis é inédito”, informa Humberto Barbosa. “Hoje dispomos das informações e dos dados da desertificação no Semiárido brasileiro. Esse avanço está disponível e pode servir de subsídio para políticas públicas de combate à desertificação, mas é necessário que os governos priorizem a busca de soluções para conter o avanço desse grave problema ambiental”, indica.

Diferenças entre o processo de desertificação e deserto

Humberto Barbosa esclarece que o “processo de desertificação não faz referência aos desertos existentes”. Este, explica o pesquisador, “é uma região natural estéril ou não propícia à vida, devido à baixa pluviosidade. Por definição, os desertos são áreas onde a precipitação média anual não excede 250 milímetros ou em locais onde a quantidade de água perdida pela transpiração ou evaporação excede o previsto pelas chuvas”.

Já a desertificação, continua o docente, “deve-se à vulnerabilidade dos ecossistemas de zonas secas que cobrem um terço da superfície do Planeta, à superexploração e ao uso inadequado da terra. A pobreza, a instabilidade política, o desflorestamento, o sobrepastoreio e as más práticas de manejo afetam negativamente a produtividade do solo”, afirma. “Em resumo, o deserto é uma condição natural de uma região ou paisagem árida ou semiárida, enquanto o processo de desertificação, além das características naturais secas, é condicionado pelas ações antrópicas. Assim, a área perde, progressivamente, sua produtividade a ponto de não conseguir mais se recuperar”.

O pesquisador alerta que o “processo de desertificação é irreversível”. Ele explica que “o solo atinge um nível de degradação grave ou muito grave, de modo que há o empobrecimento das espécies vegetais do local, predominando apenas poucas espécies mais resistentes, até o ponto que o solo se torna improdutivo. Dessa forma, ameaça o desaparecimento de espécies nativas da Caatinga, daí a importância das unidades de conservação para garantir a preservação do patrimônio da biodiversidade”, justifica.

Para impedir esse processo tão devastador, que tem um dia mundial de combate celebrado no dia 17 de junho, o coordenador do Lapis argumenta que “omeio mais efetivo é barrar o avanço, pois é muito custoso tentar recuperar áreas degradadas”. Ainda de acordo com o docente, “políticas públicas ou ações de educação ambiental e de sensibilização das comunidades podem levar à adoção de práticas menos predatórias em relação à Caatinga, além de monitorar a perda da cobertura vegetal, evitar o desmatamento, adotar práticas de manejo que contenham o avanço da erosão são os primeiros passos”.

Ele defende que é preciso “uma mudança de mentalidade, uma complexa mudança de hábitos, que requer oferecer os meios necessários para que a comunidade tenha condições de adotar novas formas de relacionamento com a natureza”. E reforça que “é possível continuar utilizando os recursos naturais da Caatinga, mas de forma sustentável, com o manejo adequado. Mas isso somente será possível se for reduzida a vulnerabilidade do conhecimento dessas comunidades”.