Foto: Maciel Rufino Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Ricardo Barbosa, presidente do PT em Alagoas.

O vazamento das conversas do atual Ministro da Justiça, Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato viralizou na internet nas últimas semanas e foi um dos assuntos mais comentados.

Membros do Partido dos Trabalhadores (PT) se mobilizaram e defenderam o ex-presidente Lula (que ainda está preso) pedindo Justiça após as conversas. O Cada Minuto trouxe uma entrevista com o presidente do PT em Alagoas, Ricardo Barbosa, que afirmou que houve uma armação jurídica nesse caso de Moro e de Dallagnol.

Ricardo também falou sobre os desejos do ex-presidente Lula, de participação política nas eleições municipais e uma avaliação do partido no estado.

Confira a entrevista abaixo.

1) Como o Partido dos Trabalhadores enxergou esse vazamento das conversas entre Moro e Dallagnol?

Parece irônico, mas com naturalidade. Porque isso, nós já vínhamos denunciando desde antes da operação lava-jato. Na verdade, desde 2016, uma união entre um setor da sociedade, os financistas, pra interromper um processo político que vivia o Brasil, de mais ou menos duas décadas para cá, de uma política de inclusão social, distribuição de renda, uma política que não agrada ao setor financeiro, que vive da especulação financeira. Então se traçou um plano, um projeto. Era necessário interromper governos, isso não se deu só aqui no Brasil. Se deu na Venezuela, se deu na América Latina, em outros países. Interromper governos que estivessem praticando esse tipo de política. No Brasil se deu com o golpe, em 2016, e com a tentativa de evitar que o PT jamais pudesse chegar ao governo em nenhuma outra oportunidade. Quando existiu a eleição em 2018, só existia uma maneira de impedir que o PT voltasse ao governo: era prender o Lula. Porque se o Lula fosse candidato em 2018, ganharia as eleições. Como ficou claramente demonstrado nas pesquisas anteriores às eleições e até mesmo através do desempenho do Haddad, que saiu de 4%, e que com o apoio do Lula, quando ele retirou o nome das eleições, ele foi para o segundo turno.

Então a prisão do Lula foi planejada. Ela foi arquitetada, ela foi meticulosamente discutida. Daí que teve que se adequar a prisão do Lula às regras estabelecidas no país, da constituição. Então houve mudanças casuísticas na legislação, na teoria de domínio do fato, que começou da época do mensalão, e outras teorias dos juristas que o Supremo Tribunal Federal admitiu para que fosse possível a prisão do nosso líder, Lula, para que ele não concorresse às eleições 2018. A prisão do Lula foi só para isso, para que ele não disputasse as eleições. Para isso teve que ter atropelo nas leis. A gente já vinha denunciando a parcialidade do juiz Sérgio Moro há muito tempo. Eu falo como advogado. Eu tenho 22 anos de exercícios de profissão na área de advocacia. E eu jamais vi uma parcialidade tamanha como foi a do juiz Sérgio Moro, em relação ao caso do Lula, do tríplex. Uma acusação que partiu sob uma acusação de uma propriedade que nunca houve por parte do Lula. Um imóvel que nunca foi dele. Uma sentença que foi aprovada depois, e julgada no Tribunal Região Federal, cujas as vírgulas e pontos eram iguais de um voto para outro, dos relatores. E depois de tudo isso, a denúncia de parcialidade terminou em quê? Terminou que ganhou o candidato que o juiz Sérgio Moro apoiou abertamente, e veio a ser ministro desse então presidente eleito e já anunciou-se a nomeação desse juiz para o Supremo Tribunal Federal. Então quais provas mais? Isso que tá surgindo aí é apenas o complemento das provas. É apenas para a gente dizer: "Tá vendo? Eu não disse!?". Porque eu já venho dizendo isso há muito tempo. Mas isso estava claro na nomeação do Sérgio Moro como ministro.

[...] Na indicação do Ministro Sérgio Moro para o Supremo Tribunal Federal. Então agora fica claro que houve uma armação jurídica. Agora fica claro, e eu até agora fico mais confortável, como advogado, de saber que o que foi praticado, do ponto de vista jurídico, foi uma aberração. Uma unidade de pensamentos entre julgador e acusador. O que não pode existir. O Ministério Público Federal é parte do processo. Ele é que acusa. O juiz é o Estado. O juiz é quem julga. Ele tem que julgar com imparcialidade, e não combinar com o Ministério Público o que fazer, o que deixar de fazer, o que o Ministério Público deve peticionar, como o Ministério Público deve peticionar. E aí, recentemente, eu vi as explicações do Dallagnol sobre a questão da parcialidade. O Dallagnol disse que, 'Como é que pode se imaginar que teve parcialidade num processo, uma vez que outros réus que foram acusados na lava-jato foram presos também, mas que num processo, várias testemunhas foram ouvidas. Foram acatados os pedidos para que se acolhesse ou não os depoimentos das testemunhas. Mas isso aí, tudo poderia ser combinado. Isso não justifica absolutamente nada, em relação ao fato de que houve uma manipulação no processo. Uma manipulação entre o julgador e o Ministério Público acusador para atingir um único objetivo, que era de manter Lula preso no processo eleitoral. Comprovando o que o Lula sempre vinha dizendo. Acho que agora vai se realizar o maior desejo do Lula. O Lula nunca quis sair daquela masmorra do Sérgio Moro com a tornozeleira. Ou para cumprir pena progressiva de semiaberto, ou domiciliar. O Lula sempre disse que só sairia dali absolvido, porque tinha consciência de sua inocência. E de que houve uma armação para prendê-lo durante o processo eleitoral. E é assim que o Lula vai sair. Nós temos absoluta certeza disso.

2) Você acha que com esse vazamento é possível que o caso do Lula seja revertido?

É! Não tenha dúvida. Porque senão a justiça vai dar um atestado de que no Brasil não existe mais constituição. Isso aqui virou uma republiqueta de banana mesmo. Não é nem mais convicção. É uma prova cabal. E obviamente que isso precisa ser investigado. Eu não estou dizendo aqui que nós já temos que trabalhar com o fato consumado. Vai esperar que seja investigado. O supremo, inclusive, estava para julgar as fotos do Lula, se eu não me engano, dia 11, há dois dias. Mas o ministro Gilmar Mendes pediu para se adiar esse julgamento para o dia 25, uma vez que cada dia tem um vazamento de informação. E ele queria ter a certeza de que esse vazamento de informações seria elemento suficiente para anular o processo. Isso pode anular o processo. Eu vou mais longe ainda, isso pode anular o processo eleitoral de 2018. Porque se houve uma intenção do poder judiciário, de um juiz juntamente com o Ministério Público Federal de fazer o que fez, e que lá na frente se comprovou como ilegal para tirar um candidato do processo eleitoral, isso tem repercussão até nas próprias eleições.

Então eu não só tenho certeza de que há elementos suficientes para anular todo o processo, como devolver a liberdade do Lula, tal qual era antes. O que a gente chama "O estado qual antes do Lula", de um homem honesto, inocente e livre.

3) Você acredita que a “Justiça” vai valer neste caso de Moro e do procurador?

Deveria! Deveria ser! Porque a justiça no Brasil deveria ser para todos. Os mesmos crimes que imputaram ao Lula e que a justiça entendeu ser motivadores da sua prisão, hoje existem crimes que também estão sendo imputados a Sérgio Moro, e a Dallagnol, e ao Ministério Público, que se, uma vez comprovados, ensejam penalidades para o juiz Sérgio Moro, penalidades para o Dallagnol, aos agentes do Ministério Público que participaram dessa encenação com a reversão de medidas que foram tomadas, baseadas nessas decisões, nesses atos administrativos judiciais que foram tomados durante o processo judicial.

4)  O PT pensa em algum candidato para as eleições municipais do próximo ano?

Primeiro quadro nacional é de que muito provavelmente nós já contemos no Congresso que nós vamos fazer agora em novembro desse ano, no congresso nacional, apontemos como tática do partido priorizar o lançamento de candidaturas próprias nas principais cidades e capitais. Mas baseado em quê? Primeiro, baseado no fato de que, se a intenção de quem deu o golpe em 2016 e perdeu o Lula, é aniquilar o PT, era transformar o PT em cinzas, isso não se deu. Esse foi um ponto fora da curva dos golpistas. Porque o PT sobreviveu a todos os ataques, a prisão do seu maior líder, e hoje o PT, diga-se, está finalizando campanha de filiação que seu último dia foi no dia 8 de junho, com milhares de novos filiados. Aqui em Alagoas nós passamos de mil filiados. Uma campanha que nós fizemos em pouco mais de 30 dias e terminou no dia 8 de junho. O PT não morreu. O PT está mais vivo do que nunca. Mais vivo, inclusive, do que estava quando éramos governo. Outra é questão de, mesmo tendo perdido o processo eleitoral de 2018, a nossa candidatura com Fernando Haddad, nós terminamos as eleições elegendo a maior bancada de deputados e deputadas federais no congresso. Somos o partido que tem o maior número de governadores no Brasil. E fomos à candidatura - a candidatura do PT com Fernando Haddad - que ganhou em mais municípios do que a candidatura do atual presidente da república. Então nada nos descredencia para 2020 que não signifique que o PT não deva lançar e se projetar num protagonismo no debate político em 2020. Nós voltamos à cena política. Nós não fomos derrotados. Nós estamos mais vivos do que nunca. Por isso nós vamos lançar. E em Maceió nós vamos seguir essa regra. Inclusive nós já colocamos um nome a disposição. O meu nome está à disposição dentro do PT. Poderão surgir outros nomes dentro do PT, o que é perfeitamente saudável e natural dentro do Partido dos Trabalhadores, não só aqui como em qualquer outra cidade. O que importa é que a gente coloque um nome dentro do debate político. Mas aqui, ressalve-se, nós não estamos colocando o nome no debate político do PT como sendo o nome autoproclamado do PT em 2020. Obviamente que não. Porque nós sabemos que em torno da candidatura do Fernando Haddad, tanto no primeiro e mais ainda no segundo turno, houve uma aglutinação de setores democráticos progressistas que deram uma batalha para evitar a eleição e vitória do atual presidente. Já sabendo e antevendo as características desse novo governo. Um governo que é antipopular. Um governo que é ultraliberal. Um governo que privilegia os mercados financistas. Enfim, ele já disse a que veio com a tentativa de reforma da previdência, com os cortes na educação. Então há em torno desse projeto grupos e setores democráticos e progressistas que nós temos que discutir com eles. E que poderá ser em 2020, uma candidatura que saia desse grupo. Então, no momento, nós estamos colocando o nome do PT.

Mas sabemos que essa discussão tem que ser dentro desse grupo de fontes democráticas e progressistas para fazer um enfrentamento em 2020 a atual gestão do prefeito do PSDB aqui em Maceió. Então é necessário que se diga que nós estamos lançando a candidatura do PT em oposição a candidatura do PSDB. Não por nenhuma questão pessoal, mas questões políticas e programadas, que nós pensamos diferentes. Aqui também a prefeitura do PSDB em Maceió já apontou um sentido de tentar fazer uma parceria com o governo Bolsonaro naquilo que existe de pior, na nossa concepção, de ataque aos servidores públicos. Enfim, fazer o debate dentro do grupo e vamos lutar para que a candidatura de 2020 seja uma do Partido dos Trabalhadores.

5) Como o PT avalia o governo de Bolsonaro?

Olha, de uma maneira geral, péssimo para o Brasil, para o povo brasileiro. Uma reinversão das políticas sociais que vinham sendo praticadas por governos anteriores. E um governo que pratica do ponto de vista político, econômico e social, atitudes que vão de encontro ao que a gente viu em governos anteriores. Está claro que o objetivo do atual governo é o desmonte Brasil. Desmonte que eu digo, do ponto de vista de terminar com o que ainda existe de estatização, privatizar ainda mais. O principal objetivo dessas privatizações é a nossa Petrobrás. Que tem, inclusive, sido atacada pela lava-jato, mas tem resistido graças a apoios que vem recebendo, inclusive de governos estrangeiros como China, como a própria união soviética. Tem feito com que a Petrobrás resista com alguns investimentos

E a cortes que tem feito aqui. Porque quer entregar a Petrobrás para os Estados Unidos, para os americanos. Esse é o objetivo do governo. Não só a Petrobrás, mas muitas estatais importantes.

Já se sinalizou com os correios também. É um governo do ponto de vista econômico não aponta nenhuma saída viável. Nós vivemos a cada dia que passa um decréscimo do ponto de vista das nossas expectativas e cada dia nós temos uma previsão menor de crescimento. A única saída que esse governo aponta é uma reforma da previdência que na verdade é o fim da previdência pública.

É entregar o mercado que hoje é a nossa previdência pública, para os bancos privados. A capitalização da previdência. A única avaliação que a gente faz do governo para o povo brasileiro, é de um governo que é péssimo. Ele não vai fazer aquilo que outros governos anteriores vinham fazendo do ponto de inclusão, distribuição de renda. Na política, às vezes a gente tem que fazer uma diferenciação de partidos, grupos políticos.

6) Como você enxerga a atuação do PT em Alagoas, acredita que a popularidade é a mesma que antes?

A gente sofreu um abalo de tudo o que sofreu de 2016 para cá. Você ter uma presidente deposta de maneira injusta e depois foi admitido isso. O próprio governo disse isso. Nós sofremos esse impacto. Não é mole resistir a tudo isso. Mas nós adquirimos aliados mais gente veio fazer a defesa do Partido dos Trabalhadores. Teve muita gente que veio a se filiar ao PT por conta dos ataques.

Aqui em Alagoas você eleger um deputado federal como o Paulão é o coroamento de uma política que obviamente deu retorno para o PT. A gente atuando, alargando nossas bases. Nós estamos chegando perto dos 20 mil filiados. Hoje nós estamos protagonizando um enfrentamento contra uma política anti-povo, anti-nação, que nos agora vamos encabeçar e vamos ter os reflexos nas eleições de 2020 em Alagoas.

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