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O filósofo Friedrich Nietzsche coloca, em seu clássico Humano, Demasiado Humano, que “os piores leitores são os que se comportam como soldados em pilhagens: pegam algumas coisas que podem usar, sujam e misturam o restante e caluniam o todo”. Esta foi a estratégia do filósofo esquerdista e ex-ministro Renato Janine Ribeiro ao comentar os vazamentos das conversas envolvendo o procurador federal Deltan Dalagnol e o ministro (até então juiz) Sergio Moro.

Sobre o mérito da conversa, já comentei aqui no blog em outro texto, mas o resumo é o seguinte: é preciso sim esmiuçar o contexto das falas entre Moro e Dalagnol, pois em um Estado Democrático de Direito tem que ser dado, ainda que seja o pior bandido, a chamada paridade das armas no processo, mantendo os envolvidos equidistantes e cada um em sua função: o juízo, o acusador e a defesa. Todavia, os julgamentos precipitados levam a cair na narrativa construída por Glenn Greenward, que possui interesses que não são jornalísticos.

Esses interesses possuem objetivos inconfessos como desestabilizar o atual governo, comprometer a Lava Jato, criar um ambiente político que comprometam as reformas, colocar todos apreensivos em relação ao que pode surgir, reanimar o PT, descaracterizar os crimes cometidos por vários corruptos de diversos partidos, enfim… Todavia, isso não implica em dizer que as conversas não possam ser analisadas à luz do Direito e, havendo prejuízos na ação, favorecer os réus de alguma forma. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Primeiro: jornalismo não é chantagem. Se Glenn Greenward tem mais conteúdo que os divulgados, que divulgue e ponto final. E aí, estes sejam submetidos ao crivo das análises e às consequências jurídicas e políticas que a partir de então existirem. O joguinho de “gato e rato” soa muito mais como “terrorismo” e estratégia de querer derrubar um governo eleito que qualquer outra coisa. Greenward quer nivelar o jogo por baixo, igualando juiz e procurador aos que foram julgados, apontando supostos cometimentos de ilegalidades, para depois inocentar o condenado Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula (PT).

Em 2018, em suas redes sociais, Glenn Greenward já havia comentado que a imprensa não tinha estratégia para bater Jair Bolsonaro e que era preciso desenvolver uma urgente. Então, que ele agora não pague de isento, pois sabe que também escolheu atuar politicamente.

Ora, se comprovado que a defesa de Lula foi prejudicada no julgamento, que se peça a revisão criminal e o caso seja julgado pela Justiça. Todavia, a sentença de Moro foi confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4º Região pelo Superior Tribunal de Justiça. Não há o mínimo indício de uma teoria da conspiração contra o PT na Operação Lava Jato, ainda que se queira impor essa narrativa por meio de uma conversa entre Moro e Dalagnol, que de fato tem pontos criticáveis e que pode favorecer o réu.

Fatos não se negam, estejam eles onde estiverem. E – pelo menos nas conversas divulgadas – não se aponta o forjar de provas, mas sim a preocupação da força-tarefa com a corrupção no país e uma discussão – essa entre os procuradores – sobre o peso dessas provas, o que é natural na fase da denúncia quando estas se submetem a questionamentos. Essa conversa não envolveu Moro. As que envolvem Moro falam sobre a ordem do processo e o juiz poderia ter sido sim mais prudente. Porém, não apaga o fato de Lula ser quem é. Os elementos comprobatórios contra o ex-presidente são fartos e não apenas no processo do Triplex. É nisso, e somente nisso, que há o que se questionar.

São inúmeros os criminosos confessos da Lava Jato e as provas que mostram a quadrilha que se apossou do poder, estando alguns de seus membros em vários partidos, incluindo o PT. Aparelhou-se o Estado dentro de um imenso esquema de corrupção para a manutenção do poder. Reflexo disso: as crises vivenciadas pelo país em função da roubalheira, da incompetência e da ingerência em estatais por conta de interesses inconfessos. É óbvio que Lula se beneficiou de tudo isso, tanto de forma direta quanto indireta.

Lula é o responsável pelo Foro de São Paulo, que fez do Brasil um cofre para os aliados ideológicos por meio do BNDES e outros mecanismos, sem falar do capitalismo de compadrio que fomentou o clube das empreiteiras. E aí, o ex-presidente teve os seus penduricalhos. Entre eles, o triplex, o sítio, o instituto, o favorecimento familiar etc. O PT e outros roubaram e não foi pouco. Agora, a narrativa visa inocentar o petista.

Repito: se há – juridicamente falando – elementos naquelas conversas que beneficiem a defesa de Lula, é direito dos advogados usarem. Mas, não podemos esquecer um outro ponto: os vazamentos foram criminosos e – como já aponta a Polícia Federal – de forma orquestrada, com o objetivo claro de fragilizar a Lava Jato, beneficiar Lula e outros corruptos, e fortalecer as esquerdas e os fisiológicos de plantão. Isto também tem que ser apurado e não pode ser esquecido. Assim saberemos se o tal jornalista é apenas um jornalista de esquerda (pois ter posição não é crime) ou se também era membro da orquestra. Aí, a coisa muda de figura.

Não sou jurista. Logo, não tenho como avaliar esse ponto.

Todavia, o senhor Renato Janine Ribeiro – em um texto publicado na imprensa – coloca que “Glenn” (como ele chama, denotando intimidade) “assumiu o protagonismo do jogo. Seus alvos estão fazendo exatamente o que ele quis ou previu. Ele controla o tabuleiro. Pela primeira vez desde 2015, a extrema-direita perdeu a iniciativa”.

Ribeiro repete um chavão comum aos seus: chamar tudo o que não é esquerda de “extrema-direita” e assim afirmar, ainda que indiretamente, que a Lava Jato é um instrumento desse suposto extremismo. Ou seja: criar a imagem de uma imensa conspiração contra as esquerdas no país, como se esses anjos de candura nunca tivessem cometido crimes.

O filósofo vai negar mesmo que houve um esquema de corrupção que foi o maior do mundo com as esquerdas no poder? Corrupto é corrupto, senhor Renato Janine. Não importa se ele é de esquerda, direita ou centro. A Lava Jato puniu de esquerdistas a fisiológicos, incluindo o Eduardo Cunha (MDB).

Quanto à existência de uma direita: é da democracia haver lados. Democracia não se faz com um lado, mas com lados. E aí, há esquerdistas, liberais, conservadores, dentre outras posturas, a disputar cargos eletivos. Claro: a posição política não é atestado de moralidade. Há esquerdistas ladrões, liberais ladrões e conservadores ladrões. O lugar destes é cadeia, pouco importando a ideologia que professem.

Parece que para Renato Janine, tudo aquilo que ameace o projeto de poder que o PT tinha e tem deve ser colocado logo como “extremismo”. Isso é retórica pura.

Ele ainda diz que as denúncias fazem parte de um “jogo”? Ora, não deveria existir jogo algum, mas sim a busca pela verdade, que é o princípio basilar do jornalismo. Se preocupado com a verdade, Glenn divulga os conteúdos e pronto. Os desdobramentos não mais pertenceriam a ele, mas sim consequências impostas pelos próprios fatos. Mas não. Na visão do filósofo, é preciso que se tenha um tabuleiro de xadrez e que a função é combater o que ele chama de “extrema-direita”. Se isso não é uma confissão, não sei mais o que seja.

Karl Marx dizia que a filosofia tem que deixar de ser contemplativa para interpretar o mundo, mas ser um instrumento para mudá-lo. Alguns textos seguem essa risca: não basta analisar os fatos pelo que os fatos são, nem expor os fatos. É preciso criar mecanismos onde eles se encaixem conforme os interesses não revelados para que se modifique a realidade.

Renato Janine ainda coloca que “os procuradores e Moro responderam a ele justamente o que ele queria”. Os procuradores e Moro agora devem responder à sociedade, pois se o jornalista quisesse que estes respondessem a ele, teria os procurado para que dessem suas versões e não construído as ilações como bem quis. O filósofo aqui assume mais uma vez que a intenção era mesmo emparedar os alvos do texto publicado e não a revelação dos fatos.

E aí, pouco importa se foi cometido um crime para que se chegasse a isso. Se há crime no vazamento, é para se esquecer. Pois, é um crime por uma boa causa. Isso não é novidade nas esquerdas. O revolucionário Lênin pensava assim. Só era crime aquilo que fosse contra a estrutura partidária que simbolizava o paraíso na terra.

O alvo do jornalismo não são pessoas, mas sim a verdade. Por isso que, por consequência, o bom jornalismo incomoda pessoas, mas não por ser pessoal.

Agora vem uma falácia do senhor Renato Janine Ribeiro. Ele diz que – ao confirmarem a autenticidade dos diálogos – Dalagnol e Moro teriam dito “você, Glenn, diz a verdade”. É mentira! É levar o leitor a uma conclusão falha sobre os desdobramentos.

O que Dalagnol e Moro disseram é que os diálogos em si usados existiram, mas que as conjecturas e ilações de Glenn não se sustentam. Na visão de Moro, não há ilegalidade ali. Dalagnol também defende que não houve erro. Mais ainda: Moro diz que não pode sequer atestar se os diálogos foram mudados ou não, pois não lembra das mensagens em função do tempo, confirmando que conversou sim com Dalagnol.

Minha opinião? Que se apure tudo. Os diálogos postos são pouco para conjecturas. Se houve planejamento prévio na Lava Jato em uma união entre juiz e procurador no sentido de prejudicar um réu, pouco me importa quem seja o réu, ele tem o direito de usar isso em sua defesa. Mas é preciso mais para chegar a essa conclusão. Se Glenn possui mais, que divulgue.

Todavia, em momento algum eles (procurador e juiz) disseram que o texto do The Intercept era verdade, mas sim que os diálogos existiram e foram postos em uma interpretação errada. Além de reforçar a narrativa que o jornalista queria e que Renato Janine quer impor: a de que os alvos corroboram com Glenn. É uma desonestidade intelectual bruta.

Depois, Janine equipara os vazamentos do caso em tela com os áudios de Dilma Rousseff (PT) e Lula que foram mostrados pela Lava Jato. Lula não foi hackeado, mas alvo de uma operação. O juiz Sergio Moro respondeu no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) por isso. Mas, na cabeça de Janine, o CNJ talvez também faça parte de uma teoria da conspiração para condenar Lula. Todavia, ainda que Moro tenha errado ao autorizar a divulgação dos áudios, a fonte era sabida, nada foi vazado às escondidas. O juiz assumiu as responsabilidades perante a lei e a opinião pública.

E agora? Os vazamentos criminosos foram feitos fora de um âmbito de operação que os justificassem, por isso criminosos são.

Mas tudo isso é para Janine continuar com a lenga-lenga de “extrema-direita”.

Que o caso tem repercussão é óbvio. São muitas as opiniões concordantes com Renato Janine e discordantes também, mas ele só se cerca de fontes que o corroboram para falar que a “imprensa internacional” caiu matando. Para ele, só importa o que lhe diz respeito.

É claro que nessa história não se deve passar pano para ninguém, mas analisar com base nos dados postos: 1) Que Moro e Dalagnol expliquem o contexto da conversa, que se tenha os desdobramentos políticos e jurídicos (se for o caso), mas 2) que também se investigue esse vazamento e a verdade apareça.

Espanta-me ainda o senhor Renato Janine elogiar a estratégia de soltar os dados a “conta-gotas”. Isso não é jornalismo, ora bolas. Se há mais informações, elas devem ser divulgadas para que tudo seja assim esclarecido e Moro e Dalagnol paguem se tiverem errados, o que é lamentável para o país, pois nada disso inocenta os bandidos pegos pela Lava Jato. Jornalista não é “senhor do tempo”, como coloca o filósofo. Ele é o compromisso com a busca pela verdade.

Quando traça uma estratégia dessas, o tal Glenn, na realidade demonstra que está trabalhando a serviço de um grupo político, para só escrever o que deve quando for conveniente a quem ele quer favorecer, forçando consequências e tentando impor uma narrativa. Aí, se utiliza de meias-verdades para se construir o que se quer por interesses prévios. Se há algo mais grave contra os envolvidos, publique-se.

Quem passa pano, como diz Ribeiro, é ele mesmo, ao tentar usar o texto de Glenn para limpar toda uma série de esquemas de corrupção descobertos pela Lava Jato.

Estou no twitter: @lulavilar