Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

 

(*)Roberto Amaral

Assistimos domingo último a um estranho ‘protesto a favor’ de um governo e de suas políticas impopulares, das quais a desmontagem da previdência pública – saudada na Av. Paulista – é apenas um indicador perverso. Quando este texto chegar aos seus leitores o IBGE já terá confirmado, com a queda do PIB, que o Brasil de Guedes e Bolsonaro está prestes a concluir sua caminhada suicida para a depressão econômica – com tudo o que ela traz consigo, a começar pelo agravamento do desemprego, tanto mais grave quanto o ultra-liberalismo investe na desmontagem dos mecanismos de proteção social, na precarização das relações

 

de trabalho e no aprofundamento das desigualdades sociais.

As caminhadas de domingo, e destaco as aglomerações de São Paulo e Rio de Janeiro, não salvam o governo em crise (crise geral e crise específica dentro do regime), nem o precipitam no abismo, mas acentuam o consabido viés autoritário do bolsonarismo, manifesto nas palavras de ordem contra o Congresso, o Judiciário e a política em geral, e, principalmente, objetivado na reiterada, e até aqui bem sucedida tática da ação direta, mediante a qual os projetos totalitários historicamente mobilizam as massas na preparação do assalto às instituições democráticas.

Por enquanto, esse mandato não lhe foi outorgado, mas as esquerdas não serão inteligentes se considerarem irrelevantes as multidões que o bolsonarismo demonstrou poder mobilizar.

De uma forma ou de outra, as manifestações têm servido como um sistema de plebiscitos convocados ora pela oposição (que reclama por um recall), ora pelo governo, este em busca de referendo popular após menos de cinco meses de exercício. Com o apoio recebido – e outras mobilizações buscará – o governo intenta aumentar suas fichas tanto nas negociações com o Congresso quanto nos embates, pouco triviais, dentro de suas próprias hostes.

No Brasil quase simetricamente dividido (e desprovido da mediação do centro político desde que a socialdemocracia suicidou-se ao abrigar-se na direita), o segmento bolsonarista do regime optou pelo aprofundamento da cisão, campo de luta para o qual atrai a esquerda, que, desprovida de estratégia própria, dele não tem podido fugir.

Desinteressado, pelo menos por tática, pelo consenso com o qual em regra aspiram os governos nas ordens presidencialistas, o capitão aprofunda e alimenta o confronto, inclusive nas ruas (onde busca legitimação), preocupado apenas em preservar e fortalecer seu núcleo duro. Pode ser a preparação para maiores embates. Com o apoio que revelou ainda conservar, a extrema-direita aparelha-se para o confronto político nas diversas arenas e avisa à direita a impossibilidade de um bolsonarismo sem Bolsonaro. Esta pode ter sido a grande vitória do capitão, pois capaz de assegurar-lhe a sobrevida ameaçada nas ruas e na domesticidade do poder.

Há sinais de preocupação no núcleo do regime e assim deve ser entendida a procura de diálogo que eminente líder militar procura estabelecer com líderes políticos civis, inclusive do campo da oposição petista.

Em qualquer cenário, a estratégia do confronto haverá de conviver com o desancado ‘presidencialismo de coalizão’ que vem de prestar inegável serviço ao processo democrático, ensinando ao ‘bolsonarismo-raiz’ a necessidade de discutir e compor, quando compor implica limar arestas e conciliar interesses. Essa contingência, todavia, poderá transformar-se no ‘calcanhar de Aquiles’ do governo que opta pela cisão e o confronto, pedra angular de sua capacidade de mobilização de militantes levados ao passionalismo, e, assim, despreparados para composições e recuos. Um governo afinal cedente à ‘velha política’ (da qual, aliás o bolsonarismo, até como empresa familiar, é fruto) dificilmente manterá de pé as idiossincrasias dos grupos radicalizados, mas um governo que não sabe compor é um semeador de crises.

Quando a economia derrete, a alternativa do bolsonarismo é a radicalização ideológica que mobiliza suas bases populares, as quais, se não são majoritárias na sociedade, apresentam-se ainda em condições de sustentar o capitão e seu projeto reacionário e antirrepublicano. É evidente que essas massas (e nelas jamais menosprezemos o papel aglutinador dos fundamentalismos religiosos) não são tudo, pois as bases de sustentação do novo regime – de que o bolsonarismo é uma representação – vão muito além delas, envolvendo um complexo condomínio de forças que caminha da Av. Paulista ao Comando do Exército, unificando interesses heterodoxos em torno da pauta econômica, nada obstante o desconforto de setores até aqui irrelevantes da caserna com a desmontagem do Estado e o avanço da desnacionalização da economia. O fato objetivo – que se soma às características castrenses do novo regime – é a existência (despercebida até 2014) de grandes contingentes sociais conservadores facilmente mobilizáveis pelo reacionarismo político-econômico-religioso, o receituário antinacional e anti-desenvolvimentista que une o ultra-liberalismo econômico a uma vocação política autoritária reforçada na ação prática. Esta é a semente do que hoje podemos chamar de ‘bolsonarismo-raiz’, uma visão de mundo que a aparência do sucesso político do lulismo havia escamoteado, nada obstante a consciência do autoritarismo larvar que, com o escravismo, é a característica nodal de nossa formação de povo, nação e Estado.

O radicalismo, porém, tem sua alma dialética, pois a direita alimenta a reorganização popular progressista e indica caminhos à ação programática de uma esquerda orgânica, até aqui simplesmente reativa. As manifestações do dia 15 exaltam a vitória da política de frente ampla realizada nas ruas (isto é, na ação prática) pelas grandes massas, política que os partidos de esquerda ainda não conseguiram concertar, seja no Congresso, seja mesmo no embate social.

As mobilizações esperadas para o dia 30, mesmo que se limitem à defesa do ensino público e ao combate à proposta reacionária de ‘reforma’ da previdência pública, desamparando os que dela carecem, serão um passo à frente no caráter das manifestações na medida em que impliquem um grau maior de organização. Constituirão um avanço, mas ainda estarão muito longe do que se pode exigir das esquerdas brasileiras. Dessas se espera que, superando táticas puramente reativas – a simples resposta a ações e desacertos do governo que se deve combater – ingresse em uma fase protagonista, apresentando para discussão com a sociedade o seu programa de governo, em contraposição ao programa autoritário-liberal-reacionário que aí está.

A resistência às políticas do governo reacionário – papel elementar da oposição de esquerda – pede complemento na proposição de alternativas. A esquerda socialista é chamada a retomar o discurso que abandonou desde os idos eleitorais de 2002. O combate ao programa de desmonte da previdência pública é a tarefa número um da oposição, mas não deve ser levado a cabo como fato isolado, pois não são acasos, peças soltas de uma engrenagem em pane, o assalto à razão que o bolsonarismo promove com a tentativa de destruição da universidade e do ensino público de um modo geral (e com ele com a pesquisa), a subordinação de nosso desenvolvimento aos interesses estratégicos das grandes potências, a desmontagem do Estado nacional e a sotoposição dos interesses das grandes massas, as privatizações e as desnacionalizações, a desconstituição sistema de proteção social. O que está em jogo, em última linha, é o projeto de nação, de país e de sociedade bem como o papel que nele devem desempenhar as instituições democráticas.

A pergunta que não pode calar: quem mandou matar Marielle?

 

(*) Professor da PUC-RJ e ex-ministro da Ciencia e Tecnologia