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Conversei, na tarde de ontem, 25, com a deputada distrital Júlia Lucy (Novo). Liberal assumida, a parlamentar se encontra em Alagoas para uma palestra que ocorre neste sábado, dia 26, no Maceió Mar Hotel. Lucy pretende – conforme entrevista – falar da participação da mulher na política, sobre empreendedorismo e a presença feminina nesse contexto, dentro de outros assuntos transversais.

Em nosso papo, além de falar sobre a palestra, abordamos outros assuntos como a Reforma da Previdência, o governo federal. Publico aqui análises, opiniões, entrevistas etc. Nesse texto, caro leitor, não há as minhas opiniões. As respostas são as íntegras das opiniões da parlamentar e de sua visão de mundo.

Quem me acompanha saberá que há pontos que discordo, outros que concordo. Mas, mantenho na totalidade o dito pela deputada ao responder cada uma das perguntas, como sempre faço quando o assunto é entrevista. Confiram a íntegra:

A senhora é deputada distrital eleita pelo Novo. Tem se envolvido em discussões para além da esfera do Legislativo ao qual pertence, o que é salutar na política. E agora, vem ao Estado de Alagoas para uma palestra. Qual o objetivo central dessa palestra do Novo em Maceió?

Vamos discutir o protagonismo da mulher. Eu vou falar sobre a mulher na política e na atividade do empreendedorismo e vamos ter também a Júlia Nunes, que vai falar da questão da violência contra a mulher, que também é uma pauta minha como deputada distrital. Então, o intuito é reunir os filiados do partido, aqueles que gostam do partido, e os que querem entender um pouco mais. É uma conversa prática, com uma discussão que visa conduzir o debate para propostas. Então, será um momento interessante e fica o convite para as pessoas participarem.

A senhora entra em um tema cujas as pautas são muito presentes no feminismo que é associado às esquerdas. E o Novo se posiciona fora desse espectro de esquerda, se colocando como liberal. O que diferencia a forma como a senhora e o Novo enxergam essas pautas e a forma como a esquerda as visualiza? Qual a diferença central?

A esquerda sempre coloca a mulher como muito vítima, como se ela não fosse capaz de reescrever sozinha a sua história. Como se ela não fosse agente de sua própria história e precisasse sempre do Estado. E a grande batalha de um liberal é acreditar que o indivíduo é a menor unidade de poder que existe, cada um com a capacidade de fazer as escolhas de sua própria vida, dentro da lógica de liberdade com responsabilidade. Então, o que nos diferencia é isso. Enxergamos que há um problema na sociedade que é o machismo e entendemos que o machismo é ruim para os homens também, pois é uma carga de valor que pressiona alguns homens também, que cometem comportamentos machistas que nem sabem que são machistas. E depois de um processo de diálogo é possível conscientizar. A gente não prega a separação com os homens, mas uma construção de diálogo. A violência contra a mulher é uma violência contra toda sociedade. A mulher não pode ser vista como vítima.

Nessa linha de raciocínio, da participação feminina, o Estado atua com legislação que garantecotas para participação da mulher na política, por exemplo. Ser liberal é sempre pedir a menor interferência possível do Estado na vida do cidadão, seja homem ou mulher. Como a senhora enxerga essas cotas para garantir a participação da mulher na política? A senhora é favorável ou contra?

Olha, eu sou cientista política. Então, eu costumo embasar minhas opiniões em estudos. As eleições nos propiciam dados e a última eleição nos mostra alguns resultados que podem ser analisados. A cada eleição em que o Tribunal Superior Eleitoral aumentou o rigor dessa legislação para incluir as mulheres, começando com a sugestão de 30% das candidaturas e depois obrigando, inclusive falando do gasto do Fundo Eleitoral com as mulheres, o que percebemos é que a cada recrudescimento da legislação – seja pelo TSE ou pelo Congresso Nacional – o que houve foi um aumento do uso de “mulheres laranjas” por parte dos partidos. Porque se você não tem uma participação real, não é a cota que vai resolver o problema. Nós observamos isso em todos os partidos. O partido que mais teve candidata laranja foi o PSL, o segundo foi o PT. O único que não teve candidatas laranjas foi o Novo. No Novo, se não há o número de mulheres, não lançamos o número de candidatos que deveríamos lançar. Isso ocorreu em Brasília (DF). Nós não entramos na onda de colocar uma mulher para sustentar candidaturas masculinas. Não funciona. As cotas são burladas. Isso está provado. Houve mulheres com menos de 10 votos. Há mulheres que sequer sabem que é candidata. Com a determinação em relação ao Fundo Eleitoral, elas estão sendo usadas para receber o dinheiro e encaminhando para os homens que estão efetivamente concorrendo. Não acreditamos na efetividade das cotas. E a gente acaba retirando um direito civil de um homem que queira ser candidato. Há homens que não são candidatos porque o partido não tem o número de mulheres. Acho que tem que ser livre. Quem quiser ser candidato que seja. A participação tem que ser espontânea e estimulada. E aí, há mais uma diferença para o feminismo de esquerda. Há muita imposição no feminismo de esquerda. Existe um padrão delimitado do que é ser feminista. Defendemos que a mulher decida sobre a vida dela. Se ela quiser ser dona de casa, não há problema. Se quiser ser ministra de Estado, também não. Ou qualquer outra escolha, desde que seja uma decisão dela.

O que a senhora pensa da questão do aborto, já que esse tema também entra nessas discussões e o Novo não tem uma posição firme sobre o assunto?

Como liberal, eu defendo a liberdade do indivíduo e que ele cuide da vida dele da melhor forma que ache. Desde que não ultrapasse o espaço do outro. Eu faço da minha vida o que eu quiser se eu não tiver interferindo na vida de ninguém. Quando a gente fala do aborto, falamos da vida da mulher e da vida do bebê. Então, nós vivemos em um contexto em que há muitas formas de evitar uma gravidez. O aborto é uma invasão que interfere na vida do outro ser humano. Extrapolou a vida dela. Portanto, sou contra. Agora, defendo muito que tenhamos – no sistema público de Saúde – uma rede de acolhimento para mulheres grávidas que estejam pensando no aborto, acolher essas mulheres e mostrar que ninguém é obrigado a ser mãe. Tenha o bebê e coloque para adoção. Aquela vida ali tem o direito constitucional de ser preservada. Então, é assim que eu enxergo. A vida precisa ser preservada. A mulher tem que ser acolhida, protegida, orientada e não tratada como criminosa caso pense no aborto. E essa proteção tem que se dar até o fim da gravidez.

Saindo desse campo, e partindo para um outro assunto: o Brasil vive um momento em que muitas posições políticas estão sendo discutidas, com pessoas que se posicionam à esquerda, outros que são conservadores, liberais, enfim… Isso gera uma discussão pública e reflete na forma como essas pessoas enxergam o governo do presidente Jair Messias Bolsonaro (PSL). Como a senhora vê o Executivo federal?

O presidente Bolsonaro não é um liberal. Ele já deu declarações que deixam isso claro, quando ele interferiu na Petrobras na questão dos preços. Ele – ao que me parece – ainda traz uma ideia de que o Estado tem que atuar na economia, com os mecanismos que ele tem. Nada obstante, ele está fazendo movimentos no sentido de modernizar a economia. É um mérito da equipe econômica que ele montou. Eu conheço a equipe e ela é muito boa. Então, tivemos a empresa simples de crédito que é uma lei positiva aprovada agora, que abre a possibilidade de pessoas físicas fazerem empréstimos, de forma a multiplicar o acesso ao crédito para pessoas que teriam mais dificuldades, e isso dinamiza a economia. Então, é extremamente positivo. A MP da liberdade econômica também é um acerto. Então, ele está muito bem assessorado. Agora, o problema do presidente Bolsonaro é que eu acho que ele ainda não entendeu que a campanha acabou e ele é presidente da República e não mais um candidato com ideias radicais. Ele precisa governar e dialogar com todos. Ele tem que abandonar uma fala agressiva, maneirar nos termos, como ter chamado estudantes de “idiotas úteis”, como foi nas manifestações agora. A gente sabe que Lula e Dilma contingenciaram na Educação. Por que houve essa manifestação? Claro que a gente tem uma parcela que não aceita a derrota nas urnas e vai tentar instigar esses movimentos e uma confusão entre as pautas dos protestos e o Lula Livre e outras questões. Mas, quando ele chama esse grupo de “idiotas úteis”, ele está desrespeitando. E as pessoas têm o direito de ter as opiniões delas também em uma democracia. Ele precisa entender que a campanha acabou e governar de forma mais abrangente, caso contrário não vai conseguir aprovar o que precisa.

Mas nesse caso das manifestações que a senhora citou, veja que a senhora reconhece ali o componente político-ideológico do protesto que traz pautas que não são a Educação, mas a defesa do Lula Livre, como citado. Então, não haveria de fato uma “massa de manobra” e o presidente não teria se referido a esta em específico, ainda mais quando sabemos que muitas das ideias que circulam nas universidades são à esquerda, dentro de uma hegemonia, digamos assim?

Com certeza tem uma massa de manobra, sempre houve. Eu falo isso como egressa de uma universidade federal. A maioria dos professores são de uma linha de esquerda. Há eventos partidários, e eu não acho que esse seja o ambiente mais correto para esses eventos. Embora, eu não ache que não deva ser proibido, porque defendo a liberdade de expressão. Eu acho que o público ali deveria ter senso crítico e entender que há um lugar para cada coisa. Mas, o presidente não pode rotular e ofender, porque ele é o líder. Então, quando ele está na liderança de todo um país, ele não pode se referir daquela forma. Ele poderia ter dito de outra forma. Poderia ter dito: ‘Olha, nós observamos que há muitas faixas Lula Livre, bandeiras da CUT, existe uma confusão e esses movimentos estão se apoderando dessas revoltas dos estudantes’. Há como falar. Agora, quando você usa o termo ‘idiota’, não tem como justificar. Eu acho que falta isso. É um discurso arriscado que complica o governo.

Se fosse para dar uma nota de zero a 10, que nota a senhora daria para o governo Bolsonaro?

A equipe econômica é extremamente positiva, mas há estruturas administrativas ainda que não foram montadas. Há políticas públicas que estão morosas por falta de montagem de equipe. É preciso se estruturar mais rápido, porque muito tempo já se passou. Precisamos das respostas que queremos ter. Se for para dar uma nota, eu daria seis.

Reforma da Previdência? A senhora concorda integralmente ou acha que precisa haver ainda mudanças?

Nós do partido Novo concordamos. Nós fomos o primeiro partido a referendar a proposta. Não tem como adiar mais e não tem como ficar fazendo concessão. Passou da hora. Na realidade, essa necessidade já é apontada há tempos. Eu realmente me preocupo, porque dentro do Congresso há um número de parlamentares muito grande, que não se preocupa em tirar da lama o país. Estão torcendo para que o país não saia.

Então, a culpa seria muito mais do Congresso, em especial do Centrão, do que necessariamente do Executivo, quando o assunto é Reforma da Previdência?

Não sei se tem como a gente estabelecer de quem é a maior parte da culpa. Existe uma inabilidade por parte do governo federal, do Executivo, em dialogar. Mas, temos um Centrão-esquerda que está ali muito bem fisiologicamente estabelecido. Então, está esperando uma troca e o presidente não está fazendo isso. É difícil caminhar dessa forma…

...o presidente teria que fazer a troca, na visão da senhora?

Olha, nós do Novo defendemos que não. Porque não tem que entrar na velha forma de fazer política. Essa é a nossa postura. Quando fui eleita, recebi ligação da equipe do governador querendo saber se eu queria secretaria ou região administrativa, como é em Brasília. Na prática, é “para você votar com a gente, eu te ofereço cargo”. Eles se espantam quando respondemos que essa não é nossa posição e que votaremos com o governo naquilo que avaliarmos como positivo, mas o nosso papel é ser fiscal para não confundir as esferas. Isso é que traz independência. O Bolsonaro saiu com um capital político muito forte das eleições. Se ele não tivesse essa sucessão de falhas na comunicação, teria um capital político ainda maior para movimentar a população contra esses políticos e denunciar essas práticas.

A senhora fala do uso do capital político para mobilizar os apoiadores no sentido de pressionar pelas reformas. Isso é mais ou menos o que se espera dessas manifestações que estão sendo chamadas para o dia 26 de maio. A senhora é favorável às manifestações?

Eu sou favorável a qualquer movimento que mostre a opinião das pessoas, pois elas são livres para se expressar. Não tem como ser contra um movimento social legítimo que sai de dentro da sociedade, que seja pacífico e que tenha uma bandeira. Sou superfavorável.

Estou no twitter: @lulavilar