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Rebeca Bedone, escreve:
“O câncer tira a importância do que não é importante”, ouvi do filho de uma paciente que morreu recentemente. Até seis meses atrás, ela esbanjava uma saúde de ferro. Era ativa, e tinha um bom humor que cativava a todos, desde o porteiro do prédio até o cachorrinho da família.
“Minha mãe nunca esmorecia.” Durante a nossa conversa, vi nos olhos daquele moço de trinta e poucos anos o que era uma mistura de carinho, pesar e saudade. Ele me contou fatos da sua infância, como o dia em que a mãe dormiu ao seu lado fazendo-lhe cafuné porque ele tinha medo de chuva com trovões e relâmpagos. Deu risada da bronca que levou, na adolescência, quando ela encontrou um cigarro no bolso da calça dele. E encheu-se de emoção ao recordar a felicidade que ela sentiu ao levá-lo até o altar quando ele se casou.
“Eu andava sem tempo para ela.” Casamento, filhos, promoção no trabalho. Viagens a negócios. Contas a pagar. Férias. Metas. Funcionários.
“Tinha certeza de que mamãe morreria velhinha, e não linda e forte aos 60 anos.” Ele, que também é meu paciente, enxugou os olhos e se levantou da cadeira. Me deu um abraço agradecido e foi embora sem perceber o quanto fiquei tocada por aquela conversa.
É… a gente se acostuma. Penso aqui, agora, na minha correria de todo dia. Eu e minha mãe trabalhamos juntas; ela também é médica. Dividimos o mesmo consultório e nossas salas são uma de frente para a outra. Estamos separadas por duas paredes, a poucos metros, e, mesmo assim, tem dias que não nos encontramos, pois, nossos horários de chegada e saída nem sempre são os mesmos.
Outro dia, minhã mãe falou que sente muita falta da minha avó. Vovó morreu há mais de 20 anos, após uma queda boba ao tropeçar na escada; foi dessas mortes que a gente nunca espera e tem dificuldade para superar. Lembrei também do pesar de uma amiga que estava brigada com a mãe quando esta morreu num acidente de carro. Coisas imprevisíveis dessa vida que é um sopro. Nunca estamos preparados para perder nossos pais, não importa a nossa idade.
Voltando ao início desse texto, pego-me pensando: o que é mais importante? Vivemos apressados. Desatentos. A vida está tão louca que queremos o que não temos enquanto nos esquecemos de olhar para tudo aquilo que já conquistamos. Deixamos a existência passar enquanto o que realmente importa está aqui, bem ao nosso lado.
Acredite, pode não haver tempo suficiente para curarmos todas as nossas dores ou realizarmos tudo o que gostaríamos. Pode não haver tempo para dizer a quem você ama o quanto essa pessoa é importante…
É isso. Vou ali na sala ao lado abraçar a minha mãe."