Ilustração Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Tavares Bastos

Nesse mês de abril são completados 180 anos do nascimento de Aureliano Candido Tavares Bastos. Trata-se de um dos maiores pensadores políticos do país, considerado o pai do pensamento federalista brasileiro, que prevê a descentralização de poder dando maior autonomia às unidades federativas. Bastos foi um visionário.

Em seu livro A Província, publicado no século XIX, Tavares Bastos já refletia sobre a liberdade de mercado, a autonomia administrativa e política que o país deveria ter e analisava o contexto americano. Por lá, “profetizava” os EUA como a potência a surgir no novo mundo em função de sua organização política e valores assumidos: Constituição enxuta, respeito à propriedade privada, às liberdades individuais e não fazer do Estado um monstro burocrático a se transformar em uma babá do povo.

Fosse em tempos atuais, Tavares Bastos seria rotulado de “fascista” pelos que nem conhecem o que é o fascismo, mas usam como jargão de luta política para atacar liberais e conservadores que pensam o oposto do pensava Benito Mussolini em seu panfleto Doutrina. Bastos queria menos Estado, menos burocracia e entendia o progresso como algo que se faz calçado em valores que inspiram uma alta cultura, sem relativismos absurdos.

Infelizmente, poucos alagoanos conhecem Tavares Bastos. Ele teve uma grande influência no pensamento de Joaquim Nabuco, foi pioneiro na defesa do abolicionismo, chegando a ter papel decisivo na Questão Inglesa. Todavia, a data – 20 de abril – passou batida na maioria das escolas alagoanas quiçá no país. E assim, por essas bandas, os grandes homens são esquecidos.

Na Assembleia Legislativa de Alagoas, que leva o seu nome, uma tímida homenagem com opinião de parlamentares – muitas delas corretas! – sobre quem foi Bastos. No entanto, a última homenagem significativa (naquele Poder) se deu em legislaturas passadas, quando o ex-presidente e ex-deputado estadual Fernando Toledo republicou o A Província.

Mais recentemente, a cidade de Marechal Deodoro – local de nascimento de Tavares Bastos – o homenageou em uma Feira Literária. Tive a honra, como estudioso de seu pensamento, palestrar sobre a importância do autor alagoano em um evento desta Feira.

Seria tempo do governo do Estado de Alagoas – que tem um órgão para isso – republicar sua obra em parceria com o Legislativo. Por que a Casa não fez um evento significativo sobre o pensamento de Bastos?

Aprendi muito lendo as obras de Bastos. Aprendi sua visão sobre o Brasil profundo e a necessidade de interligar as regiões respeitando suas autonomias, como nas viagens ao Amazonas. A Província traz lições de um federalismo que, apesar dos elementos datados, são um norte para as mudanças que necessitamos no pacto federativo atual. Cartas do Solitário nos apresenta textos que são de uma coragem e de um dever cívico que faltam aos nossos homens públicos atuais.

Tavares Bastos é um orgulho para Alagoas. Precisamos resgatar sua memória para além de releases em páginas oficiais.

O alagoano foi um intelectual que viveu pouco. Faleceu aos 36 anos, mas aos 21 anos já dominava uma série de conhecimentos filosóficos e históricos que inspiram gerações mais novas. Por sinal, em A Província, há uma clara preocupação com o processo educacional de um povo.

Como deputado, não se rendeu às elites. Foi um liberal que desafiou a centralização do império e tocava em pontos que incomodava as oligarquias, enxergando – de forma antecipada ao intelectual Raimundo Faoro, com a importante obra Os Donos do Poder – o estamento burocrático no qual o país se transformava e que foi ampliado com a República de ideias positivistas.

Em resumo, Tavares Bastos é sinônimo de luta pela liberdade, mas sem esquecer que essa é a condição do homem e que para florescer uma civilização é preciso que esta nutra valores e respeito pelo próprio passado, refletindo sempre sobre sua formação histórica, reconhecendo erros e conquistas.

Como diz em A Província, a outra face do livre-arbítrio é a responsabilidade de arcar com as consequências das próprias escolhas. Não há progresso sem reflexão sobre o que se avança e o que se conserva. Essa é uma lição primordial do pensamento de Tavares Bastos.

Seria fã de Tavares Bastos se alagoano não fosse. Como alagoano é, aumenta ainda mais o meu orgulho por ter nascido no chão que Tavares Bastos nasceu.

Desde 2012, quando comecei a estudá-lo, este alagoano se tornou para mim uma referência. Indagava-me como não o tinha descoberto antes. Por qual razão ele não se encontra nas faculdades por aí afora? São questionamentos cujas respostas me entristecem.

Destaco aqui alguns trechos de Bastos que me levaram a refletir e produzir alguns dos meus textos. Em A Província, ele sacramenta: “O que caracteriza o homem é o livre arbítrio e o sentimento da responsabilidade que lhe corresponde. Suprimi na moral a responsabilidade, e a História do mundo perde todo o interesse que aviventa a tragédia humana. Os heróis e os tiranos, a virtude e a perversidade, as nações que nos transmitiram o sagrado depósito da civilização e os civis que apodreceram no vício e nas trevas, não se poderiam mais distinguir, confundir-se-iam todos no sinistro domínio da fatalidade”.

É justamente o que penso sobre a questão da liberdade e os demais valores necessários para manter esta liberdade viva. Numa sentença que é atribuída a Thomas Jefferson é dito o seguinte: “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Mas o que vigiar? Essa reflexão é profunda em Bastos. Além de profunda, necessária ao nosso tempo.

Afinal, como diz o intelectual alagoano, “a inversão das posições morais é fatalmente o resultado da centralização”. Ou seja: quanto mais o Estado cresce, mas ele precisa modificar costumes, culturas e tradições para impor uma forma de viver que desrespeita aquilo que as comunidades construíram ao longo da História. Sem essa vigilância, em nome do progresso se joga fora o bebê com a água suja do banho, como é posto no ditado popular.

Bastos segue afirmando que essa inversão de posições morais é um “efeito necessário, fato experimentado, não aqui ou ali, mas no mundo moderno e no mundo antigo, por toda parte, onde quer que tenha subsistido (...) uma das consequências morais do sistema político que suprime a primeira condição da vida”. Esta primeira condição é a liberdade. É justamente a denúncia do que se encontra presente na mentalidade revolucionária ao tentar forjar o novo homem. É preciso - nessa visão de revolução - que se ocupe espaços, se tome o poder, e se eleve um partido ou grupo ao status de “consciência”.

O “ser ontológico” passa a ser fundado pela necessidade de revolução, rouba-se do homem a possibilidade de qualquer transcendente e individualidade, coletivizando-o para ser instrumento de um projeto de poder tocado pelo Estado agigantado e presente em cada minúsculo detalhe da vida do ser humano, dizendo o que ele pode e o que não pode. Não se trata, portanto, apenas de uma questão econômica ou política. Mas sim da real luta contra a possibilidade de qualquer tirania, venha esta de onde vier.

Neste sentido, em alguns de seus trechos, Tavares Bastos parece que está sentado ao nosso lado, como quem puxa uma cadeira e pede um café e diz ao interlocutor: senta aí também que eu preciso te falar o que anda acontecendo. A leitura de Bastos é, portanto, um diálogo a estar sempre presente.

Se acham que exagero, eis o retrato de nossos dias sendo traçado no século XIX:  “Nesses dias nefastos em que o poder, fortemente concentrado, move mecanicamente uma nação inteira, caracterizam o estado social a inércia, o desalento, o ceticismo, e, quem sabe, a baixa idolatria do despotismo, o amor às próprias cadeias. Daí a profunda corrupção das almas, abdicando diante da força ou do vil interesse. E não é as classes inferiores somente que lavra a peste: os mais infeccionados pelo vício infame da degradação, são os que se chama as classes elevadas”.

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