Vanessa Alencar/CM Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Doutora Jackeline Romio

Em Alagoas são registrados, anualmente, cerca de 100 mortes de mulheres por agressão e destas, em torno de 70% são feminicídios, afirmou a doutora Jackeline Romio, demógrafa especialista no assunto. Ela concedeu entrevista ao CadaMinuto antes do início da sessão especial que discute, nesta segunda-feira (18), na Assembleia Legislativa, o enfrentamento à violência contra as mulheres.

Explicando que os dados com os quais trabalha são oriundos da área da Saúde e não da Segurança Pública, Jackeline destacou que se trata de um alto número em comparação a estados bem mais populosos, como São Paulo, onde o índice gira em torno de 450 homicídios deste tipo por ano. No Brasil, a média é de quatro mil assassinatos de mulheres por agressão, podendo 70% dos casos serem classificados como feminicídios.

"Isso demonstra que o Estado de Alagoas tem que trabalhar bastante a questão da violência contra mulher, lembrando que o óbito representa a ponta da violência. Atrás desses óbitos tem uma quantidade imensa de outras violações e ciclos de violência que as mulheres alagoanas estão sofrendo. Outro dado que eu encontrei é que a maior parte dessas vítimas, cerca de 80%, 90%, são mulheres negras. Então é preciso analisar esses dados em comparação também com a questão racial e as jovens, que acabam sendo as maiores vítimas", analisou.

A demógrafa também falou sobre os números apresentados pela Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL), dando conta de uma redução de 42% no número de feminicídios, entre 2017 e 2018.

Para ela, a "queda'" não reflete a realidade, tendo mais a ver com o tipo de notificação: "A lei do feminicídio é uma consideração que o delegado faz ao classificar a natureza do homicídio como feminicídio, que seria um homicídio qualificado, mas a gente sabe muito bem que muitos delegados acabam não considerando a morte da mulher por razões de gênero e acabam colocando como homicídio simples... Então a queda não tem necessariamente a ver com a redução dos números, mas com a boa vontade da área da segurança pública de notificar adequadamente os casos”, esclareceu.

Jackeline reforçou que, dos 100 casos anuais capturados na área de saúde, em Alagoas, apenas 20% ou 30% são classificados como feminicídio, quando o número deveria ser bem maior, em torno de pelo menos 60 a 70% dos casos.

Demandas

Uma das propositoras da sessão especial, juntamente com toda a bancada feminina da Casa, a deputada Jó Pereira (MDB) destacou a importância de cruzar os dados da SSP com os dados do sistema de saúde para melhor traçar a rede de apoio às mulheres para o enfrentamento à violência.  

“O Estado enquanto Poder Público, não só o estado de Alagoas, mas, quando eu falo estado estou falando dos municípios, do governo federal e estadual, precisa mostrar a essa mulher qual a rede de apoio com a qual ela poderá contar. Vamos sair daqui hoje com algumas sugestões, alguns encaminhamentos necessários e também com as possíveis soluções”,  disse, lembrando que uma das principais demandas é o funcionamento e a quantidade insuficientes de delegacias a mulher no Estado.

“Só existem três no Estado inteiro, duas na capital uma no interior, em Arapiraca. Além da insuficiência numérica, temos também insuficiência de funcionamento, ou seja, essas delegacias não funcionam 24 horas, em razão das delegadas fazerem parte do rodízio das delegacias gerais”, completou.