8d8eb6e0 50a3 4d23 bd8b 7c18e976cf0e Do brilhante Montanaro.

Para falar de tragédia, precisamos falar dos gregos. Do que conhecemos como gênero dramático, foram eles que “inventaram” a reprodução, quer seja em mitologia, quer seja em arte cênica, das paixões que envolviam personagens nobres, heróis e deuses.

A Guerra de Troia é repleta desses ardores intensos. Ela mistura os interesses daqueles protagonistas em algo maior do que um conflito bélico, supostamente ocorrido há mais de 3 mil anos. Trata-se de um dos marcos da construção histórica, social e cultural do ocidente. Nada em Homero é acaso.

Quem não se fascina com o cavalo dado como presente aos troianos? Em verdade, o presente de grego era uma elaborada “invenção”, uma engenharia ardilosa, onde se escondiam guerreiros que abriram os portões de Troia para seu extermínio total.

Prefiro lembrar da passagem em que o rei troiano Príamo, furtivamente, no calor dos intensos combates daquela guerra, vai até Aquiles, o assassino de seu filho Heitor, suplicar que o herói grego lhe entregasse o corpo de seu amado herdeiro. Era o apelo de um pai que desejava enterrar seu próprio filho de forma digna, como convinha à tradição e às crenças troianas. Ao se comover com as súplicas daquele pai, ainda que um rei inimigo, Aquiles se torna ainda mais herói, ainda mais nobre e atende ao pedido.

A importância de enterrar o corpo de um filho morto foi tão importante que fez o rei abandonar as trincheiras da guerra e expor sua súplica ao assassino. Foi tão importante que tornou o herói ainda mais nobre e digno de personificação dos valores da coragem e da honra de uma civilização.

Fico pensando nas centenas de pais, mães, filhos, esposas e maridos dos mais de 330 mortos no acidente da mineradora Vale S.A., que ocorreu há pouco tempo e que se faz tão presente. Fico pensando nas mais de 200 famílias que provavelmente não terão, como Príamo, os corpos de seus entes queridos para se despedir, pois estão soterrados por mais de 12 milhões de metros cúbicos de rejeito de mineração, no que pode ser o maior acidente de trabalho ocorrido no país.

Se a honra dos heróis, em especial Aquiles, foi fundamental para diminuir a dor na tragédia do pai de Heitor, não será a medíocre reforma trabalhista que terá esse papel no caso da tragédia brasileira. Justamente essa reforma que veio para “modernizar as relações de trabalho”, limita a indenização de danos extrapatrimoniais gravíssimos a até 50 vezes o salário do morto, ainda que o corpo se encontre desaparecido, soterrado sobre toneladas de rejeito do acidente de trabalho que o matou.

Sim. Mesmo depois de três mil anos, é preciso aprender com os contemporâneos de Príamo, Aquiles, Heitor, Menelau, Agamenon, Ajax, Ulisses, Helena, dentre tantos outros nobres gregos e troianos.

Ainda que toda a “Guerra de Troia” seja invenção, ainda que tudo aquilo seja mera mitologia, há 3 mil anos eles sonhavam com “tecnologia”, sonhavam em construir “cavalos” mirabolantes para ganhar guerras. Enquanto nós, em 2019, permitimos a estupidez de construir refeitórios, enfermarias e outras áreas de vivência logo abaixo de barragens inseguras e ultrapassadas, cujo rastro de toneladas de lama soterraram centenas de trabalhadores.

Se heróis tinham coragem e honra para reconhecer, mesmo no inimigo, a nobreza da condição humana nos momentos mais tristes, a tragédia brasileira é escrita por autoridades que mudam a legislação, reduzindo a reparação dos danos causados pela morte de trabalhadores, como se simples rejeitos fossem, como se lá estivessem para morrer mesmo.

E justamente na ocorrência de um acidente de trabalho ampliado, acabamos com o Ministério do Trabalho, órgão encarregado da fiscalização, com a felicidade de quem recebe um presente de grego.