Jean-Baptiste Debret, 1823. Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true “Uma senhora de algumas posses em sua casa”

Mesmo que em pleno século XXI muitas pessoas ainda acreditem na terra plana, bastante coisa mudou desde a publicação do “Leviatã”, de Thomas Hobbes, em 1651, quando o inglês preocupado com as relações de poder na sociedade descreveu o “homem como lobo do próprio homem”.

O cheiro do sargaço e o calor de uma tarde de verão na Ponta Verde me lembraram que estava em Maceió, e não em Londres, quando na mesa ao lado se reuniram meia dúzia de mulheres para degustar uma conversa em um britânico chá das cinco.

A conversa ia bem até que o tema “empregada doméstica” surgiu. Daí o que era uma elegante confraternização de damas de meia idade virou um encontro de holligans que bravejavam impropérios, batiam na mesa e pediam mais infusões aromáticas para saciar a sede e aplacar as injustiças a que se sentiam submetidas.

– Ela come demais. – reclamava a anciã do grupo ao se referir a sua empregada, ao mesmo tempo em que deliciava uma tapioca. Ainda com a boca cheia, emendou: – Nem uma draga come assim. – todas gargalharam – Mas prefiro fingir não saber, afinal de contas está há tanto tempo lá em casa que já é da família.

Do outro lado da mesa, a mais nova, declarou: – Não sei o que essa gente tem na cabeça para ter tanto filho. O que ela ganha lá em casa não dá para ela se sustentar, mas apareceu grávida de novo. Queria mandar embora, mas essa estabilidade é uma desgraça.

A de óculos arrematou: – Pois é, na iniciativa privada o que vale é a produtividade. Licença é coisa de emprego público. Devia ser diferente, engravidou tá na rua. Quatro meses é demais.

– Cinco. – corrigiu outra – No quinto elas voltam a trabalhar e ficam molengando.

Daí uma delas levou a mão à cabeça e profundamente revoltada disse: – Outro dia, peguei a minha empregada usando meu banheiro. – foi o momento em que a idosa da tapioca se engasgou – Como assim, sua empregada teve a audácia de usar o seu banheiro?! – Tive que mandar lavar tudo de novo!

Um surto de risos tomou conta daquela mesa de senhoras, onde mulheres debochavam da condição humana, de direitos e garantias conquistadas em defesa das próprias mulheres. Diminuíam suas empregadas domésticas como preguiçosas, privilegiadas, sujas e meras reprodutoras, como se esquecessem que, da mesma forma, eram igualmente mulheres.

Em tempos que tanto se clama por menos direitos e mais trabalho, reconhece-se muito pouco que este é instrumento de vida digna. Não se constrói uma sociedade livre, justa e solidária sem trabalho digno. Não se constrói uma sociedade de trabalho sem respeito ao trabalhador, seja ele homem ou mulher.

Tive que sair dali antes de ouvir as críticas sobre as “injustiças” do pagamento às horas extraordinárias, recolhimento do FGTS das domésticas e do e-social, porque já estava na hora de pegar minha filha no cursinho de inglês. Alívio.

Hobbes, ao escrever que o homem é o lobo do próprio homem, esqueceu justamente da mulher. Nem a graça, beleza e inteligência delas sobrevivem a tempos tão obscuros e de desprezo para quem só tem a sua força de trabalho para vender.