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Há muitos anos tenho realizado o balanço anual da minha vida. Hoje, ao completar 58 anos, realizo mais um, desta vez numa situação adversa. Individualmente, estou bem, com saúde e planejando as minhas pequenas atividades pessoais e familiares, coisas sem muita importância, mas que pretendo fazer com prazer. 

            Amigos e parentes muito próximos morreram, foram embora antes do combinado; isso é doloroso, mas é uma realidade com a qual devemos conviver. Essas perdas demoram até ser assimiladas. Esse é um item do balanço que devo colocar na coluna das perdas pessoais e afetivas, mas que permanecerão nas minhas recorrentes lembranças.

            O ganho mais significativo diz respeito à Isabela, minha filha, que se graduou em arquitetura e concluiu uma etapa importante de sua vida, mas que a partir de agora terá pela frente outras etapas. Após um círculo concluído, outro inexoravelmente será aberto.

            O resultado computado da minha vida pessoal e familiar foi extremamente positivo, sem queixas, posso dizer. O balanço político de 2018 é pesaroso; aliás, os últimos anos, desde 2015, não têm sido nada positivos para o Brasil. Tem crescido na sociedade a busca autoritária como forma de encaminhamento político e econômico; é uma onda fascista que tem se ampliado e prenuncia tempestade. 

O mundo, em vários países na Europa e nos EUA, bem como em outros continentes, tem presenciado espasmos autoritários de inspiração fascista. É a globalização do autoritarismo em tempo real, percebida em sociedades, até então, democráticas e tolerantes com as diferenças, receptivas aos imigrantes e refugiados. Mas, de uma hora para a outra, são eleitos governantes de formação autoritária que se voltam contra os refugiados políticos, de guerras, econômicos, étnicos. 

Os muros vergonhosos vão sendo erguidos em nome da garantia dos empregos e como meio de evitar o terrorismo. Milhares de crianças e adultos são mortos afogados, numa tentativa desesperada para sobreviverem à fome, à guerra e ao genocídio em seus países e buscam territórios onde tenham paz, comida e trabalho, coisas básicas e essenciais para os seres humanos. Os que sobrevivem são alojados em campos de concentração, quando não impedidos de viver em países da Europa e nos EUA.  

O Brasil, historicamente, é um país aberto à imigração e aos refugiados. Somos uma nação formada pela multiplicidade de etnias e povos; um povo onde há sangue de quase todas as nações do planeta ou de grande parte dele.

Os brasileiros que pensam como eu perdem uma eleição, mas não o sentido de humanidade. Essa derrota eu não sofri; continuarei a luta por uma nação democrática, onde haja justiça, mesmo que no momento parte dela esteja de olhos vendados. Devemos continuar lutando por justiça e nos mobilizarmos para manter a democracia, mesmo que seja apenas representativa. Não há nada melhor que a democracia.

O clima de intolerância e ódio que tomou conta do Brasil me fez lembrar uma canção da cantora argentina Mercedes Sosa: “Eu só peço a Deus/ Que a dor não me seja indiferente/ Que a morte não me encontre um dia/ Solitário sem ter feito o que eu queria”.

A resistência ao autoritarismo está sendo gestada; não vai demorar e estaremos de volta às ruas ‒ o nosso campo de luta e o lugar de onde não nos devemos afastar. Em 2019, ninguém solta a mão de ninguém.