5be69923 affd 428e 9ff0 508970126dc9 O desabamento do ensino público.

As caixas de correspondência de todo cidadão de bem, classe média alagoana, já estão cheias. Não pelas cartinhas de Natal e cartões de boas festas, mas pelos boletos para pagar, dentre eles os emitidos pelas escolas particulares em que nossos filhos estão matriculados.

Mais audaciosa do que a criança que se comporta mal o ano inteiro e alega merecer presente do Papai Noel, é a criatividade das escolas particulares que, com o olho no décimo terceiro dos papais e das mamães dos bairros mais abastados, enviam boletos para as mais diversas cobranças: taxas de matrícula, de antecipação de mensalidade do ano seguinte, de material escolar, de material pedagógico, de agendas de aquisição compulsória, dentre outros.

Nada mais justo, não é mesmo?

Esse é o preço que a classe média paga por defender com unhas e dentes o livre mercado e a intervenção mínima do Poder Público na economia, inclusive na prestação de serviços que deveriam ser universais e inclusivos.

Não adianta que as fotos do painel da escola particular, a propaganda do outdoor e o lembrete na tal agenda da criança sugiram uma educação inclusiva, se ela só existe condicionado ao pagamento da mensalidade pelos pais. Não adianta que a propaganda da escola particular “venda” a ideia de que alunos de qualquer raça, cor e condição física possam estudar em suas instalações se, em verdade, é a condição financeira da família da criança fator determinante na sua inclusão ou não.

A educação privada exclusiva pode ser muito boa na excelência técnica, pode instrumentalizar os melhores alunos para “passar” nas melhores escolas, pode ser muito boa para ganhar medalhas em olímpiadas de matemática, mas é péssima para o desenvolvimento de um país tão desigual como o nosso.

Em Alagoas, um dos Estados mais pobres do Brasil, ainda que a produtividade desses poucos privilegiados seja alta quando completarem a sua educação, a produtividade média da população será sempre baixa, considerando o total de crianças e adolescentes, futuros trabalhadores, que hoje estudam em péssimas escolas públicas.

O resultado dessa “amplitude” é que no futuro, daqui a 20 ou 30 anos, nossos filhos nos substituirão como médicos de uma população pobre que ainda sofrerá dos problemas de saúde mais básicos, como advogados de “massas falidas” que ainda continuarão a deixar de pagar seus fornecedores e trabalhadores, como administradores de nossas indústrias sem competitividade, como engenheiros ainda desempregados ou como comerciantes de pequenos mercadinhos. Continuaremos reféns do subdesenvolvimento e da ausência de perspectivas de escapar dele.

Faço um convite aos pais dos alunos de escolas particulares de Maceió: contemplem as escolas particulares de vossos filhos e percebam a quantidade de grades, vigilantes, câmeras, catracas e outros sistemas de segurança que elas possuem. Percebam o quanto estamos nos afastando do bem comum, da coisa comum e da percepção de nossa realidade desigual.

Caímos na tentação de querer resolver as coisas da melhor maneira para quem mais amamos, mas estamos presos na armadilha de nos tornarmos mais excludentes, ensimesmados em pequenos grupos de condições econômicas equivalentes, sem a menor consideração à condição humana e ao sofrimento do diferente.

Caímos na tentação de ojerizar o serviço e o servidor público e esquecemos que a educação pública de qualidade é um direito do cidadão e um dever do gestor público, fundamental para a formação de uma sociedade e uma economia próspera.

“Seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem”? Desejo, sinceramente, que em Natais vindouros, o Papai Noel traga educação pública de qualidade e que deixe nossas caixas de correspondência com mais espaço para os cartões postais de boas festas.