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Em tempos de condenação de tudo o que é feito pelo Estado no Brasil e críticas veladas aos servidores públicos, quase sempre culpados pela ineficiência dos serviços e máquina públicas, se levantam bandeiras liberais que no fundo, na sua grande maioria, tremulam em nome de alguns interesses corporativos ou em defesa de setores oligopólicos da economia brasileira.

É verdade que nem toda a defesa dos princípios liberais é incorreta. De fato, é preciso estimular a livre iniciativa, facilitar a vida dos empreendedores e permitir a expansão da geração de riqueza, aumento da ocupação e postos de trabalho formais, resultando na consequente geração de renda.

Mas como gato escaldado não morre afogado, sabemos que mais do que a defesa do liberalismo em nome do crescimento econômico e desenvolvimento mais inclusivo produtivamente, esconde-se por trás uma lógica de mercado que reforça suas estruturas monopolistas e oligopólicas, que grandes conglomerados financeiros e produtivos ditam as regras como as “mãos invisíveis” devem funcionar.

Nos Estados Unidos essas “mãos” sempre foram monitoradas, quando não manipuladas, pelo Estado nacional. Em determinados momentos de sua história quando os grandes oligopólios regeram os mercados em suas estratégias corporativistas, resultaram em duas grandes crises econômicas: a depressão de 1930 e a imobiliária de 2008.

Ao reler o livro de Mariana Mazzucato, O Estado Empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. o setor privado (São Paulo: Portfólio Penguin, 2014) para uma discussão com alunos do curso de pós-graduação em economia da UFAL, revi alguns trechos que tinha sublinhado há 4 anos. Passado esse período, foi como um filme que me fez retornar no tempo tentando encontrar o ponto em que o Brasil, definitivamente, se embrenhou por uma seara nebulosa, de destino incerto. Vejamos alguns trechos que selecionei

"[...] o Estado desenvolvimentista americano teve um papel proeminente, desde a concessão de terras para empresas privadas para a construção de ferrovias e o apoio financeiro da pesquisa agrícola no século XIX até o financiamento, apoio e desenvolvimento ativo das indústrias aeronáutica e espacial no século XX, e subvenções para P&D e outros tipos de financiamento para a indústrias ligadas às ciências naturais, nanotecnologia e energia limpa no século XXI" (p. 98).

"O governo [nos EUA] não apenas financiou a pesquisa mais arriscada, seja básica ou aplicada, como muitas vezes foi a fonte da inovação mais radical e pioneira" (p. 97)."

"Podemos tirar uma conclusão geral a partir da análise desses três exemplos de apoio estatal para a inovação - DARPA (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa), SBIR (Programa de Pesquisa para a Inovação em Pequenas Empresas) e o ODA (Orphan Drug Act): os Estados Unidos passaram as últimas décadas usando políticas intervencionistas bastante ativas para estimular a inovação no setor privado visando objetivos mais amplos para as políticas públicas" (p. 97)

"[...] o Vale do Silício é também difícil de copiar, pois cada defensor desse modelo conta uma história envolvendo 'empresários descontraídos e investidores visionários', mas esquece um fator crucial: o papel dos militares em sua criação e manutenção [...] O Vale do Silício deve sua atual configuração a padrões de gastos federais, estratégias corporativas, relações indústria-universidade e inovação tecnológica moldada pelos pressupostos e prioridades da política de defesa da Guerra Fria" (p. 98)

"Longe de sufocar a inovação e ser um obstáculo ao sistema econômico [o governo nos EUA], fomentou a inovação e o dinamismo em diversas indústrias importantes, com o setor privado muitas vezes desempenhando um papel secundário. Ironicamente, o Estado tem feito isso nos Estados Unidos, que nos círculos políticos costuma ser apontado como seguidor de um modelo mais voltado para o mercado (liberal) do que a Europa. Isso não tem acontecido no que diz respeito à inovação" (p. 124-125)

Também é importante ressaltar que somente ligadas direta ou indiretamente a indústria bélico-armamentista são em torno de 300 mil empresas, que sem as demandas estatais e vendas de armas com autorização do governo uma parte considerável dos investimentos em C&T não aconteceriam ao longo de seis décadas. As demais áreas de interesses prioritários são energia, saúde e agricultura.

Abaixo da linha do Equador, sobram retóricas e falta pragmatismo político, mais recursos para juros e privilégios corporativos e menos investimentos em educação, ciência, tecnologia, inovação e indústria. Vontade maior de mudanças dentro das Universidades públicas, porque potenciais têm sobrando. As políticas macroeconômicas que priorizam os ganhos rentistas e direcionam os empresários para a obtenção de lucros não-operacionais, são as principais conspiradoras para não estabelecer as pontes estratégicas empresa-universidade. Nos EUA as mãos não são nada invisíveis, apenas na caixa craniana de quem imagina ao contrário...

Vale lembrar que os Estados Unidos é o país que em termos absolutos mais investiu em P&D no ano de 2017, foram cerca de US$ 535 bilhões, aproximadamente 2,7% do seu PIB. O Japão quer alcançar 4%, o que significa US$ 202 bilhões, enquanto Alemanha investiu US$ 105 bilhões, no mesmo ano. A China que corre atrás da liderança tecnológica mundial até 2050, investiu naquele ano, 2,7% do seu PIB, US$ 280 bilhões em P&D. Enquanto isso, no Brasil os investimentos em Ciência, Tecnologia e Inovação estão contaminados pela "síndrome Neymar". Em 2018 despencaram para menos de 1% do PIB, cerca de US$ 0,02 bilhões, algo em torno de R$ 7,7 bilhões. De 2011 a 2017, o Brasil passou do 47º ao 69º lugar no Índice Global de Inovação: rolou 22 posições abaixo.