Ascom ALE/Arquivo 1300216247temoteo correia Ex-deputado Temóteo Correia

Pitoresco: adjetivo oriundo que remete ao pictórico. Aquilo que é digno de ser pintado para que fique marcado para a posteridade. Em tempos modernos, sem se distanciar do significado antigo, remete ao excêntrico, o inusitado ou, no mínimo, curioso e interessante. 

Não por acaso, o ex-deputado Temóteo Correia, que também tem (como todo humano) o seu lado pitoresco, ainda amais na atividade política, deu título a sua obra como O Pitoresco da Política no País das Alagoas. Primeiro o volume 1, que de tão inspirador de gargalhadas e reflexões, puder ler em uma tarde longínqua. Agora, Correia está de volta com o volume 2. Não menos hilariante, o livro é excepcional para quem gosta da política local.

Novamente, Temóteo Correia acerta no filtro das histórias que envolve de personagens antigos da nossa política, aos mais recentes, como o enxadrista senador Renan Calheiros (MDB), que a tudo domina ou busca tudo dominar nesse Estado. 

E aí, o pitoresco, buscando a semântica “correiana”, é justamente a pintura (por isso as charges ao lado dos escritos), desse excêntrico e do inusitado. Porém, como já se dava na comicidade grega de um Aristófanes, o cotidiano político ali exposto nos faz refletir sobre a ignorância de alguns ilustres, bem como da esperteza digna das raposas antropomórficas de Esopo. 

É nesse sentido, que o leitor percebe a razão pela qual Temóteo Correia é taxativo ao classificar Alagoas como um país a parte. O autor fez parte desse universo e sabe que nos becos da política alagoana reside também a politicagem que dá cores de republiqueta ao Estado que fundou a República com seus tipos mais caricatos. 

Muitos deles passando por uma casa que leva o nome do intelectual Tavares Bastos, mas sem conseguir ter a mínima dimensão disso, ficando na História como mero folclore. Outros, como espertalhões e alguns de fato contribuindo com alguma discussão de interesse. Sem falar daqueles que cresceram na política. Afinal, nos destinos deste país, sempre teve um alagoano com poder nas mãos. 

Logo, tudo isso faz parte da história e merece ser registrado. Temóteo Correia faz com maestria. Não importa aqui o que se pense da atividade política exercida por Correia. No campo da literatura e do conhecimento geral, o parlamentar se mostrou diferenciado, inclusive no uso da tribuna. Com uma visão sagaz e em alguns momentos cometendo “sincericídios", o escritor-político foi uma máquina fotográfica ambulante dos momentos pitorescos de sua atividade. Ganhamos nós, quando, de tempos em tempos, o ex-parlamentar divide tais momentos com os leitores. 

O livro de Temóteo Correia é digno de estar na prateleira de todos aqueles que se interessam pela recente História de Alagoas, pois as piadas ali contidas revelam muito de nossos pícaros, bem como na estante de jornalistas. 

Dou exemplo: em uma passagem nos deparamos com o esperto-mor Renan Calheiros, essa figura controversa por se crer “onipresente” - mais jamais no sentido divino - do xadrez político da Terra dos Marechais. Calheiros e o ex-prefeito Cícero Cavalcante são personagens de uma passagem de humor gritante, que mostra bem o quanto na política o ato “passar a perna” é elevado a uma arte, e aqui pouco importa se aliado ou rival. 

Cavalcante - preocupado com a escassez dos recursos financeiros na campanha eleitoral de sua filha, a ex-deputada Flávia Cavalcanti - procura socorro em Calheiros. Explica a situação e diz que está sem dormir por isso. Renan, para a felicidade do pai preocupado, manda um dos seus trazer uma mala preta para consolar o ex-prefeito. Cavalcante chega a lamber os lábios a imaginar o que vai sair da mala. E eis que Calheiros, revelando ele mesmo ser a mala (jargão dos jovens modernos), tira de dentro da pasta um Rivotril para ajudar o político-aliado com suas horas de sono. 

São causos assim que vão se acumulando no opúsculo de Temóteo Correia. É o país das Alagoas, meus caros. Uma nação em formato aproximado de triângulo-retábulo cuja soma dos quadrados dos catetos dos acordos políticos desafia o quadrado da hipotenusa, pois muito do aqui feito não cabe na lógica. Em alguns momentos da obra, o (e)leitor vai até se sentir vingado, pois verá alguns políticos controversos sendo expostos ao ridículo. Aliás, o que é a democracia sem a possibilidade de expor alguns “mitos” ao “ridículos” para torná-los assim mais humano, com as delícias e os delitos de ser humano. 

Desde o primeiro livro, cujo alguns casos transformei em coluna de jornal impresso em uma antiga parceria com Temóteo Correia em um jornal da capital, que gosto muito dessa empreitada literária do autor. 

Correia - nos trechos da obra - mostra a Alagoas de um passado recente, mas também do presente. Por qual razão não dizer do futuro, já que como diz o músico e compositor Lulu Santos, estamos em uma humanidade que caminha a passos de formiga e sem vontade? Assim, o pitoresco sempre se renova. Que surja então - em uma lacuna temporal menor - o volume 3 de O Pitoresco da Política No País das Alagoas, pois é um livro que, como toda leitura divertida, nunca se quer que acabe. 

É possível afirmar ainda, sem medo de cair em exageros, que de certa forma também é um livro historiográfico que nos remete não apenas a fatos, mas também a uma análise do psicológico dos personagens ali presentes como só o humor é capaz de produzir. Alguns desses relatos dariam esquetes em teatros, canais de youtube especializados etc. 

Imaginem os senhores, a preocupação do ex-deputado Gervásio Raimundo ao sair do médico crente que tinha um problema de vista. Ao afirmar para um colega que tinha “conjuntivite nos olhos”, este sentenciou: “Gervásio, isso é um pleonasmo”. Gervásio ficou desesperado. Afinal, pleonasmo poderia ser um problema de saúde muito mais sério que “conjuntivite nos olhos”. O ex-parlamentar descobriu sofrer de um mau crônico: “problemas gramaticais”. Por sorte, tal mal nunca matou ninguém e a cura pode ser feita com doses diárias de Aurélio Buarque de Holanda. 

O livro O Pitoresco da Política no País das Alagoas estará nas prateleiras das livrarias em breve. Eu indico aos queridos leitores. Divirtam-se. Vocês poderão - em alguns momentos - rir de figuras que já nos fizeram tremer de raiva. Afinal, alguns de nossos bravos heróis não deixam a dever ao cômico que satiriza, por meio do fictício, a nossa política. A diferença é que nessa obra tudo é real. 

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