Natália Cerqueira/CM Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

Ao ler as notícias sobre ameaça de aquartelamento na Polícia Militar, quase fico assustado com o número de associações que dizem representar a categoria, em todas as suas patentes. Pelas minhas contas, estão entre sete e oito os grupos que falam em nome das reivindicações de soldados, cabos, sargentos, subtenentes, oficiais e coronéis – na PM e no Corpo de Bombeiros. Esse universo contempla a massa da ativa e os militares da reserva. Em termos de “representantes”, a tropa vai bem.

 

Vejo as imagens das manifestações dos líderes. Observo as fotos e os vídeos em que eles falam sobre as ações para forçar o governo a dar o reajuste que estão cobrando. Aí a coisa fica um tanto esquisita. Lá estão figuras carimbadas da velha guerra política, com histórico nada saudável ao longo dos sucessivos governos. Tais associações são controladas, lamento, por gente mais afeita à politicagem do que à defesa real dos trabalhadores de farda. O interesse político é o que prevalece.

 

A ofensiva raivosa deflagrada agora está diretamente ligada ao período eleitoral, e isso também é de se lamentar. Vários dos líderes dos “sindicatos” dos militares tentam, a cada dois anos, um mandato de vereador ou de deputado. Fracassam com uma recorrência que diz muito da confiança que desfrutam no meio daqueles que realmente encaram o duro trabalho nas ruas. Sim, porque muitos dos presidentes das associações nem farda vestem mais; são apenas burocratas.

 

Todo movimento grevista tem uma dimensão política, é claro. Mas, nesse caso, há uma deliberada articulação para agir em ano de eleição, no qual o governador Renan Filho tenta renovar o mandato. Por isso os cabeças da agitação vociferam palavras de ordem que beiram o estímulo a atos mais graves. Num dos vídeos, um coronel da reserva que comanda uma associação diz que vão partir para o radicalismo, “dê o que der”. O que isso significa? Estão dispostos ao motim?

 

As reivindicações estão dentro do razoável? O índice de reajuste é merecido? Parece que ninguém duvida disso. O problema é a instrumentalização das demandas, realmente legítimas da tropa, por uma turma mais preocupada em ganhar uma guerra política, e derrotar o governador. Pelo tom dos líderes do movimento, é isso o que temos. Cabe ao governo ter habilidade para negociar, com seriedade e transparência. Não pode jogar no mesmo nível das provocações que recebe.

 

Para fechar, o balaio de associações que partiu para o ataque não age de maneira unida além dessas ocasiões. Muito pelo contrário, os grupos vivem brigando entre si para ser o “verdadeiro” representante da tropa em seus variados graus de hierarquia. Agora mesmo, o lançamento de uma candidatura a deputado provocou a maior confusão, gerando acusações entre uma associação e outra. Reitero: interesses políticos de poucos estão no centro da rebeldia na Polícia Militar.