Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Às margens do Velho Chico, Piaçabuçu ainda mantém as belezas vistas pelo monarca

Outubro de 1859. Há exatos 150 anos, Dom Pedro II (1825-1891), o último imperador do Brasil, chegava a Alagoas. Numa viagem de dez dias, a bordo da embarcação Pirajá e também a cavalo, o monarca foi de Piaçabuçu a Delmiro Gouveia. A finalidade era conhecer as cachoeiras e também toda a potencialidade do São Francisco.

Esse trecho transformou-se na Rota do Imperador, um projeto turístico do Arranjo Produtivo Local (APL) Caminhos do São Francisco. Com esse trabalho, o governo do Estado, por meio das Secretarias do Turismo, Cultura e Comunicação, planeja fortalecer o turismo histórico, de forma sustentável, em todo a região do São Francisco — são 11 municípios envolvidos.

Entre os dias 16 e 19 de outubro, será realizada mais uma expedição, dessa vez, com jornalistas e agentes de turismo dos principais centros do país. A ideia foi concebida pelos turismólogos Ana Rogatto e Jairo Oliveira, e pela professora Lúcia Regueira.

Mas voltemos à história. Dom Pedro passou por quase todas as igrejas ribeirinhas, fez vultosas doações. Registrou toda a passagem em diário, que foi publicado mais recentemente em 2003 (Viagens pelo Brasil — Bahia, Sergipe e Alagoas — 1859). Nos escritos, conta das excessivas homenagens e também de certos “inconvenientes”: dormiu com pulgas, levou três quedas no caminho.

Mas o homem, Pedro de Alcântara, um patriota nato, também se viu encantado. “O rio, do Penedo para cima, ainda é muito mais bonito e interessante”, afirmou. Destacou a lagoa Comprida, localizada às margens do município de São Brás. “É o ponto do rio que mais me tem agradado até agora, e aí vi ao longe um bando de marrecas voando da margem direita para a esquerda”, detalhou.

Todo esse roteiro foi refeito. Durante seis dias, no mês de setembro, os jornalistas Telma Elita e Neno Canuto, guiados pelo diário do imperador, estiveram em onze cidades. Rodaram 1.476 km. Toda essa expedição será mostrada a partir da edição de hoje, no Diário Oficial. Os leitores terão revelados os principais vestígios da passagem de Dom Pedro por Alagoas — que viria a ser a terra dos marechais. São muitas as histórias.

A primeira parada é no município de Piaçabuçu. Para o monarca, “Piassabuçu” — já que a origem do nome vinha de piassaba, palmeira típica da região. Atualmente, a população ultrapassa os 16 mil moradores. Mas vejamos a descrição de Dom Pedro: “Piassabuçu, que ainda há pouco foi criada freguesia, tem bastantes casas; porém a maior parte de pau-a-pique e cobertas de sapé... Os habitantes da povoação andam por 2.000 e vivem da pesca”.

O cenário não mudou muito. As canoas ainda enchem de cor a beirada do rio. Mas o peixe, esse, já não é farto. As casas de taipa ficaram mais afastadas do Centro. São encontradas somente nos povoados mais distantes, como Retiro e Paciência.

Nessa cidade, tivemos como cicerone o contador de histórias José Correia, 64, que faz parte da ONG Olha o Chico. Como o objetivo era seguir os passos do imperador, fomos logo à matriz, a Igreja de São Francisco Borja.

Há 150 anos, foi definida como “muito pequena e arruinada”. Durante a visita, o monarca decidiu remediá-la, doando ao vigário a quantia de 200 mil réis para os primeiros reparos. Agora, revela-se imponente, como atrativo principal da praça, também São Francisco Borja — padroeiro do lugar.

As piassabas, que deram nome à cidade, não se acham mais. “Pelo menos, aqui no Centro. A pessoa tem que andar muito pelo meio do mato até ver uma”, conta Zé Correia, filho de Piaçabuçu.

Firme continua ainda a beleza da foz. Na volta, derradeiro dia no Estado, o imperador fez um desenho, que retratava o paraíso. “Antes de escurecer tirei um esboço do pontal”, registrou. Chamou o lugar de Pontal da Barra.

Berço de um contador de causos

Como falador de histórias e pedreiro, Zé Correia, 64, fez muitos amigos. Por onde passa, é reconhecido. “Sabe quantos afilhados eu tenho? 58, mas não é só aqui não. Tenho também em Sergipe”, afirma.

Nas escolas, ele é muito querido. Ensina aos meninos a construir casas de taipa, uma tradição, como vimos, registrada pelo imperador. Como arte, uma técnica africana, as casas de Zé Correia são levantadas em meio a cantigas e versos: “Chora barreiro/ Barreiro chora/ Se barreiro chora/ Quanto mais quem tem amor”.

O griô, um educador popular, segue no lamento: “Meu amor não era esse/ Nem a esse eu quero bem/ Vou me servindo com esse/ Enquanto meu amor não vem”. Sobre a música, ele diz que aprendeu menino e guardou na memória.

O guia pode ser um homem simples, mas tem livro publicado. No Mercado do Artesanato, acha-se fácil o título Um Tanto que Conto — Histórias, Piadas e Adivinhações. O trabalho foi feito em parceria com a ONG Olha o Chico.

Ainda nesse mercado, o visitante encontra barcas, pescadores e carrancas — peças miúdas que fazem parte do imaginário dos artistas que nasceram na beira do rio. Às margens do Velho Chico, acha-se ainda uma infinidade de embarcações coloridas e de nomes variados, como Engenheiros do Havaí e Tóquio. Essas são apenas as primeiras impressões da viagem.