De vez em quando, o Rio Araranguá, na cidade de mesmo nome no Sul de Santa Catarina, desafia os moradores ribeirinhos. Todos os dias, Roseli desafia o Rio Araranguá.

Faz isso há 15 anos. Equilibrando-se sobre a canoa da família, ela enfrenta a labirintite e os humores do rio ao longo de 120 metros, a fim de levar os filhos à escola. Como não sabem nadar, eles contam com a perícia da mãe e a ajuda da sorte para ir e voltar em segurança.

A rotina só é suspensa quando cheias como a deste mês ilham a família em sua própria casa, distante 10 metros da margem.

Roseli de Souza e seu marido, José Elcio, são moradores da comunidade de Rio dos Anjos, em Araranguá. No esforço de educarem os filhos, testam o rio ao limite. No dia 10, com a chuva, o Araranguá já mostrava sinais de rebeldia. Galhos soltos na correnteza forte atrapalharam os planos escolares dos filhos. Pela janela, a família viu as águas avançarem quase até a porta, mas se manteve firme dentro de casa, à espera do recuo do rio — que por fim cedeu.

No duelo diário com o Araranguá, o casal de agricultores e pescadores conseguiu formar a filha mais velha, Kelly, hoje com 20 anos, e Daiana, de 18. Ainda faltam José William, de 10, e Lidiane, de oito. Roseli os acomoda diariamente no meio da canoa, enquanto encurta, a remo, a distância até a escola.

Como estudam em horários diferentes, a mãe tem de fazer várias travessias. Primeiro, leva o menino. Ele almoça mais cedo e sai de casa às 11h30min, a tempo de pegar o transporte escolar do outro lado. Depois vai a menina.

Na margem oposta, Roseli se despede de cada um com um beijo. Do outro lado, Lidiane e o irmão atravessam um capoeirão e uma casa abandonada para acessar a rua principal da comunidade. Lidiane anda cerca de 700 metros rumo à Escola Municipal Rio dos Porcos. José William segue viagem até a Escola Estadual Eremeta Souza. No final da tarde, os dois saem em horários distintos e caminham de volta até o rio, onde encontram a mãe com o remo em mãos.

— Já estou aprendendo a remar. Vou sentado na canoa e ajudo ela. Na minha primeira tentativa errei o nosso ponto de chegada — conta o menino.

A mãe emenda:

— O rio nunca foi empecilho para que pudéssemos dar educação aos nossos filhos. Sempre passei eles para o outro lado, e com muito gosto.

E prossegue:

— As crianças não sabem nadar, só eu e meu marido. Nunca tivemos coletes salva-vidas e às vezes entra água na canoa. Faltar aula, só em último caso. Amarro uma bolsa plástica nos pés deles e o guarda-chuva ajuda na proteção.

Roseli, que morava em uma comunidade distante dali, aproximou-se do Araranguá na mesma época que José Elcio. Quando casaram, em 1988, foram morar à margem do rio, e ela aprendeu a atravessá-lo para buscar água no poço e lavar roupa.

A sogra mostrou-lhe como se remava, e ensinou-lhe a não temer a correnteza. Hoje, em dias de muita ondulação, Roseli faz a travessia sentada na canoa. Por causa da labirintite.

— Em todos esses anos, vivi dois momentos dramáticos: primeiro em 1989, quando estava grávida de sete meses da primeira filha. Fui buscar água e ventava muito. Deu um banzeiro e a canoa quase virou comigo e um sobrinho de 10 anos — lembra.

Da outra vez, estava com as duas filhas mais velhas ainda pequenas, quando o rio também quase virou a canoa. Só ela e o marido sabem nadar, e nunca colocaram coletes nos filhos. Eles próprios recordam de outros percalços:

— Uma vez a mãe errou a mira na hora de estacionar na margem e bateu no tronco. Na hora a gente caiu pra trás, foi muito divertido — conta Lidiane.

A Secretaria de Educação do município informou que providenciou coletes salva-vidas para a família, que recebeu orientações para o uso obrigatório do equipamento durante as travessias. A secretaria afirmou não ter conhecimento de outras famílias que precisem atravessar o rio para levar crianças à escola.

Pesem as surpresas que o Araranguá costuma pregar, e o histórico de cheias e problemas na região, o casal não pensa em sair dali. Ironicamente, por medo de perder o que tem.

— Aqui temos o que comer, é o nosso lugar, criamos animais, temos a lavoura. Não vamos sair — completa Roseli.