Famílias que adotaram jabutis dizem que o animal pode demonstrar "certo afeto"

  • Redação
  • 07/09/2009 11:45
  • Brasil/Mundo

Não espere muito de um jabuti. Esse simpático réptil terrestre, parente da tartaruga, nunca vai receber seu dono com festa nem procurar cafuné na mão de visitas. São bichos que apareceram na Terra bem antes dos humanos, mas que não aprenderam, com a idade evolutiva que têm, a manifestar amor efusivo.

Não raro, são tratados como amuletos e objetos de coleção. Na internet, não é difícil encontrar sites que publiquem classificados do tipo "troco meu jabuti por..." ou "estou doando meu jabuti". Frequentemente incluídos em testamento, vivem até mais de cem anos e são passados de pais para filhos, de avôs para netos, de tios para sobrinhos.

"É um bicho que acompanha gerações", resume a veterinária Sônia Regina Pinheiro, 52, que tem um verdadeiro "jabutizal" em casa. O termo foi criado por ela para definir o espaço onde vivem quatro répteis, um deles 'repassado" por um desconhecido. O antigo dono considerou seu jardim pequeno para o bichinho quando se deu conta de que ele podia chegar a ter até 70 cm de comprimento.

Dos quatro jabutis, ele é o único (a bem da verdade, a única, por se tratar de uma fêmea) que, por ali, ganhou nome: Catarina. Em breve, no entanto, mais um deles deve ser batizado. Sônia quer dar um novo integrante da família de répteis a um sobrinho. "Só que o combinado é que ele leve o presente só depois de se casar", conta a veterinária.

A vantagem de ter um jabuti, para ela, é que "eles não latem e não mordem". São tão pacíficos que um pastor alemão da casa divertiu-se, durante um bom tempo, virando seus cascos com o focinho. Até que teve acesso proibido ao "jabutizal".

Sônia garante que essa calma toda não se traduz em indiferença. Diz que seus jabutis a reconhecem e até demonstram certo afeto, principalmente quando correm (maneira de dizer) para comer em sua mão.

Uma interatividade de causar espanto, mas que pode minguar um tantinho com a passagem dos anos. O contador aposentado Osmar Faury, 75, ganhou um jabuti de sua mãe "há muito tempo" -ele não sabe precisar quantos anos, apenas desconfia que o bicho, que se alimenta com tomate, banana e carne, tenha hoje 50 e poucos anos de idade.

O jabuti de Osmar deve ser herdado por seu filho, que, na infância, teve crises de bronquite (diz a lenda, a presença de jabutis cura doenças respiratórias). Se, por acaso, o animal morrer antes, o dono dá sinais de que se acostumou às ausências. "Já perdi mulher, mãe, cachorra. Pra mim tanto faz", resmunga o dono, que nunca quis saber se era uma fêmea ou um macho que vivia ali em seu jardim.

O veterinário especializado em animais selvagens André Grespan explica que, para entender esse pet, é preciso entrar no ritmo e ter um pouco de paciência. "Tudo na vida do jabuti é muito lento", ele explica. Até a incubação [em ovos] dura de seis a nove meses. Bem mais do que um pinto, que nasce 21 dias depois de a galinha botar seu ovo.

André cita casos de clientes que acompanharam a longa evolução dos ovos, até verem seus jabutis filhotes nascerem. "É uma experiência única", diz. Assim como é único ter um animal que, provavelmente, vai sobreviver ao seu primeiro dono.