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Consultor do Ministério da Educação (MEC) e gerenciador de projetos na área há 30 anos, o engenheiro Laudo Bernardes, 70 anos, aportou em Alagoas em abril de 2008 para dar consultoria e coordenar o audacioso Programa Geração Saber.

O projeto envolve recursos da ordem R$ de 214 milhões e pretende mudar os rumos da Educação no Estado, dando início à mudança estrutural da triste realidade do sistema educacional alagoano, com um dos mais altos índices de analfabetismo do País.

Nesta entrevista ao Diário Ofical do Estado (DOE) e à Agência Alagoas, Bernardes mostra em que estágio está o Geração Saber e faz uma revelação: “Os secretários de Educação de todo Brasil, no próximo encontro do Conselho Nacional, em Brasília, já estão querendo saber dessa experiência de Alagoas, até porque o Estado, via de regra, é visto como espécie de ‘patinho feio por só a ir a Brasília atrás de recursos’”.

Diário Oficial do Estado e Agência Alagoas— Qual seu papel nesse processo do Programa do Geração Saber?
Laudo Bernardes -
É o de fazer o enlace entre o Estado, o Ministério e Pnud do ponto vista técnico. A pessoa que discute com o Estado e vê com os dois órgãos os aspectos técnicos com seus avanços ou não, além ainda de fazer a coordenação da equipe técnica, que foi mobilizada para apoiar Alagoas. A relação é com a direção da secretaria, com as equipes coordenadoras do Pnud e do MEC e gerenciar as equipes técnicas que estão aqui.

DOE e AA — A equipe da Secretaria está na primeira fase do programa que é a apresentação do Geração Saber à sociedade, chamada de socialização. Como tem sido a recepção ao programa?
LB — Até agora estudamos toda a teoria para saber como é que se atua. Sabemos todas as provas que têm pelo caminho. Esse processo começou há um ano com cerca de 250 pessoas envolvidas e hoje temos com cerca de 30 equipes. A recepção tem sido muito boa e o significado da socialização é levar as propostas há vários segmentos da sociedade para que mostre o quaro perocupante de Alagoas e que existe um caminho. Levamos primeiro para aqueles que têm poder de decisões político-administrativas. O primeiro foi o próprio governador que nem precisou muito da socialização porque ele participou do embrião do Geração Saber, com o próprio Ministério quando se oficializou uma política de Estado.

DOE e AA — E depois...
LB - Logo após apresentamos aos secretários estaduais; prefeitos; secretários municipais de Educação; deputados estaduais. Depois entramos para o público da sociedade civil, que é apoiadora do Pacto pela Educação e aí entrou o Conselho Estadual de Educação. Nesta fase, a socialização está na gestão da Edcuação, na admnistração central da secrertaira, nas regionais e nas representações de escolas dividas em seis polos de trabalho, membros dos conselhos escolares etc. A intenção é que cada setor desse seja um multiplicador.

DOE e AA - E quantos encontros de socialização foram realizados e quantos faltam nesta fase?
LB — Já fizemos 20 reuniões e já estão agendadas pelo menos mais seis, solicitadas por outras entidades, como a União dos Vereadores de Alagoas (Uveal); a Academia Alagoana de Letras, a própria mídia, a Igreja que saber, o que é muito bom por que já é um start de que não é somente a secretaria que está se manifestando, mas as entidades querem saber o que é esse programa. E isso já está, inclusive, tendo uma repercussão externa, fora de Alagoas, porque o Conselho Nacional de Secretários de Educação está querendo saber dessa experiência de Alagoas, assunto que deverá entrar em pauta na próxima reunião do Conselho que reúne os 27 secretários de Educação do país. Eles estão querendo saber. E isso é maravilhoso, porque Alagoas sempre foi visto como um ‘patinho feio’ dos 27 estados. O Estado tem o estigma de chegar em Brasília apenas para pedir, agora não, há algo sendo produzido daqui, com gente daqui, até porque houve uma decisão política do governador de querer atacar a educação pela base, sem fazer remendos . E o MEC acreditou e aposta nisso.

DOE e AA - E qual seria de fato o diferencial desse programa, uma vez que o Geração
Saber vem sendo encarado como espécie de projeto-piloto para o país?
LB — A discussão é toda focada no aluno. Não só no aluno da escola estadual, mas em toda e qualquer escola de Alagoas. Na seqüência, é a escola que terá que ter as condições para atender a esse aluno. E depois equilibrar o referencial curricular, porque a realidade de Alagoas é que o aluno aprende uma coisa em um lugar e quando muda de escola, ele se prejudica, pois a outra escola tem o currículo diferente da que ele estava anteriormente. Não há referencial de grade curricular padrão. Acontece isso devido as diversas reformas como em 1972, e em 1996; e há escolas em Alagoas que estão com padrão de 1972, ou seja, perderam o bonde da História. Com o Geração Saber haverá padrão curricular.

DOE e AA — Teríamos outro diferencial?
LB - E a outra é quebrar o paradigma importantíssimo que está na visão de não olhar só para seu próprio umbigo, porque o Geração Saber quer olhar para a escola de Alagoas e não somente para a escola do Estado. É pensar na educação em Alagoas e não nas escolas estaduais, até porque mais de setenta por cento das escolas são municipais. E normalmente o aluno inicia na escola municpal e muitos chegam no ensino médio com dificuldade de leitura. Vamos quebrar esse paradigma. Alagoas sai na frente porque cria o regime de colaboração com os municípios. Atualmente, a grosso modo, de cada quatro escolas da rede pública de ensino, três delas pertencem aos municípios.

DOE e AA - E como vai funcionar a descentralização de atribuições da sede da Secretaria de Educação, das Regionais de Ensino, das CREs, mesmo aquelas localizadas no interior do Estado, como será?
LB — Atualmente, existe uma dependência absurda de qualquer escola no interior do Estado com a sede da Secretaria de Educação. Se quebrar um computador, se quebrar uma telha na escola lá em Santana do Ipanema, o sujeito tem que vir a Maceió, perder um dia inteiro, para resolver isso, para fazer esse concerto. É a política da cultura da dependência instalada. Se não quebrar isso, não vai funcionar nunca. E o Geração Saber propõe quebrar isso. No Geração Saber, a Coordenadoria Regional será fundamental, porque ele terá que ter técnico, engenheiro para não precisar um dia de viagem para vir à sede.

DOE e AL - Em termos de investimentos práticos dentro dos R$ 214 milhões disponibilizados para a execução do programa, o que a sociedade já pode notar na aplicação de parte do
dinheiro empenhado para o Geração Saber?
LB - Das 105 escolas que passarão por reformas, 19 já deram entrada no processo de edital de licitação. Na parte das obras para acontecer, o Estado terá que comprovar a dominialidade dos terrenos e dos locais porque o Tribunal de Contas da União não deixa mais ocorrer. Ou seja, o Estado tem que comprovar que é seu. Porque o que acontecia é que se fazia investimento público e depois chegava o dono do terreno e tomava, era o chamado desperdício. Na parte da computação estamos dependendo apenas agora dos ajustes dos recursos para lançar os editais. A parte de revisão, organização já estão prontas, mas precisam de sanção, questões legais, projetos de lei, ou seja, algumas coisas passarão pela Assembleia. Já na parte que não é tão visível, está havendo detalhamento.

DOE e AA - E os resultados para os alunos, quando poderão ser conferidos?
LB - Imagine que eu sou dono de uma montadora e quero construir um novo carro. Essa mudança depende de poucas pessoas e muitas máquinas, novas prensas, então será muito mais fácil fazer um novo carro. Na educação, o processo de mudança é muito mais complicado, porque depende de postura, de cultura, da capacidade humana, da maturação de ideias, o que leva um certo tempo. Agora quando essa mudança ocorre ela é brutal, porque à medida que as pessoas percebem que outras estão mudando, a energia, o entusisiasmo são imensos; quando elas descobrem que são capazes de mudar o mundo, é fantástico, coisa que a máquina e o carro não têm. E isso eu já disse para o governador, porque o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de Alagoas não vai mudar de uma hora para outra, em dois anos, mas quando mudar, a mudança do coletivo será imensa e os resultados vão aparecer.