Jornal Cidade - Aracaj Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Agricultor desolado com a morte de seu gado

“Começa como se estivesse com uma fraqueza, aí quando ele caminha, fica caindo os quartos, depois passa a urinar sangue e ter diarréia. Não demora muito para que caia morto. É bem rápido, acredito que no máximo 48 horas”.

Esses são os sintomas que levaram a morte de 20 gados da produtora de Porto da Folha, Maristela Bezerra dos Santos e de muitos outros sertanejos do município. A população, que praticamente sobrevive da agricultura familiar, está desesperada com a situação e acredita que algum tipo de doença misteriosa está invadindo e dizimando os bois da cidade.

A grave notícia foi pauta de alguns meios de comunicação da capital nesta semana, gerando grande repercussão e preocupando os estados vizinhos. Segundo a diretora de Defesa Animal e Vegetal de Sergipe, Salete Dezen, os serviços oficiais da agricultura das cidades de Alagoas e Bahia entraram em contato com a Empresa de Desenvolvimento Agropecuário (Endagro), em Aracaju.

Porém, mesmo com todo esse alvoroço, Salete afirma não há motivos para preocupação, pois não existe nenhuma doença desconhecida em Porto da Folha, portanto não se deve alarmar o Estado e as cidades vizinhas.

“Tanto Alagoas quanto a Bahia, ligaram para o serviço oficial do nosso Estado e foi dito que não está acontecendo nada. Nós não temos porque esconder. Entendo a preocupação deles, claro, porque a imprensa está divulgando fatos que não estão ocorrendo. É preciso parar com isso, porque senão podemos ter um grande prejuízo”, alerta.

De acordo com Salete, não existe uma doença específica, pois as causas das mortes foram variadas, ao contrário do que aconteceu há dois anos, quando um grande número de animais morreu por conta da raiva. “Os últimos problemas que tivemos com o gado daquela região foi na época da seca. Houve uma falta de água e de alimentos, aí ocorreram algumas mortes devido a impactação ruminal, ou seja, alimento muito seco, muito fibroso e com isso, o animal vem a óbito”.

Salete afirma que esses problemas recentes que estão acontecendo em Porto da Folha são
pontuais e todas as doenças já foram diagnosticadas. “A Emdagro tem um médico veterinário no município e toda vez que ele está em dúvida do diagnóstico, ele nos procura e a gente manda uma equipe lá, mas até agora não foi preciso fazer isso, porque dos animais que morreram, não se teve nenhuma dificuldade em dizer qual foi o motivo da morte, portanto não existe problema”, explica.

Sob controle

A diretora ainda assegura que todos os prognósticos estão sendo encaminhados para o serviço oficial do Estado. “Um relatório foi produzido, identificando a causa da morte dos animais. Não precisamos nos preocupar, porque não estão acontecendo óbitos por motivo de uma única doença. Está tudo sob controle. Não é preciso fazer todo esse alarme. Sergipe tem zona livre para comercialização do bovino e, além do mais está há 14 anos sem registrar nenhum caso de febre aftosa”, ressalta Salete.

“A partir do momento que nós tivermos qualquer tipo de doença, nós obrigatoriamente notificamos o Ministério da Agricultura que logo avisa ao país inteiro. Mas, felizmente, não temos nenhum caso. O serviço oficial do Estado é muito confiável, então, jamais nós deixaríamos de informar sendo atestado que Sergipe está tendo problemas graves com o gado”, acrescenta a diretora de Defesa Animal e Vegetal.

Salete calcula que caso fosse detectada algum tipo de doença desconhecida em Sergipe, os danos para o Estado seriam imensuráveis. “Nenhuma cidade receberia mais os animais oriundos daqui e nós não poderíamos mais exportar carne. O prejuízo econômico seria grande, já que somos um dos grandes exportadores do Brasil e o país é responsável por 35% da carne exportada no mundo, considerado o maior exportador de bovinos”, detalha.

Não acreditam

Apesar de todas as explicações da diretora de Defesa Animal e Vegetal, os produtores de Porto da Folha não se convencem e garantem que a situação precisa de uma atenção melhor por parte do Estado, pois é preocupante. “Na verdade, esse problema já vem acontecendo há cerca de uns dez anos e ocorre sempre na época do enxugar da terra. Esse ano, não perdi nenhum boi ainda, graças a Deus. Apenas um garrote que vendi para um rapaz e depois ele veio me avisar que o bicho morreu. Fiquei sem entender o que havia acontecido, pois tenho meu gado todo vacinado”, diz o sertanejo de Porto da Folha, Edenildo Rodrigues.

Edenildo revela que voltou a ficar preocupado, uma vez que, no ano passado, nesse mesmo período, perdeu três reses sem explicação. “Quando aconteceu isso, não comuniquei a Emdagro porque não imaginava que poderia ser algo tão grave. Sei que foi uma falha minha. Não pensava que um dia algo parecido poderia voltar a atacar. Agora, pra garantir, já reforcei as vacinas e espero que não me atinja de novo. Mesmo assim fico preocupado”.

O sertanejo Luís Inácio, 75 anos, também já foi alvo da misteriosa doença e, por medo, conta que vendeu a maior parte do seu gado. “Todos os anos acontece a mesma coisa. O bicho fica numa tristeza danada, aí fica fraco, com uma moleza nas patas traseiras e morre. Ninguém sabe do que. Pra não ter prejuízo me desfiz de quase tudo. Fiquei apenas com 13 reses e agora sou plantador de milho também”.

O caso mais recente que gerou grande comoção no município e até no próprio Estado foi o do agricultor Antônio Alves Rodrigues que, recentemente apareceu numa emissora de televisão de Aracaju chorando pela morte do seu touro, muito conhecido na ‘Cidade das Vaquejadas’ e apelidado carinhosamente pela comunidade como ‘Vaidoso’. O animal tinha nove anos e sempre participava da pega do boi no mato. Era tão arisco que nenhum vaqueiro nunca conseguiu pegá-lo, apenas essa doença tão enigmática conseguiu derrubá-lo, levando-o a óbito.

Para seu Antônio, ‘Vaidoso’ era mais do que um animal, era um bichinho de estimação que já fazia parte da família. “Ele morreu no dia 22 de março desse ano. Acordou bem, de repente começou a tremer, aí ficou arreando as patas traseiras, corri para chamar o veterinário que veio e medicou ele, mas não adiantou. Foi muito rápido, em poucas horas ele morreu. Fiquei desesperado vendo meu boizinho agonizando. Eu gostava muito dele. Pra mim, ele era diferente dos outros. Era brabo, mas comigo ficava bonzinho”, recorda, com lágrimas escorrendo pelo rosto.

O apego ao animal era tanto que, para matar a saudade, seu Antônio guardou os chifres do ‘Vaidoso’ pendurado na parede da sua residência. “Enterrei ele para mal de que os urubus não o comessem. Arranquei os chifres para ter como lembrança. Se depender de mim, ele não vai sair da minha casa nunca, nem quando eu morrer”, diz o agricultor

Ninguém apareceu

Mas, não foi apenas o seu boi preferido que Antônio perdeu. Ele comenta que ao total já se contabilizam 16 cabeças de gado mortas sem explicação. “Tenho uma média de 70 reses e estou muito preocupado de perder tudo. A mãe do ‘Vaidoso’ morreu agora em julho e também não sei dizer o que foi. Meus animais são vacinados. Ninguém apareceu aqui para me dizer o que está acontecendo com eles”, lamenta o sertanejo.

O filho de seu Antônio, José Alves, 40 anos, confirma as palavras do pai e comenta que está com medo do pior que ainda pode vir a acontecer, caso não seja tomada uma providência urgente. “Essa doença parece que quando dá em uma propriedade começa a transmitir para as outras vizinhas. A gente cria com tanto trabalho, consegue sobreviver à seca e chega agora morre. É de ficar triste”.

A produtora Maristela Bezerra também garante que não recebeu a visita de nenhum veterinário da Emdagro na época que os seus 20 bois morreram. “Eu não tenho conhecimento de que foi feito exame na fazenda de ninguém. Na minha não apareceu e, pelo que sei, nem na região. Ficamos sem saber o motivo e agora está voltando tudo de novo. Entregamos nas mãos de Deus, ele é o único que pode nos socorrer”, desabafa.

O veterinário da Emdagro responsável pelo município de Porto da Folha, Luís Ferreira, rebate todas as afirmações e assegura que todas as mortes foram diagnosticadas. “Atualmente, não está tendo nenhum problema preocupante. O boi ‘Vaidoso’ morreu de uma sintomatologia nervosa e o diagnóstico clínico foi dado como uma meningite bacteriana. Eu me acho capacitado para fazer os diagnósticos, agora se eu sentir dúvida, solicito ajuda da Emdagro, porém ainda não precisei disso. Pra mim, também está tudo sob controle”.

O agricultor e autônomo, Jean Paulo, questiona o motivo pela qual não foi feita pela Emdagro uma coleta de material do gado que já morreu, para que assim se verifique a causa da mortandade em Porto da Folha. “Já fiz essa pergunta para Salete Dezen em uma emissora de rádio e ela me confirmou que teria que se fazer um diagnóstico diferencial no boi ‘Vaidoso’, coletando o cérebro e levando para o laboratório. Mas, segundo ela, o proprietário, por apego ao animal, não chamou o veterinário para colher nada, justamente por não permitir que abrissem a cabeça do animal”.

“Aí é que pergunto novamente: será que é preciso ele acionar alguém, se a Emdagro já tinha conhecimento do caso? Mesmo que seu Antônio não permitisse que abrisse o boi, a vontade dele não pode prevalecer, colocando em risco toda uma comunidade. O escritório da Emdagro daqui de Porto da Folha até funciona ativamente e os funcionários são pessoas bastante interessadas, mas eu não vejo neles a capacidade de fazer uma pesquisa técnica mais apurada para descobrir o problema. Acho que seria mais cargo da central de Aracaju”, opina Jean Paulo.