Supor que irá operar uma hérnia abdominal num dia e que no dia seguinte estará pronto para dar um passeio no parque é comum entre os pacientes que irão se submeter a essa cirurgia. No entanto, o pós-operatório pode ser um momento de confronto com a realidade, sugere um estudo, apresentado durante a reunião anual da Sociedade Americana de Cirurgiões Gastrointestinais e Endoscópicos, em Salt Lake City, EUA.

 

Os pesquisadores da Clínica Mayo descobriram que, apesar de os pacientes esperarem retornar às atividades normais rapidamente, após a laparoscópica para a correção de hérnia ventral, muitos dos que foram estudados ainda vinham sentindo dor e fadiga vários dias depois do procedimento. Pessoas com menos de 60 anos e as mulheres, em particular, apresentavam recuperações mais prolongadas.

 

Segundo os autores do estudo, os cirurgiões precisam trabalhar expectativas mais realistas com os pacientes sobre o pós-operatório para ajudá-los a lidar melhor com a dor e a fadiga após o procedimento.

 

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores estudaram a qualidade de vida de 18 pacientes nos primeiros sete dias após a cirurgia, considerada a pior parte do período de recuperação. Eles descobriram que os níveis médios de fadiga e de dor relatados pelo paciente não retrocederam aos níveis pré-operatórios até sete dias após o procedimento. As mulheres e as pessoas com menos de 60 relataram mais problemas relacionados ao bem-estar físico nos dias após a cirurgia do que os homens e pacientes com mais de 60 anos.

 

"Pode ser que as pessoas esperem, por terem visto seu vizinho dando um passeio no jardim, no dia seguinte, após a cirurgia da vesícula biliar por laparoscopia, essa mesma recuperação rápida da laparoscopia para correção da hérnia ventral. É preciso trabalhar a expectativa exagerada em relação às cirurgias minimamente invasivas. Os pacientes provavelmente vão descobrir que são precisos vários dias antes de começarem a se mover do jeito que costumavam fazer antes de uma cirurgia laparoscópica para correção da hérnia ventral”, afirma o cirurgião Silvio Gabor (CRM-SP 47.042).

 

Segundo o médico, a laparoscopia para correção de hérnia ventral é realizada quando se forma um hiato entre os músculos do abdômen, permitindo que órgãos ou outros tecidos moles comecem a empurrar a área enfraquecida e potencialmente causem obstruções e dor. “A cirurgia de hérnia é uma das mais realizadas em todo o mundo. Trata-se de uma cirurgia de médio porte, com baixíssimos índices de complicações pós-cirúrgicas. Qualquer pessoa pode desenvolver uma hérnia ventral, embora as pessoas que já tenham feito uma cirurgia com uma incisão, tenham doença pulmonar, sejam obesos ou tenham o sistema imunológico debilitado estão em maior risco”, observa Silvio Gabor, que também é professor assistente de Cirurgia Geral e do Trauma da Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro (UNISA).

 

Os resultados dessa nova pesquisa defendem que o pós-operatório é pior do que o esperado para os pacientes. “Nesse caso, considero muito importante que os pacientes alimentem expectativas realistas em relação à cirurgia e à própria recuperação, para não ficarem surpresos ou decepcionados. Para os cirurgiões, é importante olhar com mais atenção para o que podemos fazer para melhorar a recuperação. É somente o controle da dor? Existe outro tipo de ajuda que podemos oferecer para que a dor e a fadiga durante pós-operatório sejam menores?", questiona o médico.

 

Neste sentido, Silvio Gabor defende que mais pesquisas sejam realizadas para determinar se uma abordagem individualizada para a recuperação do paciente, após a cirurgia, pode ajudar os pacientes a “voltarem ao normal” mais rapidamente.