Abrir a bolsa, retocar a maquiagem, guardar tudo de volta. Destravar a tela do celular, olhar as horas ou alguma notificação e guardá-lo no bolso novamente. Pequenas atitudes que, talvez, caibam num pequeno intervalo de apenas doze segundos. Mas, paralelo a esses pequenos movimentos, uma mulher pode estar sendo vítima de violência sexual em qualquer parte do país. É o que revelou um levantamento da Secretaria de Políticas para Mulheres em uma pesquisa de julho de 2013.

De acordo com a Lei 12.015/2009, toda forma de sexo não consentida é estupro, mesmo que seja dentro do casamento ou com algum conhecido. Outras formas de violência sexual, como sexo oral, por exemplo, é passível de multa dependendo de como se deu o crime. Para muitas mulheres, no entanto, realizar uma denúncia não é nada fácil.

Uma pesquisa da Universidade Federal de Alagoas mostrou que as vítimas também desconhecem a necessidade de cuidado à saúde. Foi o que descobriu Luciana de Amorim Barros, mestra em Enfermagem pela Ufal, que elaborou a dissertação Vivência de acolhimento por mulheres vítimas de estupro que buscam os serviços de saúde, orientada pela professora Maria Cicera dos Santos de Albuquerque, pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF) da Escola de Enfermagem e Farmácia (Esenfar).

Para ela, na atual conjuntura que a rede de serviços se apresenta à vítima de estupro, a vivência favorece um processo de revitimização da violência pela mulher, que já carrega os traumas provenientes da violência. “Acredito que o estudo também traz contribuições ao meio científico, acadêmico, político e social, pois fornece subsídios importantes para a produção do conhecimento sobre a temática e possibilita repensar o cuidado especialmente às mulheres vítimas de estupro e por outras situações de violência sexual”, explicou a pesquisadora.

Para desenvolver sua dissertação, Luciana contou com a colaboração de onze mulheres vítimas de estupro com idades entre 18 e 45 anos, que estivessem em atendimento no ambulatório de uma maternidade pública de Maceió. Segundo ela, não houve recusa por parte das mulheres convidadas a participar e para assegurar a privacidade e confidencialidade das informações dadas, todas foram identificadas por nomes fictícios de flores, com a intenção de dar leveza à situação tão complexa vivenciada por elas e como forma de homenageá-las utilizando a identificação de um símbolo de beleza e de paz.

Conhecendo as histórias

O estudo aponta que todas as agressões aconteceram no município onde a mulher reside, dentro e fora de sua residência, no horário entre 18h e 7h, registrando que o atendimento emergencial se deu em outro município dentro das primeiras 24h após o estupro e o acompanhamento ambulatorial, em média, 23 dias depois desta violência. Das onze vítimas entrevistadas, sete são do interior – as outras quatro residem na capital.

“Esse expressivo número de vítimas do interior em busca de atendimento na capital nos faz questionar a rede de atendimento a essas mulheres que, após vivenciarem o estupro, sequer têm direito de acolhimento em sua cidade. Isso nos causa preocupação e sinaliza para a necessidade de investimentos políticos neste âmbito”, apontou Luciana.

A maior parte das agressões (oito) se deu em via pública, chamando atenção para a realidade da violência urbana. Nos outros três, o estupro se deu dentro do próprio domicílio, porém os autores não são familiares - apenas uma delas afirmou conhecer “de vista” o agressor. “Além de não saberem da necessidade de recorrer aos serviços de saúde após a ocorrência do estupro, elas também desconhecem o fluxo existente para o atendimento à mulher vítima de estupro. Agrava-se o fato de que os profissionais, de diversos serviços na capital e no interior, também desconhecem tal fluxo”, apontou a pesquisadora.

O caminhar solitário: um desalento no percurso

No decorrer da dissertação, falas das mulheres entrevistadas dão o tom de como é difícil conseguir acompanhamento. E a espera para isso é um dos contratempos. “Foi 'um ano' na delegacia para eles atenderem. Aí eu disse: 'Vamos tentar ver se consegue fazer no IML sem a guia'. Voltei para o IML, mas mesmo assim estava fechado”, relembrou Gardênia, uma das vítimas. “A gente procurou, procurou e não achou qualquer delegacia aberta. Isso já era acho que meia-noite, quase uma hora”, recordou Lírio.

Muitas vezes, também, elas realizam o caminho sozinhas e sem qualquer acompanhamento profissional. “[...] Eu estava desesperada, chorando […] me colocaram na ambulância com o motorista e a gente veio para Maceió”, disse Gardênia. “[...] O carro não podia ficar esperando pela gente porque tinha os outros pacientes [...] nós duas sozinhas sem ninguém acompanhar [...] todo mundo olhava para mim: 'Menina, aconteceu tudo isso e você está desse jeito?' Fazer o quê? Eu tinha que enfrentar”, recordaram as vítimas Rosa e a nora Lilac”.

Quanto às mulheres do interior de Alagoas, o estudo evidenciou que após a ocorrência, ao buscarem atendimento nos serviços de sua localidade, não foram levadas diretamente para a Maternidade de referência ao atendimento da pessoa vítima de estupro (a exemplo de Rosa, Lilac e Gardênia que foram encaminhadas primeiramente para outro hospital que compõe a rede de atendimento de modo que apenas lá foram informadas da necessidade de ir à maternidade e depois voltarem para o hospital).

“E eu ainda chamo atenção para o caso da Gardênia, que buscou apoio no hospital do interior onde residia, sendo encaminhada pelo profissional que a atendeu para a capital, sem, contudo especificar o órgão ou instituição de saúde a que deveria recorrer. Nesse caso, o motorista foi quem pensou buscar atendimento no IML [Instituto Médico Legal], mas por estar fechado, lembrou-se do hospital”, ponderou Luciana, registrando que, para ela, essa é uma grave violação das diretrizes do acolhimento em saúde.

Mas, apesar dos percalços, as vítimas disseram se sentir bem acolhidas, protegidas e cuidadas com a oferta dos serviços. “O acolhimento (na maternidade) foi bom […] fui muito bem atendida [...] bem acolhida. […] a médica (do hospital) disse que se tivesse alguma outra reação voltasse para ela ou outro médico que tivesse na hora”, recordou Gardênia; “[...] uma enfermeira que me atendeu quando eu cheguei, muito boazinha, perguntou se eu queria falar sobre o assunto. Eu falei que eu não. Ela informou tudo que iria acontecer comigo. [...] depois veio a médica, a assistente social, a psicóloga, ou seja, o atendimento, não posso me queixar do humano. [...] na hora da Benzetacil, veio o rapaz. Eu falei: 'o senhor não me leve a mal, mas eu gostaria que viesse uma moça para me atender.' Ele na mesma hora saiu e veio uma moça”, contou Margarida.

Considerações finais

“Ao lançarmos o olhar para a vivência de mulheres vítimas de estupro na busca por cuidado à saúde, o estudo nos permitiu um profundo mergulho na complexa temática da violência sexual, suas interfaces com as questões de saúde, acolhimento e intersetorialidade e nos fez refletir acerca da coragem das mulheres que, após o estupro, rompem o silêncio, vencem o medo, a vergonha e decidem caminhar em busca do cuidado à saúde nos serviços de referência para atendimento a mulheres em situação de violência sexual”, apontou a pesquisadora.

O estudo direciona ainda para a necessidade de se discutir tais especificidades nos cursos de graduação na área da saúde, a fim de melhor qualificar os profissionais para o acolhimento às mulheres em situação de violência. “Sinaliza-se a necessidade de ações políticas que incentivem uma efetiva articulação dos serviços para o atendimento à mulher em situação de violência sexual que, de fato, seja acolhedor. Isso pode se dar, por exemplo, por meio da organização dos serviços em um mesmo espaço físico, sem que as mulheres precisem se deslocar e repetir sua história por diversas vezes”, concluiu Luciana de Amorim Barros.