1358905579lauthenay61 Lauthenay Perdigão

- Viu só o Mário?
- Um bolão! Ainda não é craque, mas tá pintando.
- Deixa prá lá. Pra jogar no meu time tem que ser cobra mesmo.
- Mas no time não pode ter dois centroavantes?
E esse criolo... não sei não.

A conversa do Vavá abriu os olhos dos outros.

Até então, encaravam o garoto Mário como mais um entre os tantos que faziam experiências num clube grande.

Mas, de vez em quando, surgia um craque. Carlos, titular do time, também começou assim.

Foi duro chegar ao time de cima. Porém chegou. Carlos não acreditava que poderia ficar por baixo, apesar de animar o novato Mário nos treinamentos. Depois, quando ele foi lançado numa emergência e abafara, a coisa mudou muito. Carlos ficou apreensivo. Continuou jogando, mas a torcida queria Mário.

Parecia até que, após aquele jogo, Carlos já não era o mesmo dentro do campo. Era um veterano e começou a perceber que o novato seria uma ameaça para seu lugar no time titular. Mário foi lançado novamente e abafou outra vez. A situação de Carlos ficava cada vez mais difícil e Mário tomava conta da camisa nove. Num treino, o titular se machucou e, com
isso, o novato começou a aparecer mais. Cada vez melhor.

Quando se recuperou, Carlos ficou no banco. A idade pesava, e nem a experiência podia superar a juventude, o ímpeto e a vontade de Mário. O novato era sinônimo de bola no barbante. A cada partida, seus gols surgiam nas mais difíceis formas. Mário ia comendo a bola e virando manchete. Carlos foi sumindo, passou a ser ninguém.

O garoto de Bebedouro virou cobra. Era o dono da galera. O craque do time.

O tempo foi passando. Mário marcando gols, conquistando vitórias e títulos para sua equipe. Seus contratos eram milionários e todos estavam felizes por ter um criolo como Mário na equipe.

Um dia, num lance casual durante a realização de um treino, sentiu uma fisgada na virilha. Uma distensão perigosa e difícil de ser tratada. Somente um longo repouso poderia devolver a Mário suas condições ideais de jogo. O departamento médico foi mobilizado para abreviar seu período de restabelecimento.

No começo, Mário ainda tentava jogar. Não queria se afastar do futebol, dos companheiros, do público. Dizia que estava bom. Começava o jogo e logo era substituído.

Mário começou a sentir medo. Apesar de amadurecido, ele tinha cara de que ia explodir num
choro a qualquer momento. Os olhos brilhantes continham pontinhas de lágrimas. Na sala de recuperação, ele começou a pensar em Carlos.

Ô futebol ingrato. Ele cria os ídolos com a rapidez de um raio, e da mesma forma ele o destroi. Seu substituto era um juvenil. Todas as vezes que ele entrou em campo também assinou seus gols, agradou a sua torcida.

Mário não tirava Carlos do pensamento.

Quando sentiu a fisgada pela última vez e foi substituído, sentiu também um nó na garganta.

Uma coisa assim como medo, vontade de chorar. Quando descia com dificuldade as escadas do túnel, ouvia gritarem as mesmas frases que, anos atrás, dirigiam para ele. Só que agora, eram para seu substituto.

- Ai garoto! Vai firme que a sorte é sua!
- Pra correr garoto! Não tenha medo! Se tiver alguma dúvida, conte com a gente!
- Parabéns garotão! Boa sorte!

As palavras dançavam na sua cabeça. Mário continuava pensando em Carlos. A história parecia se repetir. Na solidão do vestiário, com uma bolsa de gelo na virilha, Mário ligou o rádio para ouvir o resto do jogo. O garoto dos juvenis abafava. Ele ouviu 1x0, 2x0, 3x0. Três gols do seu substituto.

Ao término do jogo, isolado num canto do vestiário, apenas ficou observando a movimentação em torno do novo ídolo do time. Todos queriam abraçar o novo artilheiro. Os locutores desejavam ouvi-lo sobre o s gols que havia marcado. O menino tinha estampado no rosto uma euforia contagiante.

Ainda com lágrimas nos olhos, sentindo que estava esquecido por todos, Mário conseguiu fazer um aceno ao jovem goleador. Esticou o polegar para cima e com a mão fechada, desejou-lhe... BOA SORTE!