“Não deixem a gente morrer, pelo amor de Deus!” Atingida pelo afundamento do solo provocado pela mineração da Braskem em Maceió, Glauciane Alves, moradora do Bom Parto há 38 anos, fez o apelo durante sessão na Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE), nesta quinta-feira (5). Ela relatou ter tentado tirar a própria vida e cobrou cuidados com a saúde emocional das vítimas, além da garantia de direitos jurídicos.

A sessão reuniu representantes das comunidades atingidas, da Igreja Católica, do Ministério Público e das defensorias. Durante o debate, participantes também cobraram o promotor de Justiça Jorge Dórea sobre a atuação dos órgãos públicos no caso.

Representante do Ministério Público Estadual, Dórea afirmou que a prioridade inicial foi preservar a vida dos moradores das áreas sob risco de colapso. Segundo ele, desde então foram firmados acordos e apresentadas ações judiciais, mas algumas propostas não foram aceitas pelo Judiciário.

“Salvaguardar a integridade física dos moradores que estavam sujeitos a sofrerem danos, porque aquele local poderia colapsar. A partir daí fizemos variados acordos e ações que até hoje, pasmem! Passados quase oito anos, continuamos nessa luta”, declarou.

O promotor também atribuiu à falta de acolhimento judicial a não concretização de parte das reivindicações das comunidades.

“A própria comunidade fez alguns pleitos e muita coisa que não está sendo concretizada é porque a Justiça não está acompanhando esse mesmo pensamento”, afirmou.

A participação dos atingidos nas decisões foi defendida por Dom Vicente de Paula, representante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e integrante da Comissão Especial para Ecologia Integral e Mineração.

“Quem está dizendo sobre os direitos de quem foi atingido pelo crime da Braskem? Somos nós ou eles, que sofreram e continuam sofrendo? Eles é que têm que dizer quais são os seus direitos e exigir da mineradora”, afirmou.

O religioso relatou ter vivido durante seis anos com comunidades de Brumadinho, em Minas Gerais, município atingido pelo rompimento de uma barragem da Vale em janeiro de 2019. Segundo ele, a experiência motivou o compromisso de acompanhar populações afetadas pela mineração.

Proposta pelos deputados Ronaldo Medeiros (PT) e Carla Dantas (MDB), a sessão integrou a programação da Caravana pela Ecologia Integral. Medeiros afirmou que as consequências do desastre permanecem na vida das vítimas e defendeu que a discussão alcance os impactos humanos e econômicos.

“Essa sessão especial vai mais além do que o crime ambiental, uma vez que atualmente se fala numa ecologia integral que vê o lado humano, o lado econômico e uma série de outros fatores”, disse.

A mineração de sal-gema da Braskem provocou o afundamento do solo no Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e em parte do Farol. Além de Glauciane, participou do debate Antônio Domingos, representante dos Flexais.

Também estiveram presentes o arcebispo de Maceió, Dom Carlos Alberto Breis Pereira; a procuradora da República Roberta Bomfim; e o defensor regional de Direitos Humanos Diego Martins Alves.