A tecnologia não melhora nem piora as pessoas, é tudo uma questão de usos e costumes. Confesso que eu demoro a pegar, e às vezes só pego no tranco, passando a optar por uma nova tecnologia quando estou convencido de que ela me é favorável e não há de me tornar seu escravo (e passa ela a ser minha serva).
O ludismo foi um movimento dos trabalhadores ingleses, no século XIX, que quebravam as máquinas da indústria, por estar substituindo a mão de obra humana por algo que não reclamava e, aceitemos, produzia mais e até melhor. Uma revolta inócua, já que é impossível barrar esse avanço.
Os alemães criam ótimas expressões idiomáticas, que têm a capacidade de explicar muito com tão pouco. Por exemplo: zeitgeist é uma delas, significando “espírito do tempo” ou “espírito de uma época”. No nosso tempo e/ou época, assim me parece, esse espírito se abraça com a tecnologia, apaixonadamente, como em nenhuma outra.
Na propaganda, nos programas de governo, na divulgação do mercado financeiro – que tem seu próprio deus – e até nas artes, tudo gira em torno da IA, como já é carinhosamente chamada a inteligência artificial. Parece-me, às vezes, que ninguém pode mais explicar a vida, o mundo, os sentimentos, os pensamentos, as relações interpessoais, sem que essa novidade se espalhe feito a água em território infinitamente poroso.
Olha que ela já existe há muito tempo, com os tais algoritmos, por exemplo, só que de repente se tornou conditio sine qua non para que o homem, seu criador, seja considerado um ser pensante e até inteligente, ora pois!
É de se perguntar: como Newton conseguiu descobrir a gravidade? E Darwin, como “bobônica” entendeu os mecanismos da vida, uma coisa que nos parece tão banal, mas é também tão especial? Essa provocação, boba, admito, é apenas para que nos indaguemos sobre a importância da Ciência (e aqui escrevo com maiúscula) para o avanço dessa espécie da qual fazemos parte e nem sempre nos orgulhamos disso. Aliás, é no ventre dessa bela senhora que é engendrada a tecnologia.
Não, as duas não são excludentes, só que uma, a tecnologia, está na prateleira, à venda; a outra, a Ciência, há de nos exigir gastar um pouco do que podemos ter em abundância, se provocada: a inteligência “natural”. Mas precisamos aceitar que o indivíduo que pensa, sendo dessa espécie bobinha, torna-se um perigo para quem está no comando (e não trato aqui do sobrenatural), ainda que temporariamente.
(Schopenhauer, filósofo alemão, afirmava que boa parte de nós prefere morrer a pensar.)
Que ninguém me entenda mal e veja que eu estou aqui usando e abusando de várias tecnologias: da máquina de escrever, com seu teclado QWERTY, do século XIX; da internet, do século XX - só para citar algumas mais evidentes.
Fato: todo o conhecimento humano, com suas consequências práticas, é resultado do acúmulo de várias gerações. O que hoje é novidade há de fazer parte do nosso cotidiano no futuro como algo banal, comum – e útil, por que não?
Mas talvez seja o caso mesmo de saber, antes até de bebê-lo, de onde vem o leite das coisas.
