A vitória de Lula no segundo turno, com 64.256.232 votos (51,79% dos válidos) contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro (48,21%), foi construída nas três semanas entre as duas votações. Levantamento do Instituto Strategio, de Maceió, com base nos resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que o presidente saiu de uma desvantagem de 2.224.965 votos no primeiro turno para uma vantagem de 4.430.191 no domingo (25). A variação no saldo entre os dois foi de 6,65 milhões de votos.

“Não foi uma virada de reduto. Lula cresceu nos 27 estados e em 97% dos municípios. Quando o movimento é tão homogêneo, ele não se explica por um fator local, mas por uma mudança de dinâmica da campanha”, afirma Rafael Arley, diretor do Instituto Strategio.

De onde vieram os votos

Entre os turnos, Lula ganhou 10,38 milhões de votos e Flávio, 3,72 milhões. O estudo identifica três reservatórios disponíveis: 9,3 milhões de eleitores que votaram em outros candidatos no primeiro turno, cerca de 3 milhões que não tinham votado e foram às urnas e 1,8 milhão que deixaram o voto branco ou nulo. Somados, eram 14,1 milhões de votos em disputa, e Lula ficou com cerca de 74% deles.

“Para virar, Lula precisava de algo próximo de 60% do saldo disponível. Ficou com três de cada quatro votos. É uma taxa de conversão muito alta para um segundo turno, e ela só acontece quando três frentes funcionam ao mesmo tempo: a transferência do eleitor de outros candidatos, a redução da abstenção e a retirada de votos do campo adversário”, explica Arley. Ele ressalva que a conta é de saldo: mostra o resultado líquido, não quem trocou de candidato individualmente.

Abstenção em queda

A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo, uma redução de 1,86 ponto percentual, a maior entre turnos da série desde 2006. Em 2006, 2010, 2014 e 2018, a abstenção subiu no segundo turno. Em 2022 caiu levemente, de 20,95% para 20,59%. Em 2026, cerca de 3 milhões de pessoas a mais votaram.

“O padrão histórico é de desmobilização no segundo turno, porque parte do eleitorado perde o candidato de preferência. Em eleições polarizadas e apertadas, esse padrão se inverte: o custo percebido de não votar aumenta. Antes do segundo turno, dissemos que o problema não era o histórico, era a política. A mobilização confirmou essa leitura”, diz o diretor.

O Sudeste decidiu

O maior volume da virada veio do Sudeste. Lula somou 4,8 milhões de votos a mais na região (alta de 24,95% sobre o primeiro turno), contra 1,94 milhão de Flávio (alta de 7,81%). São Paulo respondeu sozinho por 2,61 milhões de votos a mais para Lula, ante 1,22 milhão para o adversário. Flávio venceu no estado, mas a vantagem caiu de 3,4 milhões para 2 milhões de votos. Minas Gerais foi o único estado que trocou de lado: Lula passou de 47,3% para 50,4% dos votos dados aos dois candidatos.

 

O Sudeste concentrou quase metade do ganho de Lula entre os turnos. Arte: Instituto Strategio

 

No Nordeste, Lula cresceu 13,75% (mais 2,96 milhões de votos) e chegou a 69,4% dos votos dos dois. Em pontos percentuais, porém, os maiores avanços ocorreram onde ele era mais fraco: Rio de Janeiro (4,3 pontos), São Paulo (3,8) e Goiás (3,7). Piauí (1,2) e Bahia (1,4) tiveram as menores variações.

“Existe um efeito de teto. Onde Lula já tinha 70% dos votos, sobrava pouco eleitor disponível. O voto que decide a eleição nacional está onde o candidato tem margem para crescer. O Nordeste garantiu a base; o Sudeste definiu o resultado”, avalia Arley.

O avanço também foi capilar. Segundo o g1, o saldo andou a favor de Lula em 5.410 municípios e a favor de Flávio em 160. Levantamento da Folha de S.Paulo aponta que Lula virou o resultado em 211 cidades, entre elas as capitais Rio de Janeiro (51,54%) e Macapá (50,99%). Flávio teve menos votos no segundo turno do que no primeiro em seis estados: Acre, Amapá, Roraima, Maranhão, Amazonas e Tocantins.

Redes e ruas

Para o instituto, a mudança de estratégia da campanha ajuda a explicar a conversão. O canal Exército do Lula, criado pelo deputado André Janones no WhatsApp, chegou a 10,5 milhões de participantes, com uma transmissão de 24 horas que distribuía “missões” para cada participante conquistar ao menos um voto. Lula, que se manteve distante das redes no primeiro turno, passou a gravar vídeos, e a campanha voltou a ocupar as ruas, com atos nas capitais na última semana.

“A campanha corrigiu o diagnóstico do primeiro turno. Organizou a militância digital com meta concreta, que era trazer um voto por pessoa, e combinou isso com presença física. Rede sem rua não leva eleitor à urna; rua sem rede não alcança quem está fora da bolha. Lula ganhou as ruas e as redes, e foi a força da política que virou a eleição”, afirma Arley.

A votação estendida não definiu o resultado

No domingo, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), estendeu o horário de votação até as 19h, após pedido da coligação de Lula que relatava falta de ônibus em cidades como Salvador e São Paulo. A orientação do TSE aos tribunais regionais só foi assinada às 17h49, e a prorrogação valeu apenas para as seções que ainda estavam abertas.

O Instituto Strategio analisou os registros das 499.162 seções eleitorais do segundo turno, com dados do TSE. Apenas 7.355 seções (1,47% do total) ficaram abertas além do horário regular, concentradas no Rio de Janeiro (3.301), em São Paulo (1.874), na Bahia (1.014), em Pernambuco (705) e na Paraíba (312). Em Alagoas, foram só 3. Somados todos os votos dados nessas seções ao longo do dia inteiro, chega-se a 2,13 milhões, menos da metade da diferença final entre os candidatos.

Os votos efetivamente registrados depois das 17h, em todo o país, somaram 34.745, o equivalente a 0,03% dos votos e a 0,8% da diferença de 4,43 milhões. A maior parte (29.606) ocorreu em seções de horário normal, com eleitores que já estavam na fila no encerramento, como prevê a lei. Depois das 17h20, foram apenas 3.659 votos.

 

Fonte: TSE. Cálculos: Instituto Strategio

 

“O dado encerra a discussão. Mesmo no cenário mais extremo, descontando todos os votos das seções que ficaram abertas até as 19h, e supondo que todos fossem de Lula, ele ainda venceria por cerca de 2,3 milhões de votos. A diferença construída ao longo do dia é cerca de 127 vezes maior que o total de votos registrados depois das 17h”, diz Arley. Ele pondera que a decisão tardia gerou insegurança e tratamento desigual entre estados, o que merece avaliação institucional, mas não alterou o resultado.

Alagoas

Em Alagoas, Lula teve 60,8% dos votos válidos: 1.152.621 votos, contra 744.140 de Flávio. Entre os turnos, o petista ganhou 157.162 votos (alta de 15,79%), e o adversário, 8.422 (alta de 1,14%). Pariconha, no Sertão, deu 90,78% a Lula e ficou entre as dez maiores votações do país. A exceção foi Maceió, onde Flávio venceu com 52,01%, contra 47,99% de Lula.

 

Em Alagoas, Lula teve 60,8% dos votos válidos. Arte: Instituto Strategio

 

“Alagoas acompanhou o padrão do Nordeste e teve uma das maiores taxas de crescimento de Lula na região, atrás apenas da Paraíba e de Pernambuco. A capital, porém, segue um comportamento próximo ao de outras capitais do Sudeste e do Centro-Oeste, com eleitorado mais urbano e escolarizado. É uma clivagem que os dois campos vão precisar ler com atenção em 2028”, observa Arley.

Fontes

TSE: resultados do 1º e do 2º turno das eleições presidenciais de 2026 (100% das urnas apuradas), via g1.

TSE: registros das urnas do 2º turno de 2026 (horários de abertura, encerramento e votos por seção), analisados pelo Instituto Strategio.

g1: variação de votos por estado, resultado nas capitais e mapa de saldo por município (26/10/2026).

Folha de S.Paulo (DeltaFolha): municípios virados por Lula (26/10/2026).

O Tempo e Nexo Jornal: prorrogação do horário de votação (25/10/2026).

Gazeta do Povo e Metrópoles: canal Exército do Lula.

Cálculos: Instituto Strategio.