Na foto: Praia do Saco, em Marechal Deodoro- foto de Edilson Omena/ Jornal Tribuna Independente

Com oceanos subindo em ritmo recorde, especialista defende mudança urgente na engenharia de proteção costeira e alerta: soluções tradicionais já não suportam a força das marés.

O avanço implacável do oceano deixou de ser uma ameaça distante e virou realidade de destruição no litoral de Alagoas. Nas últimas semanas, o mar invadiu áreas recreativas, derrubou estruturas, destruiu imóveis e chegou a engolir veículos. Para o engenheiro Marco Lyra, um dos principais especialistas do país em recuperação de praias, o cenário é o reflexo de uma tragédia anunciada — acelerada pelas mudanças climáticas e pela insistência em modelos obsoletos de proteção costeira.

"As experiências com obras tradicionais não estão aumentando a capacidade de resiliência da praia. É preciso mudar a concepção dos projetos de engenharia para proteção costeira urgentemente", adverte Lyra.

Retrato da devastação no litoral alagoano

O impacto das marés altas e ressacas cada vez mais severas acumula prejuízos em diferentes pontos do estado:

Pontal do Peba (Piaçabuçu): Dezenas de residências já foram arrastadas pela erosão. Recentemente, a maré subiu a níveis críticos e engoliu um carro estacionado longe da faixa normal da água.

Barra Nova (Marechal Deodoro): Mais de 15 casas foram destruídas ou parcialmente arruinadas. A força do mar rompeu uma gigantesca barreira de contenção e abriu uma enorme cratera na área de lazer do tradicional restaurante Galeto Barra Nova.

Pontal da Barra (Maceió): A elevação do mar pressionou o canal da Lagoa Mundaú, fazendo a água avançar violentamente sobre dezenas de residências no litoral sul da capital.

O alerta global: Oceanos subindo em ritmo alarmante

A crise local reflete um fenômeno planetário. Dados da Terceira Avaliação Global dos Oceanos (WOA-3), divulgada pela ONU, revelam que o ritmo anual de elevação do nível do mar saltou de 3,2 mm para 4,3 mm — um aumento superior a 50% em apenas quatro anos.

O motor dessa aceleração vem do alto: segundo a missão GRACE-FO, da Nasa, dois terços da elevação das últimas três décadas são fruto do derretimento de geleiras e calotas polares.

Engenharia em xeque: A aposta na "Engorda Natural"

Frente a ressacas mais violentas que invadem ruas e comércios, Marco Lyra aponta que as cidades litorâneas precisam se adaptar imediatamente. No debate técnico, destacam-se duas abordagens:

Engorda Artificial (Aterro): Deposição mecânica de areia para alargar a praia. Embora comum, costuma exigir obras complementares pesadas (como espigões e quebra-mares) e manutenção contínua.

Engorda Natural: Nova abordagem focada em entender a dinâmica costeira e o papel dos ventos e correntes para regenerar a faixa de areia de forma orgânica e sustentável.

A experiência alagoana com geossintéticos

Desde 2003, Alagoas vem testando dissipadores de energia de ondas feitos com geossintéticos em oito praias com características geográficas e geológicas completamente distintas.

Os resultados apontam para um caminho promissor: a tecnologia conteve o avanço do mar sem transferir a erosão para as praias vizinhas, permitiu a recomposição do perfil de areia por engorda natural e devolveu o acesso seguro da população à praia recreativa.

"As cidades litorâneas precisam de adaptação para enfrentar as marés atuais e futuras frente às mudanças climáticas", conclui o especialista, defendendo a expansão desse modelo para outros pontos críticos do país.