Em um debate televisivo, Emir Sader, um sujeito aparentemente turrão, mas também um intelectual respeitado pelas suas opiniões e posições, que não deixam dúvidas sobre o jeito com que vê o mundo e a sociedade, cortou bruscamente o jornalista que o havia apresentado como “cientista político”:
- Eu não sou cientista político. A política não é uma ciência!
Causou, então, um mal-estar geral, até porque o outro debatedor era conhecido como tal - cientista político. Não vou entrar nesse debate, até porque cada um há de saber o que é ou o que deixa de ser. Mas que, pelo menos, não caia na armadilha de acreditar em “algumas verdades” que se propagam, de geração a geração, sem muita contestação – nem no mundo acadêmico.
Esclareço: sobre o comportamento humano, principalmente se coletivo.
Uma delas: a de que quem conhece o passado não o repete no presente ou no futuro. Não é bem assim, muito menos nessa seara, a política, em que nada se sustenta para sempre, ao contrário das chamadas Leis da Natureza. Neste caso, pelo menos até que algum novo gênio nos mostre outro caminho, mas desconfio que, se assim for, ele repetirá o que está consolidado: o “novo” é o acúmulo de “velhos” conhecimentos, que, finalmente, ganharam a sua própria alcunha.
Assim, a Alemanha, que viu Hitler se tornar um dos maiores criminosos da história da Humanidade, elegeu, recentemente, um neonazista para governador de uma das suas províncias. Aliás, o partido que defende por lá o legado no nacional-socialismo continua crescendo, como se nada tivesse acontecido naquelas décadas de 1930 e 1940.
Não há de se dizer que o povo alemão desconhece os fatos da Segunda Guerra, que, aliás, aconteceu para que “não houvesse mais guerras”, afirmaram os comandantes dos países envolvidos. Bobinhos, eles? Talvez nem tanto, porque haveriam de saber que os homens mudam tanto de opinião que terminam voltando àquelas que abandonaram por “imprestáveis” – e não só em política, que fique claro.
Mas fato é também que quanto mais coletiva uma decisão, mais mutante ela poderá ser no futuro. Do alto da sua sabedoria, Chaplin dizia (Calvero, em “Luzes da Ribalta”):
- ... a multidão é um monstro sem cabeça, que nunca sabe para que lado vai virar. Ele pode ser cutucado em qualquer direção.
Não se trata de demonizar a humanidade, até porque tenho plena consciência de que faço parte dela e como tal me comporto, ainda que aqui e ali destoe da maioria, ou, chaplinianamente, da multidão.
É claro que as redes sociais, a que chamo de “esgoto da alma humana”, muito contribuíram para que chegássemos ao momento que ora vivemos, mas só porque elas exploraram, com absoluto sucesso, as nossas vulnerabilidades permanentes, atravessando nossa pele, ossos e músculos até chegar ao coração.
Por que não falo em razão, cérebro ou semelhantes, na frase acima?
Porque não é o caso. A política sempre foi algo muito próximo do futebol, onde é a paixão que comanda nossas bem-querenças e ações. A questão é que agora quem está à frente de cada “time” são as torcidas organizadas, estas que a mim, pelo menos, assustam e sinalizam que há falhas graves no nosso processo “evolutivo” (e aqui não trato de Biologia, até em respeito a Darwin).
Mas assim como somos capazes das piores atrocidades, também agimos movidos pela empatia ou pela visão de bem coletivo. Sempre que um momento histórico me deixa de baixo astral, imagino a dor e a agonia daqueles que discordavam de Hitler (na Alemanha), de Mussolini (na Itália), de Franco (na Espanha), de Salazar (em Portugal) que estavam no poder ao mesmo tempo, na Europa, em eras nem tão distantes. Muitos, é claro, não viveram para ver que o mundo gira e muda os homens e as ideias dominantes (se bem que nunca de forma definitiva).
Mas, cá para nós, um bom chiste, às vezes, resume um tempo e um lugar. Um amigo querido, personagem que merecerá sempre minha admiração e meu apreço, disse outro dia que, por esses tempos em que a ignorância ganhou uma inequívoca autoridade, “se você der bom dia ou pedir licença, pode ser acusado de ser um comunista fino e perigoso”.
Um exagero, pois não?
(Huum… sei não.)
